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"A História do Brasil é um holocausto"

| CINEMA | Cineasta e indigenista há 50 anos, Vincent Carelli guarda em sua produção e mente recortes da história, resistência e cultura indígena no Brasil

01:30 | 15/10/2018

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Diretor de cinema e fundador do projeto Vídeo nas Aldeias (VNA), o franco-brasileiro Vincent Carelli é uma das principais referências do País em relação ao trabalho do indigenismo, voltado à defesa e valorização das populações indígenas. A atuação profissional e pessoal dele na causa soma 50 anos.

 

O VNA, talvez o ponto mais importante dessa trajetória, é um projeto de formação em audiovisual para indígenas. Em seus mais de 30 anos, tem um acervo de dezenas de filmes feitos sobre e por índios. Mais recentemente, em 2016, Vincent dirigiu, com Ernesto de Carvalho e Tita, o documentário Martírio, um amplo e profundo retrato sobre a relação do Estado brasileiro com os povos indígenas a partir do massacre histórico dos guarani kaiowá. A obra é frontal e crítica em relação aos jogos de poderes da política, ao agronegócio e às perseguições aos indígenas.

 

Em entrevista concedida no início de agosto na ocasião da abertura da Escola de Cinema Indígena Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz - a primeira do Estado , Vincent refletiu sobre seus 50 anos de atuação na causa, criticou a visão estreita acerca de filmes sobre indígenas e avaliou o impacto das eleições presidenciais na realidade dos indígenas.

 

O POVO - O senhor é cineasta, indigenista. Como chegou a esses lugares e como eles se misturaram até resultar na sua atuação hoje?

 

Vincent Carelli - Comecei muito cedo, com 16 anos. Não fiz outra coisa na vida a não ser trabalhar com os índios. Passei pela Universidade rapidamente e vi que a minha questão com eles era mais existencial do que "objeto de estudo". Saí e fui morar com eles. Quer dizer, eu li muita etnografia e tal. Fui morar com eles, depois fui para a Funai (Fundação Nacional do Índio, órgão indigenista oficial do Estado brasileiro, criado em 1967), que foi uma experiência importante e lamentável. Depois, fundei uma ONG indigenista, na época da ditadura. Depois trabalhei na formação da grande rede de colaboradores do que é hoje a única enciclopédia indígena, do Instituto Socioambiental, que é online (Povos Indígenas no Brasil). Na época não tinha nem banco de dados confiáveis sobre os povos.

 

Nessa questão da enciclopédia, eu fui o responsável por fuçar os arquivos do Brasil, alguns do Exterior, para resgatar imagens sequestradas e engavetadas sobre povos indígenas. A partir disso, a gente tinha tido uma provocação na década de 1970 de um cineasta interessado em saber qual que seria o olhar dos índios. A gente ajudou ele a escrever um projeto, ele ganhou uma bolsa, a gente acabou fazendo filme 16mm. Quando teve a revolução do VHS, eu resolvi experimentar, mas meio como ferramenta, ainda numa perspectiva indigenista, vamos dizer assim. (Eu) Tinha uma hipótese do que a gente poderia fazer com imagem. Eu já tinha trabalhado em muitos lugares, com muitos povos diferentes, situações históricas diferentes. A primeira experiência me mostrou que os índios não tinham o menor interesse nisso. 

 

Não sei se vocês assistiram A Festa da Moça (1987), meu primeiro filme, que é sobre isso, como os índios reagiram e enlouqueceram e começaram a fazer performance e muito mais, verdadeiras "revivências", eles acabam furando o beiço e o nariz de todo mundo, pra se ver e atualizar uma memória. Então os índios tinham interesse em registrar as coisas belas, na verdade, não tinham interesse em problemas circunstanciais do madeireiro, do garimpeiro.

 

OP - O que levou, depois desse trabalho, a abrir espaço para essa formação e dar a câmera aos índios para eles registrarem eles mesmos?

