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Conheça Amandinha, a cearense que é a melhor jogadora de futsal do mundo

Em entrevista exclusiva, a cinco vezes melhor do mundo fala sobre a responsabilidade de ser a melhor do mundo, o início de carreira e as dificuldades na modalidade

15/07/2019 02:30:14
Amandinha, jogadora cearense de futsal, cinco vezes escolhida a melhor do mundo na modalidade
Amandinha, jogadora cearense de futsal, cinco vezes escolhida a melhor do mundo na modalidade (Foto: FOM CONRADI)

Tricampeã mundial, cinco vezes seguidas eleita a melhor jogadora do mundo e considerada a rainha das quadras. Tudo isso aos 24 anos. A referência mundial do futsal feminino é cearense e cria do Conjunto Ceará. Para se tornar estrela no esporte, precisou driblar meninos em competições, abandonar os pais aos 15 anos em busca do sonho de jogar profissionalmente e perseverar em meio às dificuldades da modalidade, que sofre com a desvalorização. Amanda Lyssa de Oliveira Crisóstomo, mais conhecida como Amandinha, é a camisa 10 das Leoas da Serra e da seleção brasileira.

Apesar da fama e da relevância no esporte, Amandinha não se deixa levar pelas conquistas. Pelo contrário. Sabe bem de sua importância e a usa para a valorização da modalidade. Mesmo com todos os títulos individuais, a cearense ganha cerca de R$ 5 mil. Poderia subir os rendimentos, caso aceitasse uma das inúmeras propostas de times europeus. Mas prefere seguir no Brasil para ajudar na evolução do futsal feminino.

Em entrevista ao O POVO, a cearense fala sobre o início e auge da carreira, as dificuldades da modalidade, a luta pela igualdade e valorização no esporte.

Amandinha, jogadora cearense de futsal, cinco vezes escolhida a melhor do mundo na modalidade
Amandinha, jogadora cearense de futsal, cinco vezes escolhida a melhor do mundo na modalidade (Foto: FOM CONRADI)

O POVO - Como foi a infância, sempre gostou de futebol?

Amandinha - Eu nasci em Fortaleza, no Conjunto Ceará. Nasci e me criei lá até meus 15 anos, que foi quando vim pra Santa Catarina. Sempre fui brincalhona e gostei de esporte. Pratiquei de tudo: ping-pong, futsal, futebol, vôlei. A partir dos meus 10 anos, fui pra escolinha onde eu morava, que só tinha meninos. O professor me aceitou, não tinha meninas. Não era pra ser aceita, mas ele brigou por mim, e aceitaram. Logo depois, eu comecei a aparecer ainda mais para o bairro, passaram a comentar. Fui convidada para um time feminino de uma escola do bairro. Foi meu primeiro time (feminino), no Cora Coralina. Participei de competições, depois fui pra uma escola maior, o Evolutivo. Fiz parte do time do Evolutivo até 2009, 2010. Fiz parte da seleção cearense e fui convidada para participar do Barateiro-SC. Fiquei de 2011 até 2016, quando fui para o Leoas da Serra-SC.

OP -Você tem quantos irmãos? Como é a relação entre vocês?

Amandinha - Dois irmãos. Um de oito anos. Quando vim embora para Santa Catarina nem tinha nascido. Não acompanhei o nascimento dele. Agora é que está perto de mim. Não participei do começo da infância dele. E tenho um por parte de pai. A gente se encontrou após 17 anos.

OP - Você descobriu depois que tinha outro irmão?

Amandinha - Sim. Foi no ano passado. Mas assim, a gente sabia que tinha a possibilidade da existência dele. Ele entrou em contato pelo Instagram. Foi até uma coisa engraçada, algo muito de Deus. Eu nem olho muito as mensagens no meu Instagram, mas a dele eu consegui. Um amigo dele que incentivou: "Fala pra ela que é irmão dela". Ele é bem envergonhado, mas mandou e vi. E a gente se encontrou e convive hoje em dia. A minha família por parte de pai abraçou ele, ajuda. Ele mora no interior do Ceará, em Canindé.

OP - Mas como foi que você passou a ter contato com o futebol? Alguém que te incentivou?

Amandinha - Eu sempre acompanhava meu pai e meu tio, que eram jogadores. Sempre que eles iam jogar com os amigos, seja no campo ou na quadra, onde eles iam, eu ia atrás. Gostava do esporte, jogava, chutava as coisas pelos cantos. Onde podia chutar, eu chutava. Acabou acontecendo como algo natural.

OP - Você não sofria preconceito?

