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VERSÃO IMPRESSA

"Sou prisioneiro da minha profissão"

| IMPRENSA | Jornalista paraguaio ameaçado por traficantes fala sobre o exercício da profissão na fronteira com o Brasil. Sobrevivente de quatro atentados, descreve o que o crime organizado mudou em seu país

01:30 | 12/11/2018

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O paraguaio Cándido Figueredo Ruíz, de 62 anos, é um jornalista ameaçado de morte há mais de duas décadas. Já sofreu pelo menos quatro atentados a tiros. Três em casa e um no carro. Hoje, vive protegido por pelo menos sete seguranças armados de submetralhadoras.

 

Sua residência tem 16 câmeras de vigilância. O medo é permanente. Ele próprio tem uma pistola em cada cômodo. Veste colete à prova de balas enquanto escreve. Mora com a esposa, também jornalista, não tem filhos. Não vai a restaurantes, casamentos, nem aniversários. Se sair de casa, é escoltado, em carro blindado. A proteção é assegurada por organismos internacionais, que cobram de governos o apoio a jornalistas em risco.

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Cándido estudou jornalismo na Noruega, onde viveu 15 anos, até retornar a seu País. O primeiro atentado sofrido foi quando descobriu que traficantes brasileiros transportavam cocaína em cadáveres, do Paraguai para o Brasil. À época, dois dias depois da matéria, dispararam uma rajada de tiros na fachada de sua casa.

 

Um dos homens que atentaram contra sua vida, Felipe "Barón" Escurra Rodríguez, conhecido como o "Barão da Maconha", fugiu da cadeia no dia 11 de julho deste ano, alguns dias depois desta entrevista. E segue foragido. 

 

Cándido é correspondente do jornal ABC Color, um dos principais do Paraguai, na região de fronteira com o Brasil. Ainda mora em Pedro Juan Caballero, no estado de Amambay, onde nasceu.

 

Sua cidade se emenda ao município brasileiro de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. A avenida que cruza os dois países chama Brasil. As coberturas, inevitavelmente, são a respeito do crime organizado. Amambay é a região do Paraguai com o maior plantio de maconha da América Latina. Por onde também passa com facilidade grandes cargas de cocaína e armas.

 

É um dos territórios preferidos de todas as organizações criminosas, mas agora, segundo ele, quem domina é o PCC. O título destas Páginas Azuis é seu protesto, mas também sua afirmação como jornalista. Na entrevista, Cándido relata como Fernandinho Beira Mar iniciou seu poderio no Paraguai, como Comando Vermelho, e o temor que sente com a guerra atual das facções na fronteira.

 

O POVO - Há quanto tempo você está no jornalismo?

 

Cándido Figueredo Ruíz - Estou há 25 anos.

 

OP - Como você entrou na profissão?

 

Cándido - Morei 15 anos na Noruega. Lá eu estudei tudo que sei de jornalismo. Quando voltei, 24 anos atrás, o jornal ABC Color, o maior do Paraguai, me contratou para ser o correspondente na área de fronteira entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã, Mato Grosso do Sul.

 

OP - Qual área você atua, principalmente?

 

Cándido - A cobertura é de forma geral, mas, levando em conta a situação aqui da fronteira, minha especialização é narcotráfico, máfia, crime organizado. A maior parte do meu tempo eu passo investigando o tráfico de drogas, tráfico de armas e munições, tráfico de todo tipo, contrabando, que está a cargo do crime organizado. Principalmente o crime organizado que vem do Brasil.

 

OP - Qual é a inserção do crime organizado brasileiro atualmente aí no Paraguai?

 

Cándido - Esta é uma fronteira seca. As cidades de Pedro Juan Caballero e Ponta Porã estão divididas apenas por uma rua (avenida Brasil). Devido à sua extensão, cerca de mais de 360 quilômetros de fronteira seca, é quase impossível um controle efetivo tanto das autoridades paraguaias como brasileiras. Portanto, as fronteiras se prestam para muita ilegalidade, todo tipo de contrabando e outros crimes que normalmente são praticados aqui. Desde tempos imemoráveis, o contrabando do café e do uísque eram, digamos, a ação dos criminosos da época. Mais tarde apareceu a maconha e revolucionou o crime organizado. A cidade de Pedro Juan Caballero é capital do Estado de Amambay. Dentro do Estado de Amambay estão as maiores plantações de maconha da América Latina.

