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"O filme tem que ser maior que eu, que a minha visão"

| CINEMA | Diretora de O Processo, documentário sobre os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff, Maria Augusta Ramos defende que há várias narrativas possíveis para este período histórico

01:30 | 14/05/2018

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Desde que estreou no 68º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro deste ano, o filme O Processo, dirigido por Maria Augusta Ramos, chama atenção da crítica especializada e do público que o assiste. Primeiro documentário que retrata os bastidores da ação que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o longa saiu premiado da Berlinale e segue uma carreira vitoriosa em outros festivais internacionais. Na próxima quinta-feira, dia 17, finalmente estreia em circuito comercial no Brasil.

 

Nesta entrevista exclusiva ao O POVO, concedida na última quinta-feira, por telefone, a diretora e roteirista do filme explica as motivações que a levaram a fazer O Processo, diz por que optou por acompanhar em sua narrativa a defesa de Dilma Rousseff e comenta a batalha que hoje se dá, entre diferentes setores, para registrar a recente crise política brasileira na linguagem audiovisual.


O POVO – Como surgiu a ideia de filmar O Processo?

Maria Augusta Ramos - Veja bem, eu digo que a ideia de filmar O Processo não surgiu, ela foi quase que imposta. Porque eu senti uma necessidade enorme de compreender esse processo, o que estava se passando no País. Antes mesmo da votação da Câmara dos Deputados e depois de realmente compreender o processo de impeachment, e as acusações, como ele se daria. E ele também vai ao encontro aos meus trabalhos anteriores. Eu tenho três filmes que se passam no universo da Justiça, e onde eu tento refletir sobre a sociedade brasileira através do que eu chamo de “Teatro da Justiça”. Em uma audiência entre quatro paredes brancas, eu acho que ali o Brasil se representa. Estão ali representadas as relações sociais, as relações humanas, as relações de poder. Então, eu posso não só resgatá-las mas refletir sobre elas através dessa instituição. Então, sim, eu senti a necessidade urgente de ir a Brasília e documentar isso tudo. Eu faço filmes sobre temas que me angustiam, que me inspiram e que, de uma certa maneira, me colocam medo. Temas que eu preciso entender de alguma maneira. Porque um filme, um documentário tem que ser uma descoberta. Eu não faço filmes sobre assuntos que eu conheço. Ele tem que ser um processo de descoberta, um processo cinematográfico digamos que um tanto quanto intelectual.

 

OP – Você foi surpreendida pela condução do processo de impeachment, pelos trâmites da comissão ao longo das filmagens?

Maria Augusta – Algumas situações me surpreenderam, sim. Mas eu acho que ser surpreendida, de uma certa maneira, envolve uma expectativa. Eu tento no início de cada filme, realmente, olhar para aquele tema de uma maneira nova, sem preconceitos, sem grandes expectativas, para justamente descobrir os vários elementos, as várias narrativas. Eu tenho que estar aberta ao que eu vou encontrar. Então, eu não esperava... Eu não tinha uma expectativa tão grande, acho que é importante você não ter uma expectativa em relação ao tema. Ter a mente aberta. Eu acho que é importante. Tanto para retratar os personagens, a escolha de personagens, a situação, o processo em si, quanto o que filmar, como filmar as situações. 

 

OP – A gente acompanha em seu filme por mais tempo o pessoal que defendeu a presidente Dilma Rousseff, ou seja, que era contra o impeachment. Por que você fez essa opção?