 

Vincent Carelli - Eu fiz vários experimentos e a gente começou a se encontrar em Nova York, no festival dos índios americanos. A gente passou a se encontrar a cada dois anos com os latino-americanos e outros povos nativos do mundo. A gente já tinha contato com os aborígenes da Austrália, que já iam pra faculdade de cinema, já tinha regime de cotas, estação de televisão; os samis (povo indígena da Europa) já tinham uma estação de TV na língua deles. Nesse panorama global, você via que os povos nativos do "Primeiro Mundo" pelo menos se falava nesses termos naquela época, primeiro, segundo e a gente era o terceiro (risos) que isso era o caminho natural das coisas. Descobrimos, inclusive, que três projetos similares em princípio, no México, no Brasil e na Bolívia, tinham começado no mesmo ano, sem a gente se conhecer. Fora essa questão dos índios, quando surgiu o VHS, houve um movimento planetário de apropriação da questão da imagem pelos movimentos populares e se falava muito em videoprocesso, autoconstrução na periferia, tudo era objeto de filmagem.

 

Protagonismo

 

OP - Qual o diferencial que o vídeo, o audiovisual, traz para o trabalho com os indígenas. O que tem de diferente da escrita, por exemplo?

 

Vincent Carelli - Estamos trabalhando com processos coletivos. A escrita entra nos povos indígenas como um divisor, é um momento difícil onde os velhos perdem autoridade porque não são alfabetizados e passam a ser controlados pelas novas gerações, que fazem essa interface com o mundo de fora porque dominam a escrita, as contas, o dinheiro. É uma transição difícil que exclui, de certa forma, os saberes, essas pessoas mais velhas e as autoridades. O audiovisual não. É apropriado diretamente por todo mundo, é mais democrático nesse sentido. E faz sentido, porque é imagem viva, enfim, então você conduzir um trabalho coletivo com escrita não dá, né? Uns falam e outros registram. A imagem tem um fascínio pra todo mundo, pra gente e pra eles.

 

OP - Especificamente sobre o Vídeo nas Aldeias, como foi a transição desse primeiro momento de registro até passar o mecanismo para eles?

 

Vincent Carelli - Estava no horizonte. Olhando para a Austrália, para os inuítes (povos indígenas esquimós), para os samis, isso era o caminho natural das coisas. Começamos numa oficina nacional, com 30 alunos, aí resolvemos ir para o regional, povos vizinhos, mas tinha a barreira de povos que falavam línguas diferentes, então acabamos na aldeia. O timing da oficina, o método, isso foi sendo encontrado no processo. Eu aprendi a filmar no que eu hoje chamo de 'vídeo transe', que é essa energia que rola entre quem filma e quem está sendo filmado. A câmera é um negócio catalisador, aí pinta essa relação energética entre quem filma e quem é filmado, porque as pessoas estão fazendo aquilo porque está se filmando, porque querem que seja filmado. Não é o cara filmando aqui e o outro sendo filmado lá, é um todo. Isso é o vídeo transe. Então eu aprendi a filmar gerando um processo de catarse que a câmera e a possibilidade da geração de uma imagem criam. Aprendi intuitivamente no cinema direto. Sobre os meus primeiros filmes diziam: "Porra, parece Jean Rouch (cineasta francês, expoente do "cinema verdade")!" e eu: "Mas quem é esse?". Eu não sabia nada sobre cinema, mas instintivamente me formei no cinema direto, com câmera na mão.

 

Hoje em dia, 30 anos depois, esse negócio universalizou, né? Todo mundo fazendo oficina, todo mundo tem câmera hoje ninguém nem precisa de câmera, todo mundo tem celular. Os índios estão procurando colaboradores dos mais diversos, que chegam com formações e perspectivas das mais diversas. Tem um cara bom de videoarte, que pode fazer oficina, outro pode fazer de animação, outro com ficção. Dá de tudo.

 

Política

 

O POVO - O lugar de fala, hoje, é sempre trazido em discussões sobre minorias, fala-se das pessoas se empoderarem das próprias narrativas. No momento em que os índios começaram a ter formação, isso era uma preocupação?