 

Fronteira

 

OP - Qual o tamanho dessas plantações?

 

Cándido - Posso te falar que tem produção quatro vezes ao ano. Temos mais de 15 mil hectares de plantação. E tem mais ainda. É apenas uma ideia. A gente não pode se assegurar, já que é difícil, a plantação está escondida. Mas, pela produção anual, a gente estima que tenha de 10 mil a 15 mil hectares de maconha plantados dentro do estado de Amambay. Também a fronteira aqui, na cidade de Pedro Juan Caballero, é corredor da cocaína que vem de Bolívia, Peru e Colômbia. As duas coisas, a quantidade de maconha que tem na região, mais o corredor de cocaína boliviana, peruana e colombiana que chega até Pedro Juan Caballero por causa de muitos poucos controles. Não tem radar, não tem como você controlar os voos clandestinos. Então, estão chegando aqui na fronteira aproximadamente de 20 a 30 voos de cocaína por mês. O que acontece? Esta cocaína, 99% dela vai para o Brasil, especificamente para o porto de Santos (SP). E do porto de Santos estão mandando por navio até as costas africanas. Desde África estão levando a cocaína para as grandes cidades europeias. O que resultou isso? Que a região foi apetecida pelo crime organizado do Brasil.

 

OP - Quando começou isso?

 

Cándido - O primeiro narcotraficante que chegou aqui na fronteira foi o Fernandinho Beira Mar. Quando ele já não tinha mais alternativa para viver em liberdade no Brasil, no Rio de Janeiro, então ele migrou para esta fronteira.

 

OP - Isso foi em que período?

 

Cándido - Isso foi lá pelo 1994, 1995, o primeiro registro. Aí tinha uma aliança entre traficantes brasileiros e paraguaios que moravam aqui na fronteira. Então nós tínhamos uma máfia local, de pessoas que eram da região. Isso era muito importante, porque formou uma parte do crime organizado. Originalmente eram das cidades da fronteira, então eles tomavam um pouco de cuidado em quem iriam matar e quem não poderiam matar. Se tinha pessoa conhecida, tradicional da cidade, eles faziam um jeito para não matar esse cara. Isso podia dar repercussão muito grande.

 

Fernandinho Beira Mar 

 

OP - Atraía o noticiário?

 

Cándido - O que aconteceu? Com a chegada do Fernandinho Beira Mar em 1995, aqui na fronteira, a coisa revolucionou. Tinha um montão de gente da favela do Rio de Janeiro. Eram pessoas que não conheciam ninguém, sumamente perigosas. Então ele começou a traficar maconha, cocaína e armas para o Rio de Janeiro. E devido a alta corrupção que temos no Paraguai hoje, ele facilmente comprou proteção, se aliou a narcotraficantes paraguaios e começou a formar uma base de tráfico aqui no Paraguai. Foi o primeiro brasileiro realmente que veio e marcou presença com uma diferença, foi o Fernandinho Beira Mar. Tanto assim é que, depois de aproximadamente dois anos que ele tinha chegado no Paraguai, ele tinha um sócio aqui que era conhecido no âmbito da máfia do tráfico de drogas. Mas esse cara, sócio do Beira Mar, entrou na política partidária.

 

OP - Quem era?

 

Cándido - Ele chamava Ramón Morel. O que aconteceu? A Polícia Antidroga do Paraguai e a DEA (departamento antidroga dos Estados Unidos) falou com Ramón Morel. "Se você entregar à gente o Fernandinho Beira Mar, você vai poder concorrer na política e não vai ter problema.

 

OP - Foi um acordo?

