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Jornal

O traço de Villaventura

Em clima de 40 anos dedicados à moda, o estilista radicado no Ceará Lino Villaventura consagra-se como a assinatura forte da moda autoral de terras alencarinas para o mundo. Confira interview!

10/06/2017 17:00:00
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Um artista que não cabe nos limites da obviedade, este é Lino Villaventura. Paraense radicado no Ceará, nascido Antônio Marques dos Santos Neto, Lino conquistou ao longo de quase 40 anos de carreira um espaço que é só seu. Ninguém além do próprio artesão de vestidos-joias nervurados – característica de seu DNA estilístico – tem a ousadia fashion para ocupá-lo. A identidade de Villaventura é constituída de vontades de um ser que já nasceu grande estilista e observador da figura humana.

 

Autodidata guiado pela crença depositada nele desde o início, talento que se reconhece pela imprensa local, do Brasil e do mundo, assim como certificado pelas primeiras clientes encantadas com seu trabalho autoral, Lino Villaventura logo viu sua vida de estudante tomar rumo de profissional de moda em Fortaleza. Escolheu a moda ou a moda quem o escolheu. Não importa. O encontro era certo.
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Sempre criando interseções com uma ótica para o luxo, o traço seguro do estilista, como o do croqui sobre a mesa no dia da nossa entrevista, em seu espaço no alto da loja Fortaleza – tem endereço também em São Paulo -, estende-se para além da função do vestir. Lino Villaventura faz da moda, arte, e vice-versa. Seu fator diferencial, à prova do tempo e modelo do glamour, está no que o direciona, desde os anos 1980, à base de profissional otimista com o caminho até aqui. Voltando-se no momento para as quatro décadas que já estalam em sua mente de criador, Lino Villaventura conta os preparativos para viver a chegada do novo tempo de moda, para a marca e ele.
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O POVO: Como planeja e qual o significado das comemorações em torno dos 40 anos de moda?
Lino Villaventura: Não sou muito de planejar as coisas. Sempre quando se planeja muito, não dá muito certo. Mas temos vários projetos em andamento para comemorar estes 40 anos. Um deles será uma grande exposição de retrospectiva. Essas quatro décadas é para nos dizer que temos é que trabalhar cada vez mais, que é preciso fazer com que a marca se fortaleça, principalmente em um período tão difícil como este que estamos passando na economia brasileira. Mas nada de deixarmos nos abater por pessimismo ou por falta de esperança – não sou assim. Tenho esperança, sou otimista, me sinto muito forte, sempre. Também estamos pensando em alguma ação que não fique só na badalação nas lojas aqui e em São Paulo, que tenha um cunho mais social, talvez. Penso em fazer algo que eu possa retribuir a experiência desses 40 anos. Quero que as clientes se sintam prestigiadas, mas também quero dar um sentido maior ao trabalho que fizemos pela moda brasileira de tantos anos.

O POVO: Como é completar 40 anos de um trabalho autoral no Brasil?
Lino Villaventura: Se pararmos para analisar bem, só de você completar 40 anos de um trabalho autoral no Brasil isso já é um presente maravilhoso para todos nós que fizemos essa marca. Porque nem todas sobreviveram tanto. Agora é olhar para frente para completar outros 40. (Risos). Mesmo que eu não esteja aqui, quero que esta marca permaneça.

OP: Você consegue construir uma linha do tempo de momentos que demarcam sua trajetória na moda?
Lino: Ah! São vários momentos. Aqui em Fortaleza mesmo, no início, quando não tinha nenhuma pretensão de trabalhar com moda. Fiz mais por um momento na vida, achando que seria uma coisa passageira, porém acabou se tornando o meu trabalho e comecei a ver que dava certo. Nunca fiz curso de nada, sou completamente autodidata, mas conseguia fazer as coisas, tinha muita coragem, também. Isso já foi um grande momento. Depois quando a marca começou a ser divulgada pela própria curiosidade que despertava e pela qualidade que nós conseguíamos imprimir nessa marca, isso também foi uma grande vitória. Lembro-me de um desfile emblemático no Rio de Janeiro, que era o meu segundo desfile no Rio, de um evento muito grandioso que tinha nos anos 1980, o prêmio Multimoda, com várias marcas famosas brasileiras, quando, na verdade, eu era o menos famoso de todos, mas foi o que mais fez sucesso. Levantei o público, mais de duas mil pessoas, que me aplaudiram de pé, gritando meu nome. Isso foi muito legal! Outro momento marcante foi quando participei da Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil, em SP) e fez fila na porta do meu estande que era pequeno, mas muito moderno e arrojado... Saiu até na Veja que o sucesso da feira não tinha sido nem do Rio nem de São Paulo, mas do Ceará. Mais um para a memória foi quando fui convidado pelo Itamaraty para representar o Brasil em uma grande feira de moda no Japão. Ganhei destaque na primeira página do jornal de Osaka, Tóquio, onde aconteceu o desfile. Na época, começamos a exportar para o Japão e isso também foi incrível. Os anos de SPFW também se somam nesse arquivo de memória, assim como as premiações, os showrooms em Paris, Londres, Milão, os desfiles na Áustria, em Portugal... São vários momentos muito significativos e incentivadores também.

OP: O que te desafia profissionalmente?
Lino: Ah! O grande desafio da minha vida é sempre resgatar em mim essa história de fazer um trabalho original, e que me surpreenda. Claro, quando você tem uma bagagem muito grande de tanto tempo, você pode até aproveitar insights de trabalhos atrás. É quase uma “licença poética” e também um aproveitamento de uma overdose de coisas criativas que você pode tirar e pincelar algumas coisas para fazer com que elas se desenvolvam melhor e sejam mais vistas. Faço isso de vez em quando. Coisas que já fiz, mas que não voltam a ser como eram... Então o grande desafio para mim é fazer com que a marca seja pulsante, que a história dessa marca seja sempre original e desperte sempre atenção e, por que não, criar certa polêmica.

OP: Tem alguma coleção que marcou e pesca agora da memória?
Lino: A primeira que é muito emblemática foi para um desfile que a Marina Dias abriu, em 1997. Ela veio com o seio de fora, piercing, tatuagem e lentes brancas. Depois fiz uma coleção toda branca também, outra em cima do decadentismo do século XIX, tinha quase uma encenação teatral... Enfim, tiveram várias. Também gosto muito de fazer figurino. Teve um de balé que me inspirou a fazer uma coleção com barbatanas – os modelos pareciam lagartos... Esse penúltimo que fiz agora com o Miro, que foi uma exposição fotográfica, as modelos vinham com uma roupa absurda e membros engessados com não sei quantos metros de faixas brancas com textos meus. Esses desfiles todos foram marcantes, entre outros fora do Brasil.

OP: E o que você deseja no seu futuro?
Lino: Desejo continuar trabalhando e ter bastante saúde para enfrentar as minhas vontades e ter como fazê-las. Por mais que você tenha dificuldades, você enfrenta e consegue driblar muitas coisas de outras maneiras. Você pode criar outras formas de fazer um trabalho bom também. É isso que eu pretendo. Continuar fazendo o meu trabalho e que as pessoas que trabalham comigo sempre estejam juntas. 

 

Multimídia
Assista ao web-doc de homenagem exibido no O POVO Noivas dando início às comemorações pelos 40 anos de carreira do estilista: https://youtu.be/H5_ZJls2ZSw

Jully Lourenço

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