Maria Augusta – Por duas questões. Primeiro, o fato de que a defesa da presidenta Dilma me concedeu esse acesso. Eles me concederam um acesso único, um acesso aberto e sem restrições. A defesa dela ajudou muito, a liderança da minoria, não só do PT, mas todos os senadores que estavam envolvidos na defesa da presidenta e, da mesma maneira, com os assessores e com o advogado de defesa, que é o José Eduardo Cardozo. Isso foi muito importante. Por outro lado, havia sim um pedido, eu tentei ter um acesso maior a alguns senadores da direita, senadores que foram a favor do impeachment. Esse acesso não foi me dado. Mas mesmo assim eu acho que é importante e o filme contempla, sim, os argumentos a favor do impeachment. É essencial que o filme contemple isso porque é preciso entender os dois lados, as duas narrativas. E em nenhum momento era de meu interesse que simplesmente contasse só com a narrativa da esquerda. De maneira alguma! Mas tive esse acesso, e sou muito grata por esse acesso. E, número dois, é que desde o início do filme, desde o primeiro momento, está estabelecido que essa história vai ser contada da perspectiva da defesa. Isso não é feito de maneira obscura, foi deixado claro desde o primeiro momento, o que é importante em termos formais. Segundo, eu acho que esses argumentos da esquerda, esses argumentos contra o impeachment foram muito pouco contemplados pela grande mídia. Pouquíssimo contemplados! Então, eu acho que existe uma lacuna enorme aí que tem que ser preenchida. E eu acho que esse filme finalmente preenche essa lacuna também. Sem, de qualquer maneira, ridicularizar, sem banalizar os argumentos da direita. Eu acho que O Processo não é um filme panfletário, eu não faço panfletagem. A minha abordagem nesse filme, durante a filmagem e durante a edição, é exatamente a mesma que a dos meus filmes anteriores. O fato de não usar entrevistas, não usar comentários é exatamente o mesmo tipo de cinema, a mesma proposta dos anteriores. Não só isso, de fugir do sensacionalismo, de fugir do que é fácil, das reduções de ambos os lados.

 

OP – Como se deu a escolha dos personagens?

Maria Augusta – A escolha dos personagens se deu também dentro de uma proposta do filme. Eu decidi, logo depois da votação da Câmara dos Deputados, que o filme deveria focar no processo jurídico-político, obviamente por interesse prévio em relação ao universo da Justiça, como já te falei. E esse processo jurídico-político se dá no Senado. Então, eu acho claro que você pode contar essa história, você pode retratar o impeachment de várias maneiras. Inclusive, não só em Brasília. Em Brasília, no Rio (de Janeiro), em São Paulo, na rua... Enfim, eu escolhi o processo jurídico que se dá no Senado. Daí, naturalmente, eu fui propor aos dois advogados, ao advogado de defesa e à advogada de acusação, que é a doutora Janaína Paschoal, e aos senadores que estavam fazendo parte da comissão, os que faziam parte da defesa da presidente e alguns que faziam parte da acusação, ou pelo menos tinham claro que eram a favor do impeachment. E, aos poucos, é claro que eu chamei muito mais. Chamei outros senadores que não estão no filme, que não foram tão desenvolvidos no filme. Mas eu tenho que fazer escolhas. O filme tem duas horas e 15 minutos, que já é um filme longo, e não tinha como ter todos os senadores da defesa, todos os senadores que eram a favor do impeachment. E aí você vai desenvolvendo. É claro que durante o processo (de montagem) algumas pessoas vão ganhando mais visibilidade, porque têm uma relação de protagonismo, isso inclusive dentro do processo (jurídico) e daí têm mais visibilidade no filme. Isso é inerente em todo processo de documentário.

 

OP – Janaína Paschoal é o principal contraponto na narrativa de seu filme. A gente pode até dizer que ela assume um papel de antagonista no documentário. Ela foi receptiva ao seu convite para filmar?

Maria Augusta – A advogada Janaína foi receptiva sim. Ela conhecia os meus filmes anteriores, ela permitiu ser filmada. Eu acho que o importante para ela e o importante certamente para mim é que nada do que foi filmado com ela ali no Senado foi tirado de contexto. Eu tenho tido muito cuidado e muito respeito com todas as pessoas que eu filmo, em todas as situações. E foi feito o que foi proposto, que era um filme sobre o processo político-jurídico, que vai focar realmente nesse processo, que nada vai ser tirado do contexto.

 

OP – Ela já assistiu ao filme?