 

Cándido - É. O que aconteceu? Ramón Morel começou a delatar Fernandinho Beira Mar. Tanto assim que um dia Fernandinho Beira Mar chamou Ramón Morel, ele ia estar num local numa data. Na madrugada desta data ele não foi, mas não falou para Ramón Morel, que acreditava que Beira Mar iria chegar. Tanto assim que, na madrugada, a Polícia Antidroga e a DEA norte-americana invadiram a casa onde supostamente tinha que estar o Fernandinho Beira Mar.

 

OP - Que ano foi isso?

 

Cándido - Foi 1996, 1997. Mas o que aconteceu? Fernandinho Beira Mar descobriu que o comparsa dele estava delatando ele. Fernandinho não falou nada para Ramón Morel, que tinha um irmão. Eram dois irmãos muito fortes, mais o pai. O pai dos Morel estava preso numa cadeia em Dourados, no estado de Mato Grosso do Sul. Aconteceu que um dia o Fernandinho mandou os capangas dele irem junto dos irmãos Morel. Falou pra eles que tinha um negócio e que fossem num escritório dos capangas dele. O que aconteceu quando eles chegaram no escritório? Os capangas do Fernandinho Beira Mar prenderam eles e o Fernandinho ligou, falou que eles delataram ele, "vocês são cabuetas", são isso, são aquilo, e Fernandinho falou "vocês vão morrer", os capangas mataram os dois irmãos. Aí começou uma corrida de assassinatos na fronteira. Como você sabe, Fernandinho é do Comando Vermelho. Nessa época quem comandava a fronteira era o Comando Vermelho. Mataram muita gente. Nessa época tive a oportunidade de fazer uma entrevista com o Fernandinho Beira Mar por telefone. Depois fui lá em Brasília e fiz entrevista cara a cara com ele em Brasília. Ele me contou um montão de coisa. Isso foi o começo da presença do traficante brasileiro no Paraguai.

 

OP - Na execução dos Morel, os irmãos foram mortos. E o pai deles?

 

Cándido - O Fernandinho Beira Mar mandou matar o pai deles dentro da cadeia. Aí falei com ele na cadeia, por telefone: "Por que você matou?". Ele é um cara muito frio. Ele falou: "Eu apreço o Morel, ele é um cara legal, fino, eu adoro ele, tenho muito apreço a ele, mas não tinha alternativa. Tinha que matar ele porque ia querer vingar a morte dos filhos". Quando Fernandinho já não tinha mais alternativa no Paraguai, ele foi para a Colômbia. Então começou a chegar o pessoal do PCC.

 

PCC 

 

OP - Quando o Beira Mar fugiu para a Colômbia, o PCC se aproveitou do flanco aberto?

 

Cándido - E aí o PCC foi muito mais cruel do que era o Fernandinho. De crueldade, de matar gente sem piedade.

 

OP - Que ano era esse?

 

Cándido - Já era 1999, 2000. O primeiro pessoal do PCC. Nós tínhamos aqui traficantes locais, como o Jorge Rafaat Toumani, que era brasileiro. Tinha o Jarvis Chimenes Pavão (também brasileiro), tinha o Capilo (Carlos Antônio Caballero), que era do PCC e era paraguaio. Mas quem ficou com uma presença forte aqui no Paraguai foi mesmo o brasileiro Jorge Rafaat Toumani e o Jarvis Chimenes Pavão. E eles fizeram uma aliança com o PCC.

 

OP - O Rafaat não era do PCC, era independente?

 

Cándido - Era independente. O Jarvis Pavão também. Eram mais perto do PCC, mas não tinham compromisso. Eram independentes, mas negociavam com a facção e sempre indicando um acordo. Mas o Rafaat queria o poder completo. Então o que aconteceu? Jorge Rafaat Toumani começou a delatar muitas pessoas do PCC e do Comando Vermelho. "Cabuetar", como vocês falam. Ele começou a cabuetar para a polícia, os caras foram caindo, caindo, caindo. Do PCC. E os que ele podia matar, ele matava.

 

OP - Isso para que ele fosse conquistando territórios do tráfico aí do Paraguai?

