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Força de ministros se sobrepõe a Bolsonaro

24/05/2019 08:00:56
? Paulo Guedes, superministro de uma área que o presidente admite não conhecer, mas que não pode ignorar
? Paulo Guedes, superministro de uma área que o presidente admite não conhecer, mas que não pode ignorar (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Jair Bolsonaro (PSL) tem escolhido ministros muito, muito fortes mesmo. Isso é bom. Espera-se que, para cargos tão importantes, os escolhidos sejam pessoas de referência e respaldo. Isso está claro, em particular, em relação ao juiz Sérgio Moro. Ocorre que pelo menos dois dos ministros escolhidos por Bolsonaro são tão fortes, mas tão fortes, que chegam a se sobrepor ao presidente eleito. Não lembro de situação similar.

Ontem houve dois episódios dignos de nota. O juiz Sérgio Moro, escolhido ministro da Justiça e Segurança Pública, demonstrou preocupação com a ideia do presidente sobre flexibilizar a posse de armas de fogo. "A plataforma na qual o presidente se elegeu prega a flexibilização da posse e do porte de armas. Eu externei minha preocupação a ele, de que uma flexibilização excessiva pode ser utilizada para municiar organizações criminosas", disse o ministro.

Não chega a ser algo propriamente chocante. Aliás, é quase uma obviedade, convenhamos. Ocorre que a intenção de liberar armas é proposta central no programa do presidente eleito. É também ponto de honra para os eleitores de Bolsonaro. O que admira não é a posição de Moro. Ela é bastante lógica. Admira que um ministro recém-nomeado não tenha nenhuma cerimônia em contrariar a ideia mais acalentada por aquele que o indicou.

Não é o único caso.

Quando o ministro
desautoriza o presidente

Paulo Guedes, anunciado ministro da superpasta da Economia, foi além de Moro. Na segunda-feira, 5, Bolsonaro disse que a dívida interna poderia ser renegociada. O presidente eleito disse ainda que "um bom ministro da Economia" pode conduzir essa renegociação de forma responsável.

Pois ontem Guedes tratou de desautorizar o presidente. Disse que a fala do chefe dele foi um "mal-entendido". Que Bolsonaro não entendeu o que ele disse. Mas, renegociação está "fora de questão".

Não é pouca coisa. O ministro disse que o presidente falou de algo que não entendeu. E acrescentou que aquilo que o presidente propôs está "fora de questão".

A coisa está indo um pouco longe. Não se desautoriza presidente dessa maneira. A conversa de renegociar dívida é mesmo esquisita. Cheira a calote, moratória. A situação brasileira não está para isso. Porém, se alguém tem de desdizer isso é o próprio presidente. Não é papel de ministro. Não num governo normal.

O próprio presidente afirmou que é Guedes "quem manda na economia". E aí, o presidente eleito cita o ministro indicado para anunciar decisões. "Segundo Paulo Guedes, as Forças Armadas não terão recursos contingenciados. Segundo Paulo Guedes, ele que manda na Economia", disse o Bolsonaro. "Eu acho que nada mais justo, é um reconhecimento às Forças Armadas não contingenciar recursos, que são tratados com tanto zelo pelas Forças Armadas, e que grandes serviços prestam ao Brasil, especialmente em momentos difíceis que a Nação atravessa", acrescentou o presidente eleito.

Pela maneira como os dois falam, Guedes parece mandar até em Bolsonaro no que diz respeito à economia.

É um governo ainda em construção e são relações políticas igualmente em construção. Isso tudo será afinado. Porém, chama atenção o protagonismo desses dois ministros, em contraponto ao papel secundário que o presidente se permite assumir, sobretudo na economia.

Dialogar e ouvir a equipe faz parte. Bolsonaro reconhece em Guedes alguém mais apto que ele para tocar a economia. Então, delegar pode ser até bom. Isso não significa que o presidente possa se anular e se eximir por completo. Quem foi eleito para tomar decisões foi ele e é a ele que a população deve cobrar.

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