 

Vincent Carelli - Esse negócio é de agora: o politicamente correto, o lugar de fala, e às vezes se caminha para um apartheid às avessas. Por exemplo, o que acontece hoje com o cinema indígena? Nós produzíamos esse cinema em oficinas, basicamente, aí neguinho pensa: "Cinema indígena parece que surgiu por geração espontânea". Não, ele surge de um trabalho colaborativo entre índios e não-índios. "Não, porque o protagonismo...". Tudo bem, mas vamos ser realistas: são processos, inclusive colaborativos. Acho meio radical, meio babaca. É importante o lugar de fala, descolonizar, mas um país se constrói junto. Aí me perguntam: "Qual o teu lugar de fala?". Não sei qual é meu lugar de fala. Não sou índio, mas trabalho desde os 16, há 50 anos, com os índios, entende? Então meu lugar de fala é esse, eu o construí ao longo de uma vida. Por exemplo, os americanos, viram Martírio e acham ridículo eu narrar a história e ainda mais chorar diante das merdas que a gente vê lá. "Não, porque os índios...". Bem, os índios têm uma visão e eu tenho a minha, eu tô contando a minha história. É uma coisa muito bitolada. Tô trazendo outra narrativa: justamente, eu faço um personagem não-índio que faz o contraponto com o fazendeiro do agronegócio. Tem uns caras que apoiam os índios, que lutam por eles, lutam com eles. Eu fui a um seminário lá e os mais jovens eram os mais radicais: "Por que os índios não contaram essa história?". Porque eles não têm essa perspectiva histórica. Eu sou um dos narradores desse filme, os índios falam um monte, fazem discursos, dialogam, se expressam, mas para eles estava tudo resumido em "é um branco que está contando a história". Eu estou contando porque estou fazendo a revisão da nossa versão da história. Vira tudo uma conversa meio ridícula, fora de contexto, inclusive, de que eu estou tomando o lugar da narrativa dos índios. 

 

Não, tudo bem, então eu sou branco e não posso falar, eu não vou nem  trabalhar com os índios, tchau, eles na deles e eu na minha (risos), sabe?

 

OP - Nesses 50 anos de trabalho com os índios, as demandas deles mudaram muito?

 

Vincent Carelli - Muda tudo. Muda tudo para a gente, muda tudo para eles. O que estão pensando as novas gerações? Eu acho que estou fazendo uma série de filmes agora, que são filmes de fim de carreira, reflexivos, justamente para pensar isso: o que eu, como jovem indigenista, sonhava que podia acontecer? Eu estava trabalhando para quê? Qual era minha utopia? E o que aconteceu de fato? Repensar justamente essas coisas. Então, a cada momento você tem que reaprender tudo, porque a cada momento é um novo momento.

 

Nos últimos dois meses, eu passei um no sul do Pará e um no norte do Mato Grosso com índios que estão recebendo indenizações por iniciativas que as grandes companhias estão tomando, então eles estão com grana, se apropriando de tudo: caminhonete, celular, televisão etc. Os brancos ficam desesperados, você ouve a versão deles, que ficam: "Eles estão endividados, no meio de agiota, comprando isso e aquilo". Parece que é o fim do mundo, aí você vai lá na aldeia e entende tudo, você vê a vitalidade de um povo na luta pela sobrevivência, por encontrar seu espaço de vida, seus meios, se apropriando de tudo. Isso é sinal de vitalidade de um povo, de afirmação, entende? Os índios têm uma curiosidade avassaladora pelo novo, pelo dos outros, e tradicionalmente essa coisa da predação do outro, a apropriação você conhece o outro povo ou em guerra ou em comércio sempre aconteceu, se apropria do enfeite do outro, aprende um canto... Isso é um processo historicamente contínuo, é uma repetição, só que novos mundos se apresentam. Isso que é fascinante, você chegar e entender qual é a do dia, o que os jovens estão pensando. As novas gerações começam com umas coisas e os velhos estranham, os velhos no seu papel e os jovens no seu. Foi muito divertido esse projeto do vídeo justamente porque ele é uma ferramenta de aproximação das gerações. Agora tem uma nova onda da nova geração, que eu não sei de onde nasceu que são coreografias de muita gente com um som meio andino, meio techno, meio não sei o quê, e aí todo mundo de fantasia temática. É a coqueluche tanto nos xavante e nos kayapó isso. Os velhos metem o pau, na oficina tem que negociar com o cacique se pode ou não filmar... É essa tensão da tradição com a novidade, mas no fundo é um pouco um teatro, quando acontece os velhos vão lá e assistem, curtem.