 

Cándido - Isso. Porque o Jorge Rafaat Toumani tinha a vontade de tomar todo o poder aqui na fronteira entre o Paraguai e Mato Grosso do Sul.

 

OP - Ele considerava a chegada do PCC muito incisiva no País?

 

Cándido - Viu isso como um perigo e primeiro começou a falar com eles. Depois, já começou a trabalhar para acabar com eles. Tanto assim que nessa época o Comando Vermelho e o PCC não estavam juntos. Mas PCC e CV se uniram para acabar com o Jorge Rafaat Toumani.

 

OP - Para tomar o poder do Rafaat?

 

Cándido - Foi. E o que aconteceu? O Jarvis foi preso pela polícia (em 2009) e a Justiça do Brasil pediu a extradição dele. Então o Rafaat era o único que estava solto e livre aqui na fronteira. Então ele pensou que se o Jarvis estava preso e seria levado para o Brasil (extradição aconteceu em 28/12/2017), achou que iria acabar com o PCC e ser o rei na fronteira. Mas ele não contou com a possibilidade de que Comando Vermelho e PCC se unissem para matá-lo. Se uniram e foi o último trabalho que fizeram juntos, matar o Rafaat (atentado aconteceu em 15/6/2016). Depois eles brigaram e não estão mais juntos.

 

OP - E desde então há uma guerra na fronteira para saber quem vai dominar o espólio deixado pelo Rafaat.

 

Cándido - Isso. Agora mesmo, a gente não sabe o que pode acontecer a qualquer momento.

 

OP - A guerra das facções aí na fronteira foi o que desencadeou a sequência de rebeliões nos presídios brasileiros, no ano passado, e de aumento nos índices de violência nas principais cidades do Brasil?

 

Cándido - Isso mesmo. Disso não há dúvida alguma. Foi o primeiro que aconteceu depois da morte do Rafaat, a briga do PCC e CV e o tanto de assassinatos nas cadeias brasileiras.

 

OP - Qual o tamanho do PCC hoje no Paraguai?

 

Cándido - O PCC hoje é o grupo criminoso mais forte que tem no Paraguai. O PCC é tão bem organizado que eles têm pessoal que mexe só com drogas, pessoal que só mata gente e pessoal que só lava dinheiro. Eles contrataram muitos economistas para trabalhar nessa lavagem, para investir dinheiro. Agora eles estão com muito poder econômico, matando gente com crueldade e filmando e passando por WhatsApp todo vídeo da matança, eles conseguiram deixar todos com muito medo do PCC. Eles aproveitaram esse medo da população e tomaram o poder. Aqui na fronteira entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã, o poder absoluto está nas mãos do PCC. Pela minha experiência, eu penso que eles têm mais de 350 pessoas armadas nesta fronteira. É muita gente. Eles se expandiram para todas as cidades que se espalham na fronteira com o Mato Grosso do Sul e estão dominando a área. 

 

Ainda mais com a corrupção que temos aqui no Paraguai, é muito fácil. O pessoal que a polícia pega com armamento pesado, eles facilmente compram a polícia e saem liberados sem que ninguém dê conta. O pessoal vai preso e não há possibilidade de liberação rápida e isso não é um problema. Eles estão na cadeia num lugar de luxo, têm telefone, tudo que é comodidade. Dentro da cadeia estão trabalhando sem problema.

 

OP - No Paraguai, o PCC está replicando o mesmo modelo e regras que adotam no Brasil?

 

Cándido - É a mesma coisa. Acho até que com maior facilidade aqui no Paraguai, devido a alta corrupção dentro da Polícia, na polícia antidrogas, dentro do Poder Judiciário, do Ministério Público. Como eu falei para uma rede de televisão da Europa, aqui quem tem dinheiro não tem problema. Se você está na cadeia está num hotel cinco estrelas, com todas as comodidades. A situação tá muito séria.

 

OP - Pelo tempo que você já acompanha a evolução do crime organizado aí no Paraguai, o PCC é a maior estrutura criminosa já montada no País?