Maria Augusta – Não, ainda não assistiu. Ela vai ver logo, eu vou mostrar para ela, possivelmente na semana que vem (esta semana). Eu acho que nesse sentido ela vai concordar e ver que foi feito com muito respeito.

 

OP – Tem uma sensação curiosa ao se assistir a O Processo, que é de os fatos documentados aconteceram só há cerca de dois anos, mas parecem ter ocorrido há décadas. Você acha que o filme ajuda a iluminar esse período histórico?

Maria Augusta – Eu não sei se eu acho isso. Eu, profundamente, espero que sim (risos). Eu, profundamente, gostaria que isso acontecesse. Eu acho que é para isso que eu faço meu trabalho, é para isso que eu faço cinema. De alguma maneira eu tenho uma necessidade pessoal de comunicar alguma coisa. Eu acho que o filme tem que ser além, tem que ser muito mais que a minha pessoa como ser, como indivíduo social e político, ele tem que ser muito maior do que isso. Nesse sentido, é uma proposta de cinema, que é um cinema reflexivo, um cinema que tenta dar conta de uma complexidade, na realidade. E é isso. O filme tem que ser maior do que eu, no sentido que tem que ser maior do que a minha visão específica sobre esse processo.

 

OP – Em O Processo você opta por não identificar os personagens. A que se deve esse recurso?

Maria Augusta – Faz parte da proposta de você ir descobrindo essa realidade, revendo essa realidade e ir descobrindo essas pessoas. O público vai descobrindo o que cada um pensa, através dos argumentos, através da fala, através das discussões. Eu acho que é importante, muito mais do que identificar os partidos. Talvez seja mais difícil para o público, demanda um pouco mais de atenção, mas eu acho que é importante. Eu acho que faz parte da maneira como eu tento contar essa história, retratar isso.

 

OP – O Processo é o primeiro documentário sobre o impeachment de Dilma Rousseff que estreia no Brasil. E alguns documentários sobre o tema estão sendo finalizados. Mas outros dois produtos audiovisuais anteriores, duas ficções, se debruçam sobre a Lava Jato e seus desdobramentos, ambas muito polêmicas, que são a série O Mecanismo, de José Padilha, e o filme Polícia Federal – A lei é para todos, do Marcelo Antunez. Os dois, de alguma maneira, tratam da crise política que o Brasil passa. Como você vê essa disputa, dentro da linguagem audiovisual, por essas narrativas políticas atuais?

Maria Augusta – Primeiro, eu não vi nenhum dos dois, então eu não gostaria de fazer nenhuma comparação. Segundo, eu não quero fazer parte dessa disputa de narrativas. Eu acho que a proposta do meu trabalho é outra. É uma proposta de gerar reflexão, é um outro cinema, onde existe compromisso com a ética, com a verdade, com um posicionamento. No sentido de que o filme se coloca também como uma visão subjetiva, parcial. Ele não pretende defender uma narrativa única. Pelo contrário, ele pretende trazer à tona outras possíveis narrativas. O que é diferente de disputar uma narrativa única. Eu não me reconheço nesse processo, Mas sim, tem pessoas que estão fazendo, principalmente na área de ficção, mas existe um mundo de diferenças entre a minha proposta de cinema e a proposta de cinema dessas pessoas, independente de juízo de valor. Eu não estou querendo fazer nenhum juízo de valor, se é ruim, se é bom. Mas é uma proposta diferente.

 

OP – Desde que estreou no Festival de Berlim, um dos mais importantes do mundo, o filme está tendo uma repercussão internacional muito boa, vem colecionando prêmios. Isso te surpreende? Você esperava essa repercussão toda?

Maria Augusta – Não, eu não esperava. Eu esperava uma recepção semelhante a dos meus filmes anteriores e estou sendo surpreendida. Estou muito feliz. Eu acho que nada me faz mais feliz que comunicar algo a um público, seja ele brasileiro, seja ele estrangeiro. Eu tenho tido respostas muito positivas, tanto no Brasil quanto lá fora. E lá fora tem dito que acham que é um filme absolutamente universal, que lida com os desafios da democracia, que lida com o momento que a democracia está vivendo, com a questão da política, desse momento no mundo. Então, isso só me deixa feliz. Não poderia ser mais gratificante para um processo de filmagem e de edição que foi difícil, muito difícil, trabalhoso. E eu tenho só que agradecer à minha equipe, a Karen Akerman, que editou esse filme comigo.