 

OP - Existe uma diferença da reação de público e crítica sobre Martírio aqui no Brasil e fora? O filme circulou muito, não?

 

Vincent Carelli - Circulou bastante, mas relativamente - fez 7 mil ingressos. A gente liberou geral e acho que fez muito mais por outras vias. Aliás, a produção do Vídeo nas Aldeias circula muito mais por elas do que pelas salas de cinema. Na Europa, eles ficam muito chocados com o que um deputado é capaz de falar. Isso é a coisa mais chocante. Ouvir aquela bancada ruralista falando aquelas coisas... No Japão, no dia seguinte o primeiro ministro se suicidaria, ou choraria, pediria demissão e desculpas. Tem essa relação do "ele pode falar isso e tudo bem?". Isso porque eles não viram o que o (Jair) Bolsonaro (candidato a presidente pelo PSL) fala e "tudo bem". Essa parte é bastante chocante. Mas eu cada vez menos tenho interesse em público que não seja o brasileiro, porque é aqui que as coisas se jogam, o tabuleiro é aqui. Uma das primeiras produções de oficina, que era O Cheiro do Pequi, gerou interesse em uma distribuidora francesa de esquerda. Eles levaram um ano para discutir se eles queriam distribuir ou não (o filme), aí chegaram à conclusão que não, porque não era essa a mirada que eles queriam sobre os índios. Eles queriam problemas, queriam o índio coitadinho. O índio feliz, curtindo a sua, fazendo seu teatro, falando das suas tradições, não interessava. Cara, eu estou me lixando para esse olhar. Pelo contrário, hoje eu estou fazendo esses filmes, mas toda a primeira produção tanto minha quanto dos índios era sobre índio feliz. Sempre achei que, principalmente no caso do Brasil, falando de extremas minorias e uma diversidade muito grande, é muito mais importante você investir em sedução cultural do que em confrontação política. Nós temos é que ganhar simpatia, interesse, curiosidade das pessoas. Elas só conhecem o índio pentelho que fica disputando terra com não sei quem, todo mundo metendo o pau. Mas vamo lá, quem são esses caras?

 

Financiamento

 

OP - O senhor falou dessa questão que os filmes fazem hoje mais público por essas vias da Internet do que por salas de cinema. E, recentemente, o Vídeo nas Aldeias teve um problema financeiro, de manutenção, e ameaçou fechar. Como é essa questão da continuidade?

 

Vincent Carelli - Cada momento é um momento nessa área. A gente foi financiado 20 anos pela federação internacional. Principalmente pela Noruega, que caiu fora de repente. Porque a direita entrou (no governo do país), porque aquecimento global agora é o tema. Aí a contribuição que a gente fez para a causa indígena pouco importa. Aí a gente disse que não tava a fim de fazer filme de encomenda, certo? O primeiro projeto que a gente apresentou para o Fundo Setorial (do Audiovisual) disseram que não pode. ONG não pode. É uma instituição para fomentar a indústria cinematográfica. Então tem que ter uma produtora comercial, senão não rola. Aí, abri uma produtora comercial.

Sempre teve muitos preconceitos, sabe? "Ah, filme etnográfico, vai lá, você gosta de índio". E a gente sempre fez questão de sair desse gueto. Serras da Desordem (2006), do (cineasta Andrea) Tonacci, dividido com outro, ganhou (o Festival de) Gramado. No ano seguinte eu entrei e ganhei sozinho Gramado (Corumbiara/2009). No ano seguinte, tava lá o As Hiper Mulheres (de Takuma Kuikuro, Carlos Fausto, Leonardo Sette). E já tinha jornalista puto, crítico puto, perguntando: "O que que esses filmes tão fazendo aqui, pô? É um festival de cinema, leva esse filme lá pra sei lá onde, pra um museu, pô".