 

Cándido - Sem dúvida alguma. É a pior situação que já tivemos aqui na fronteira. A estrutura do PCC está organizada para fazer não só tráfico de drogas e armas. Eles fazem todo tipo de contrabando, lavagem de dinheiro e estão corrompendo muitas autoridades e tomando cada dia mais poder pelo poder econômico que eles têm.

 

Narcopolítica

 

OP - Já há o ingresso do PCC no poder político daí, elegendo parlamentares ou membros do Executivo?

 

Cándido - Há pouco (22 de abril último) foram trocados os membros do Congresso paraguaio, mas tínhamos deputados e senadores que foram eleitos com dinheiro do crime organizado. Temos gravações de senadores falando com traficantes, para apoiar a campanha política de fulano, pedindo a colaboração para tal coisa. Aqui, a narcopolítica é uma coisa atual que está se reconduzindo mais e mais. A gente pode afirmar com toda certeza que a narcopolítica no Paraguai está no seu melhor momento agora.

 

OP - Há informações de quanto a facção movimente em dinheiro com os negócios e em cargas de drogas e armas?

 

Cándido - É difícil dar um número, mas é um número alto, sem dúvida alguma. Acho que eles estão fazendo muito mais dinheiro no Paraguai do que o próprio governo está dizendo. A quantidade exata é muito difícil de falar, mas posso te garantir que, se não é maior, é quase o mesmo dinheiro movimentado pelo estado do Paraguai.

 

OP - Como é ser um jornalista ameaçado de morte por grupos criminosos?

 

Cándido - Eu sou um prisioneiro da minha profissão. Para dar um exemplo, agora mesmo estou no meu escritório e olhando pela janela estou vendo dois policiais. Uma mulher e um homem armados com duas metralhadoras. Na parte de trás da minha residência tem outros dois policiais armados de metralhadoras. Eu vivo 24 horas com guarda policial. Eu e minha mulher não temos filhos, trabalhamos juntos na redação do jornal, somos protegidos 24 horas.

 

OP - Já vive assim há quanto tempo?

 

Cándido - Eu trabalho no jornal ABC Color há 24 anos. Há 22 anos e três meses estou com guarda policial permanente.

 

OP - Qual foi o episódio à época que obrigou vocês a viverem assim?

 

Cándido - Quando eu fiz uma investigação sobre o tráfico de drogas no Brasil. Traficantes brasileiros começaram a comprar funerárias. Para mim era muito raro. Foi estranho porque passaram a monopolizar todas as funerárias da cidade. E eles não permitiam que outras empresas abrissem novas funerárias. Então perguntei qual era o interesse desse pessoal. Eu sabia que esse pessoal era da pesada. Então eu descobri que eles levavam cocaína dentro de corpos de mortos, em ambulâncias, para o Brasil.

 

OP - Qual foi esse ano?

 

Cándido - Isso foi em 1996, 1997, por aí. Quando fiz essa matéria, a polícia brasileira investigou e pegou uma ambulância com um corpo recheado de cocaína. E pouco depois, dois ou três dias, eles mandaram mais 35 balaços na minha casa. Então, graças a Deus, eu tenho o apoio de organizações internacionais que pressionaram o governo paraguaio, responsabilizando pela minha segurança. "Nós vamos dar segurança pra ele". Estou morando com sete policiais armados aqui.

 

OP - O que tende a piorar com a presença cada vez maior do PCC no seu País, na região de fronteira?

 

Cándido - Estou aguardando que isso aconteça a qualquer momento. Ainda não tem uma liderança forte aqui na fronteira. Já falei, a fronteira é muito apetecida pelos narcotraficantes, pela quantidade de maconha plantada que tem na área. Também é muito apetecida por causa do corredor da cocaína que vem da Colômbia, Peru e Bolívia. Então, eles vão fazer de tudo para uma pessoa tomar o poder absoluto na fronteira. Até este momento, a gente ainda não tem, digamos, uma liderança forte. O PCC está aqui, no exato momento em que o Comando Vermelho também está. Nós temos traficantes locais, aqui da fronteira, que também estão querendo o poder. Eu acho que isso aqui vai estourar a qualquer momento. De haver uma guerra aqui.