OP – A montagem do filme levou quanto tempo?

Maria Augusta – Seis meses, mais ou menos.
 

OP – Você opta por uma abordagem não-sensacionalista do tema, como afirmou há pouco, não há depoimentos nem entrevistas, e não usa trilha sonora para reverberar a ação, mas ainda assim você consegue manter uma tensão muito grande para uma história cujo final já é conhecido. Uma tensão que se aproxima de uma narrativa ficcional, quase.

Maria Augusta – Veja bem, isso também foi intencional. Porque aquele momento ali, aquele momento era de tensão constante. O filme retrata isso. Todo o processo de impeachment foi uma grande tensão. Então, como o filme está retratando esse processo, é importante que formalmente você, como público, sinta isso emocionalmente. Entendeu? Não foi um processo chato. Pelo contrário, foi um processo de muita tensão e, ao mesmo tempo, de muitos fatos, muitos acontecimentos. A cada dia acontecia uma coisa nova, um fato novo. E que gerava uma série de reações, dos dois lados, digamos assim. E era importante que o filme refletisse isso.

OP – Você pensa em voltar ao tema em um novo trabalho??

Maria Augusta – Ah, não sei (risos). Nesse momento a gente está distribuindo o filme e eu acho que não. Tudo pode mudar, mas nesse momento eu acho que não. Não tem nenhum plano para isso, nenhum plano mesmo. Tenho pensado, mas tem sido um processo muito cansativo, estou muito cansada. Mas tem também tantos outros diretores, documentaristas que podem também, estão inclusive filmando... Mas sempre é possível. Me instiga. Falta energia, nas é um tema que me instiga muito!

 

Formação

MARIA AUGUSTA RAMOS nasceu em Brasília. É graduada em Música pela Universidade de Brasília e em Cinema pela Netherlands Film and Television Academy, em Amsterdã.(Holanda).

 

Filmografia

O PROCESSO é o oitavo longa-metragem da cineasta. Antes dele vieram Brasília, um dia em fevereiro (1995), Desi (2000), Justiça (2004), Juízo (2007), Morro dos Prazeres (2013), Seca (2015) e Futuro Junho (2015).

 

Premiações

MARIA AUGUSTA RAMOS é uma diretora de cinema premiada internacionalmente.Em 2014, recebeu o Prêmio Marek Nowicki outorgado pela Helsinki Foundation of Human Rights pOR sua obra. Seu filme Desi recebeu o ‘Bezerro de Ouro’, prêmio mais importante do cinema holandês. Foi também vencedor do Prêmio de Público no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA) em 2000, festival considerado a Cannes do cinema não-ficcional.Justiça (2004) foi exibido em mais de 50 festivais internacionais e recebeu nove prêmios. Juízo foi exibido na competição oficial do Festival internacional de Locarno, assim como no Festival de Rotterdam, na Viennale, no IDFA. Morro dos Prazeres (2013) estreou no Festival de Rotterdam e recebeu os prêmios de melhor direção, melhor fotografia e melhor som no 46º Festival de Cinema de Brasília.Futuro Junho recebeu o Prêmio de Melhor Filme no VIII Janela Int. de Cinema de Recife e o Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cinema do Rio.

 

Seca foi exibido na Competição Internacional do Festival Int. Visions du Reel na Suiça e recebeu o Merit Prize – Prêmio especial do Júri no Festival Int. de Doc. de Taiwan.

 

Crítica

QUANDO O PROCESSO estreou em Berlim e foi ovacionado pela imprensa especializada e público, o crítico de cinema Rodrigo Fonseca, que cobria o evento para o jornal Estado de S. Paulo, definiu o filme como “o atestado de óbito da democracia brasileira”

 

ÉMERSON MARANHÃO

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