Amandinha - Nunca recebi algo do tipo: "Ah, não quero que ela jogue". Desde a infância, fui rodeada de amigos. A maioria era homem. Com eles não tinha preconceito. Sempre me aceitaram, me queriam no time deles. Quando ia jogar com quem não conhecia, existia aquilo: "Ah, nossa ela é uma menina". Tinha uma desconfiança, mas depois de jogar, todos eles queriam que eu jogasse no time deles. Zoavam os coleguinhas, dizendo: "Ela é melhor que tu". Mas nunca sofri preconceito.

OP - Como foi a saída de Fortaleza para jogar em Santa Catarina? Você era muito nova e teve que ir pra bem longe dos seus pais...

Amandinha - Foi um dos maiores obstáculos. Com 15 anos, filha única e mulher. Ter essa liberação dos meus pais, com certeza, fez toda a diferença. Quando surgiu a oportunidade, meu pai veio pra Santa Catarina para ver como era a estrutura e viu que estava no caminho certo. Foi bastante difícil dar tchau pra minha mãe e meu pai no aeroporto. Minha mãe passou uma semana sem comer. A gente se falava todo dia. Graças a Deus, com a tecnologia, conseguimos amenizar. Posso dizer que foi o maior desafio. Mas ter o apoio deles fez diferença.

OP - Como foram os primeiros anos em Santa Catarina e quando que se deu conta que você era uma realidade no esporte?

Amandinha - Quando vim embora pra Santa Catarina, tive que vivenciar coisas totalmente diferentes. Saí do Ceará com um tipo de cultura, educação e uma forma de viver. E fui pra Santa Catarina, totalmente diferente, comida, frio. O máximo de frio que a gente passa aí (Fortaleza) é de 25 graus. Aqui chega a temperatura negativa. Todas essas mudanças me fizeram enxergar como eu estava enfrentando a distância da família, que realmente eu queria aquilo pra minha vida e ser atleta profissional. Como eu tinha topado esse desafio, tinha que entrar de cabeça e dar o meu melhor. Não adiantava ter feito toda essa mudança e, simplesmente, passar um ano, dois, e voltar pra casa sem conquistar nada. A minha perseverança fez toda a diferença.

OP - Além dos seus pais, tiveram outras pessoas fundamentais para a sua carreira acontecer, como o primeiro professor que acreditou em você...

Amandinha - Quando você é jovem, precisa de pessoas para se espelhar. O apoio do André, meu primeiro técnico, fez muita diferença. (Ele) Me apoiou quando ninguém queria que eu jogasse no campeonato masculino. As escolas que me deram oportunidades. Sou muito grata com tudo que aconteceu. Foi tudo tão natural e bom. Claro que passo dificuldades como todos. Recebo não como todos. Mas os "não", são pra um sim futuro. Sou muito grata também quando cheguei em Santa Catarina. Foi toda uma revolução na minha vida. No Barateiro Futsal tem a Daniela (Civinski, presidente do clube), uma ídola incondicional na minha vida. Tem o Maurício (Neves, criador do projeto) no Leoas da Serra, que também foi um presente de Deus na minha vida. Deus sempre colocou as pessoas certas no meu caminho pra fazer eu crescer e me tornar o que sou hoje.um

OP - E a primeira convocação? Você tinha 18 anos. Como foi esse momento?

Amandinha - Foi muito louco. Eu só assistia as meninas pelo computador. Tinha o grande sonho de ser jogadora, de ser atleta de seleção brasileira. E as coisas foram acontecendo, fui ganhando títulos, essa vaga foi ficando cada vez mais perto. Quando fui convocada, foi uma coisa inacreditável. Jamais esperava, mas que foi a realização do sonho da minha vida.

OP - Nesse dia fez muita festa?

Amandinha - Nossa, muita! Liguei pra minha família, dei a notícia. Falaram pra eu agarrar as oportunidades. Sou uma menina que persevera muito. Não vou ser só mais uma. Quero poder fazer a diferença, estar sempre aqui. Estou desde 2013 (na seleção), há seis anos.

OP - Você imaginava que iria se tornar essa referência no esporte?

Amandinha - Sinceramente, não esperava. Só queria ser atleta profissional e ser feliz, sair de longe para me tornar uma grande atleta e conquistar meus sonhos. Mas jamais imaginava ter esses títulos individuais, ser referência pra minha modalidade. Tudo foi acontecendo naturalmente. São planos de Deus pra minha vida. Quando ganhei pela primeira vez (o prêmio de melhor do mundo), tinha 19 pra 20 anos. Naquele momento, tão jovem, não entendia o motivo de tudo aquilo estar acontecendo comigo. Mas hoje eu entendo, sei porque represento minha modalidade. Posso fazer a diferença e espero que, enquanto tiver força, que Deus me deixe essa responsabilidade.