Tinha jornalista escrevendo sobre os colegas que estavam falando mal desses filmes (indigenistas). Eu não ganhei (o Festival de) Brasília porque (no júri) eram três atrizes globais, o (crítico Luiz Carlos) Merten, aquele reacionário, dizendo que Martírio não é cinema. Não é só contra o cinema etnográfico, mas contra o cinema político.

 

OP - Mas curiosamente, Martírio ganhou o prêmio do público em Brasília.

 

Vincent Carelli - Sim! (eufórico) Sim, sempre ganha o prêmio do público. E os coitados dos críticos ficam lá metendo o pau. Então, tudo bem. Eu tô me lixando (risos). As pessoas saem transtornadas, se questionando. O que mais você quer do cinema do que causar tal impacto? Eu não quero mais nada.

 

OP - Como o senhor vê as representações das questões indígenas, das causas, das lutas, na imprensa?

 

Vincent Carelli - "Índio" é meio clichê, né? A gente tá sempre repetindo os mesmos clichês. Os índios que o digam. Os militantes da causa também. A gente sempre tá saindo do zero. Do clichê do clichê: do índio, da oca, do índio que vai desaparecer, enfim. Até na ditadura se falava de índio. Só se podia se falar de índio, já que não se podia falar de política. Hoje, a grande imprensa nem toca nesse assunto. A menos que tenha um massacre e tal. Mas se você quiser ter alguma notícia de índio tem que ir para as redes sociais. É uma corrente paralela de informação.

 

E como a gente está em processo recessivo agora, tudo que a gente avançou no governo Lula (2003-2010, e depois começou a regredir no governo Dilma (2011-2016) e foi ao fundo total com o Temer (2016-2018). A gente estava já num processo de discutir uma política pública com a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e os indígenas. E a Ancine tava embarcando na nossa, já tinha separado uma grana, que sumiu. Um dia foi assinado o convênio e no outro foi o impeachment (de Dilma). Hoje falar de uma política pública de cinema indígena parece que você tá delirando. E isso é para a cultura de uma maneira geral, não tô falando nem dos índios.

 

OP - Falando em específico sobre o impeachment. Martírio critica muito a Dilma, fala muito do Congresso e dos ministros dela. Como o senhor viu esse ponto de quebra que foi esse processo de impedimento?

 

Vincent Carelli - Nós ainda vamos desvendar esse processo. Eu acho que o impeachment foi comandado pelos Estados Unidos e é um projeto de direita que foi muito bem pensado, com uma agenda completa. Assim que eles tomaram o poder, foi um baque em cima do outro. É um projeto de americanos contra o nosso petróleo. E é tipicamente a secção de um movimento fascista. Foi assim o fascismo na Itália, foi assim o fascismo na Espanha. E começa com uma guerra midiática. O golpe foi triplo: midiático, jurídico e político. É a ressaca de uma elite que não suportou distribuição de renda.

 

Aí vão proibir aula de filosofia e de história. Por quê? "Os professores de história são de esquerda". Enfim, a gente não desvendou ainda o que foi o golpe, como ele foi organizado. Eu sei que durante mais de ano esse golpe foi preparado em reuniões secretas da extrema direita e seguiu uma agenda. Agora, o detonador, que foi o (juiz Sergio) Moro, foi preparado nos Estados Unidos. É o partidarismo que ele adotou. Venderam a Embraer, vão vender a Eletrobras. É até engraçado, porque quem financiava a gente era o governo da Noruega e os caras saíram e logo depois que teve o impeachment, quem comprou o primeiro lote do pré-sal foi a Noruega. Eu tinha vontade de ligar para a embaixada e dizer: "Pô, cara, você acabou com aquela migalha que dava pra gente e vocês acabaram de comprar o pré-sal. Deixa essa troquinho pra gente!" (risos).

 

História

 

OP - Como o senhor vê as perspectivas de futuro em relação às questões indígenas?