 

OP - Você vê a possibilidade de uma guerra de fato? De algo semelhante ao que houve na Colômbia, com a ajuda dos Estados Unidos?

 

Cándido - Acho que não, porque a cocaína que sai daqui não vai para os Estados Unidos. A cocaína daqui vai para a Europa.

 

OP - A propina é moeda circulante no Paraguai?

 

Cándido - A corrupção aqui é total. Nós temos a Secretaria Nacional Antidrogas, que é a instituição que combate o narcotráfico. Na Polícia temos também a Seção Antinarcóticos, mas não tem uma estrutura forte. Os policiais não são bem preparados, não têm um salário como o da Polícia Federal, por exemplo. Nós temos muitas dificuldades para saber exatamente onde está o preso, que condenação ele tem. É excessivamente burocrática. Isso é muito por causa da corrupção. E também o medo. Muitas pessoas não querem passar informações. Se você vem aqui na minha cidade, eu acho que sou o único que vou falar pra você a verdade por telefone, mesmo sem conhecer você. Aqui é muito difícil uma pessoa falar.

 

OP - Você desconfia de todo mundo?

 

Cándido - Eu desconfio até da minha sombra. Em todos os ambientes da minha casa, eu sempre tenho uma arma perto de mim. Eu vivo 24 horas armado. Nunca saio, nunca vou num aniversário, nunca vou num casamento, nunca posso ir num bar tomar uma cerveja, um vinho. Não posso ir numa pizzaria. Eu sou prisioneiro aqui.

 

OP - E você tem certeza que os criminosos sabem onde fica sua casa?

 

Cándido - Claro. Eu tenho 16 câmeras que estão 24 horas gravando ao redor da minha casa.

 

Risco

 

OP - Você sofreu quantos atentados posteriormente, depois da reportagem sobre o caso da cocaína nos cadáveres?

 

Cándido - Eu sofri dois atentados em casa e um no carro. Depois disso ficou mais difícil porque saio muito pouco. Fico mais em casa, muitas vezes contrato jornalistas jovens para ir tirar uma foto, ligo para polícia, consigo informação sem precisar sair. Então, a minha situação é muito difícil. O meu movimento é muito pouco. Como falei, vida social não tenho. Mas, graças a Deus, tenho o apoio das organizações internacionais. Em janeiro fui para os Estados Unidos, fiquei três meses lá, convidado pela Universidade da Pensilvânia para ser professor da Faculdade de Jornalismo. Graças a Deus, meu trabalho é muito reconhecido em nível internacional, isso me ajuda muito para sair e ter um pouco de liberdade de vez em quando.

 

OP - Tomara que sua liberdade ganhe novos rumos em nome do jornalismo.

 

Cándido - Estava nos Estados Unidos e jovens jornalistas me perguntaram: "você ganha pouco, fica preso muito tempo, está em perigo. Por que você segue trabalhando?". E eu falei do jornalismo que temos no sangue. Isso é o que nos empurra.

 

Ainda alvo

 

FELIPE "BARÓN" ESCURRA, o traficante que tentou matar Cándido, teve conversas recentes interceptadas em investigações, após sua fuga em julho. "Nós temos gravações da polícia brasileira dele falando com um traficante e falando que não vai desistir de me matar", informa o jornalista. Em 2011, pistas de pouso clandestinas usadas pelo "Barão da Maconha" foram destruídas pelas autoridades do Paraguai. Ele atribuiu o fato a reportagens de Cándido.

 

No exterior

 

NA ÚLTIMA QUINTA-FEIRA, O POVO falou rapidamente com Cándido Figueredo. Estava fora do Paraguai prestes a entrar numa palestra para universitários. Descreveria sua experiência de cobertura jornalística na zona de fronteira. Por segurança, pediu que não fosse revelado em qual país estava.

CLÁUDIO RIBEIRO

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