OP - Em 2014, na final do Mundial contra Portugal, você fez o gol do título e tirou a camisa na comemoração. Conta um pouco dos bastidores daquele título. Quase que vocês nem viajaram, né?

Amandinha - Quando fui convocada pela primeira vez, em 2013, era tudo muito novo, (eu) era apenas uma criança. Fui pra desfrutar, aprender com as mais velhas. Foi isso que fiz. Quando foi em 2014, que fui convocada novamente, coloquei na minha cabeça que eu não queria ir lá somente pra olhar, mas para fazer a diferença. Aquele Mundial iniciou com dificuldade, quase não viajamos. Seria a primeira vez que o país tricampeão mundial não participaria. Colocamos nas redes sociais, houve repercussão. Ganhamos apoio de grande patrocinador, que nos fez viajar. Iniciamos a competição com dificuldade, mas sabíamos da responsabilidade de representar a seleção. Na final, estávamos perdendo de 3 a 1. Faltava cinco minutos pra acabar o jogo. Começamos uma revolução. 3 a 2, 3 a 3, e quando faltava um minuto, fiz uma jogada que é minha. Adoro botar pra correr na ala. Quando fui pra jogada, tentei dar o passe, a bola bateu na defensora adversária, no bate-rebate, a bola sobrou pra mim. Eu chutei e fiz o gol. Com certeza, foi uma bola enviada por Deus. Foi ali que começou toda a minha responsabilidade na minha modalidade. Passei a ser enxergada de outra forma. Foi uma sensação única, não à toa que tirei a camisa, joguei pra cima. Foi muito louco. Revertemos um placar quase impossível e saímos tetracampeãs.

OP - E você se considera a melhor jogadora de futsal de todos os tempos?

Amandinha - Ah, deixo pras pessoas. Fico só quietinha e trabalhando. Me dedico muito. Não pra ser a melhor do mundo, mas para dar o meu melhor. Sei que no mundo inteiro e, principalmente, no Brasil, temos craques boas demais. Sempre falo se esse título tivesse com outra brasileira, seria muito merecido porque temos grandes craques. Hoje, quem representa sou eu e procuro trabalhar para fazer valer a pena essa representatividade.

OP - A Copa do Mundo trouxe muito debate sobre a realidade do futebol feminino. Como é a do futsal feminino, tem muitas dificuldades como no campo? É parecido?

Amandinha - É igual. A gente também não tinha transmissão até um dia desses, nem visibilidade. Era como se fosse um esporte amador. E no Brasil, um país tão grande, e a gente nessa precariedade. Muito triste para todas nós. Ter que enfrentar o preconceito e a falta de visibilidade, sendo que a gente tinha a possibilidade de ter isso. Entristecia todas nós que lutávamos pela modalidade. Mas a partir deste ano, junto com futebol feminino, a gente acabou tendo uma revolução na modalidade. Começaram a nos enxergar. A primeira vez que a gente foi transmitida, um campeonato de clubes, as pessoas já se apaixonaram. A gente vê que era só preconceito cultural alastrado no nosso país, que não viu, mas critica porque é uma mulher praticante. Mas quando vê, já muda de opinião. Essas transmissões estão fazendo toda a diferença, mais patrocínio aparecendo. E assim que tem que iniciar.

OP - Existe Liga Nacional, calendário cheio para o futsal feminino no Brasil?

Amandinha - Não é uma coisa que está certa. Campeonatos que temos pela Confederação são muitos caros. Antes, a nossa Confederação ajudava. Hoje só faz cobrar. Realmente, a crise pegou de um jeito muito duro. A nossa modalidade foi uma das que mais sofreu. Os estaduais se tornaram fraquíssimos porque as equipes não conseguiam se manter. Santa Catarina tinha cinco, seis times de rendimento. Hoje tem três, quatro. Os times tiveram que acabar em São Paulo, no Rio Grande do Sul. Tínhamos 15 times de rendimento, mas hoje devemos ter 9.

OP - E mesmo sendo uma estrela do futsal, você não parou os estudos. Como você conseguiu e priorizou estudo também?