 

Vincent Carelli - Eu estou extremamente pessimista pelas eleições. Agora, eu sou otimista sob o ponto de vista dos índios, porque eles têm uma liberdade de pensamento do "nós somos nós e vocês são vocês. Essa Justiça só serve pra vocês, é a Justiça de vocês". Então, quando eles têm liberdade de pensamento, eles fazem uma distinção. Eles têm a perspectiva do que é o Direito deles. E eles vão botar pra quebrar para defender isso. Antes, quando eu comecei, o Estado brasileiro sempre teve uma mão forte sobre os índios. Por isso essa tradição militar de que é preciso controlar. É quase uma coisa Os índios são os "outros" e são sempre tratados como potenciais traidores da pátria. Aí quando os militares, ou até os nacionalistas de esquerda falam: "Não, índio não pode ficar em zona de fronteira, devia afastar os índios da fronteira". Porque eles podem, enfim, sei lá o quê. Agora, a situação política é extremamente adversa não só para eles, mas para todos nós.

 

OP - Tem uma frase de um documentário, o Eu Não Sou Seu Negro, do Raoul Peck e baseado em livro do James Baldwin, em que ele diz que "A história do negro nos Estados Unidos é a história dos Estados Unidos. É não é uma história bonita". A história do índio no Brasil é a história do Brasil?

 

Vincent Carelli - É a história mais sanguinária que você pode imaginar! (veemente). É uma história de sangue, de repressão, de grandes revoltas. Eu não sei se eu vou cansar, mas eu estou escrevendo o roteiro de uma série, em parceria com o Aílton Krenak (líder indígena e escritor). Eu percebi, com Martírio, como as pessoas ignoram uma versão outra da história do Brasil que não seja a oficial, que é sempre uma merda. É a história dos vencedores. E agora a história pode ser lida de várias perspectivas. Seria recontar tudo a partir da perspectiva dos indígenas. Começar pelos tupinambá, na costa, e terminar nos awá-guajá, semi-isolados e ainda sendo assediados por madeireiros. Quero dar essa perspectiva. E é um holocausto, a história do Brasil. E fica sempre esse cinismo. Gilmar Mendes (ministro do STF) diz: "Ah, se for assim vai ter que devolver Copacabana pros índios". Não, senhor ministro, os índios que foram exterminados em Copacabana não tão mais aí para reclamar. Os índios que estão vivos, onde eles estão, querem o que é deles. Fica esse discurso de "até onde nós vamos voltar na história", da Gleisi Hoffmann (senadora PT-PR). É uma história de uma repressão. O Brasil nunca teve uma relação como por exemplo o da Amazônia colombiana. A Colômbia deu um status às reservas indígenas, que não são consideradas reservas indígenas, são como estados, municípios políticos. Recebem recursos e tal, têm seu conselho gestor, resolvem o que fazer com a grana. É uma relação mais simétrica. A relação do Brasil com os povos indígenas é de dominação total, é de controle. E sempre foi, desde o começo, entre a cruz e a espada. 

 

Se resiste, a gente faz as guerras de extermínio. Índio que é "manso", a gente manda as missões para converter (ao Cristianismo). É essa a história do Brasil.

 

On Demand

 

O Vídeo nas Aldeias existe há 32 anos. Recentemente, passou por crise financeira forte, quando quase fechou suas portas. Neste ano, o projeto lançou uma plataforma on demand que disponibiliza os filmes dirigidos pela equipe e por diferentes indígenas ao longo dessa história. Para conferir: videonasaldeias.org.br/loja/.

 

Escola de Cinema

 

Vincent veio a Fortaleza para participar da abertura da primeira Escola de Cinema Indígena do Estado, a Jenipapo-Kanindé, inaugurada no último dia 2 de agosto. O cineasta ministrou uma aula-aberta sobre a experiência do Vídeo nas Aldeias para membros de diversos povos indígenas que se reuniram na ocasião.

 

Eleições

 

A entrevista com Vincent Carelli ocorreu antes do 1º turno das eleições. Na ocasião, ele declarou voto na chapa composta por Guilherme Boulos e Sônia Guajajara (PSOL).

JOÃO GABRIEL TRÉZ, ANDRÉ BLOC

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