Amandinha - Uma coisa que diferencia o futsal feminino para o futebol feminino é a questão de a gente conseguir estudar. Temos apoio das faculdades, tempo no calendário para conseguir estudar. Temos muitas faltas também, mas as faculdades acabam entendendo, nos abraçando. Sempre tive o sonho de me formar, de ter o que fazer se o futsal não desse certo. (Eu) Me apaixonei pela fisioterapia logo após que eu tive uma lesão. Um fisioterapeuta me fez acreditar. Sofri dentro da faculdade com relação que eu era privilegiada. Todas do futsal sofrem isso. Mas as pessoas mal sabem como temos que nos dedicar, o quanto a gente sofre e o que tem que se empenhar mais ainda. Foi muito gratificante receber um canudo, vestir uma beca e dar alegria aos meus pais. Foi uma data marcante.

OP - A Megan Rapinoe se destacou na Copa pelo futebol e discurso. Ela é ativista LGBT, luta por igualdade racial e de gênero. Você se identifica com as bandeiras pela quais ela luta?

Amandinha - Todas. A luta dela é a minha luta, como para tantas outras mulheres. Querendo ou não, o que ela luta no final de tudo é somente por igualdade. As pessoas precisam aceitar. Cada um vai ser feliz da sua forma. Não tem como ficar do lado. Isso é a forma do ser humano ser feliz. Ninguém tem nada a ver com isso. É uma mulher que ficou bastante marcada em nossas vidas depois dessa Copa do Mundo, de seus discursos. Além de ser ótima jogadora, ela usa esse espaço para defender todas as mulheres e a população que sofre preconceito. Com certeza isso faz dela ainda mais diferente.

OP - Você se sente valorizada no esporte?

Amandinha - Eu sempre falo para as pessoas próximas a mim que nunca tive o sonho de ser famosa. Meu sonho era ser feliz jogando bola, viver da bola, ser o meu trabalho. Hoje, eu posso viver da minha modalidade. Não preciso fazer outra coisa. O esporte me dá um carro, uma casa. Claro, escuto dos dirigentes, dos amantes do futsal, que a gente não recebe o que deveríamos receber. É óbvio, é fato. A gente recebe muito menos do que todo mundo. Mas eu acho que é uma conquista lenta, mas que está sendo praticada hoje em dia. Está começando a acontecer. Os salários estão aumentando a partir do aumento da visibilidade. Não tem como receber salário astronômico sem visibilidade. O futebol tem esse salário astronômico porque décadas e décadas atrás, ele teve um início de visibilidade. A gente tendo esse início agora e continuidade, com certeza, daqui a dez, 20 anos, as meninas estarão vivendo bem melhor.

O POVO - Quem são seus ídolos?

Amandinha - Eu sempre admiro os melhores, os que não desistem. Admiro os raríssimos, como escutei esses dias de um grande jogador. Como o Falcão, o Cristiano Ronaldo, o Messi, a Marta, a Cristiane, o Neymar. Estou indo agora pro evento do Neymar (Neymar Five, realizado no sábado). Está sendo surreal na minha vida, conhecer um ídolo. Tá foda. Foi bem díficil de dormir ontem (quinta-feira), sabendo que ia viajar. Estou muito feliz de viver isso, de poder conhecer meus ídolos.

OP - O futsal no Ceará já teve grande época. Como você avalia o cenário do futsal do Estado atualmente?

Amandinha - Pelo que vejo, os times da Capital todos se desfizeram, como Sumov, que tem grande história. Eu vejo esses times de Interior chegando. Foi motivo de grande felicidade ver que o Ceará e o Fortaleza estão voltando pro futsal. O Ceará em especial, que é meu time do coração. Mas saber que o futsal está crescendo no Ceará me deixa muito feliz. Através do masculino, a gente pode ter esperança de iniciar um feminino também.

OP - Você pensa em jogar fora? Recebe muita proposta do exterior?

Amandinha - Recebo sempre. Toda abertura de janela, junho, julho, sempre recebo convite da Espanha, Itália, Portugal. Deixa a gente balançada pelos valores. Mas gosto muito de jogar no Brasil, da forma como as coisas estão acontecendo aqui. Espero continuar e que o apoio continue para que possamos seguir evoluindo.

OP - O que precisa ser feito para mudar o cenário do futsal feminino?

Amandinha - Ter continuidade na visibilidade. Através disso, vêm as marcas, os patrocínios. As marcas querem ser expostas. Ter organização, base e estrutura. Aquele depoimento que a Marta deu, quando fomos eliminadas (na Copa Feminina), de que precisamos ter continuidade, base. Temos tantas bases masculinas. Por que não podemos ter feminina? A gente vê que faz a diferença. Espero que futuramente a gente consiga um título mundial e tenha orgulho de tudo que foi construído.

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Lucas Mota