VERSÃO IMPRESSA

É hora do mérito

01:30 | 26/03/2018

[FOTO1]

 

Estabilidade. Na mira da legião de jovens que lotam salas de cursinhos para concursos, esta costuma ser a razão primeira para estar ali. Até aceitam a alcunha de concurseiros. Difícil alguém falar em vocação para servir ao público. Para o CEO da EY Brasil (antiga Ernst&Young), o cearense Luiz Sérgio Vieira, 46, a estabilidade pode estar também no setor privado. “Sempre me considerei estável, já que o que eu aprendia me permitia uma atratividade muito grande no mercado”. Em tom de exortação, ele afirma: “Existem várias carreiras de desenvolvimento na iniciativa privada. As pessoas não precisam ter temor”. Sobre as cotas, a multinacional que ele comanda não tem posição fechada, mas ele sim. Luiz Sérgio avalia que tal sistema, em alguns momentos, elas podem acelerar as condições que se quer buscar. Uma exemplo são os PCDs (Pessoas Com Deficiência). Segundo ele, as cotas acabaram por gerar conscientização nas empresas. Preconceito por ser cearense durante a escalada na EY? Não lembra de ter sofrido. “Tenho a seguinte visão: às vezes, há um ponto do preconceito que é se vitimizar”. Antes de assumir o comando, em São Paulo, ele foi direto de Fortaleza para a EY em Nova York. Luiz Sérgio conversou com O POVO na Capital cearense.


O POVO – Na carreira de um profissional como o senhor, o que significa chegar ao comando de uma corporação como a EY?
 

Luiz Sérgio Vieira - Estou na EY há 25 anos. Como é uma empresa com a qual sempre me identifiquei e onde encontrei valores com os quais me identifico, você chegar à liderança da empresa é uma honra, mas também uma responsabilidade muito grande. É uma organização que tem um forte impacto no mundo e significa trabalhar ainda mais próximo das pessoas em termos de formar novas lideranças, desafiar as pessoas a buscarem novos horizontes. É um misto de satisfação e gratidão pelas oportunidades que me trouxeram aqui. Mas também sou muito ciente de que ser líder de uma organização como a nossa é saber multiplicar outras lideranças.


O POVO – Como são multiplicadas as lideranças na companhia?
 

Luiz – Temos uma proposta de valor de carreira muito grande. Desde que a pessoa se junta à EY, ela terá um misto de capacitação e novas oportunidades que você vai desenvolver. Entre elas, promoções em prazos preestabelecidos. Temos processos nos quais você trabalha muito a questão da meritocracia. E também por ser uma organização muito plural em termos de serviços, isso te dá oportunidade de movimentações laterais e de carreiras em diferentes locais. Por exemplo: comecei minha carreira em Fortaleza, no nosso escritório na Cidade. Sou da segunda turma de 1992. Na época de fundação, em 1991, era uma startup. Passei por várias linhas de negócios e serviços diferentes. São oportunidades para se desenvolver a carreira e suas skills (habilidades) de liderança, inclusive, trabalhando não só em Fortaleza. Em 2008, fui para Nova York, numa cultura totalmente diferente e, depois, voltei para São Paulo. Além dos programas de treinamento muito fortes que possuímos, há uma universidade corporativa, fora o recebimento de prêmios, além do on job couching e do coaching (treinamento). 

 

Muitos jovens de uma geração da sua idade e de uma geração mais recente têm como objetivo de vida fazer um concurso público, não encarar o mercado. O senhor seguiu uma trajetória no setor privado. Como o senhor vê esse comportamento?
 

Luiz – Você pode ter vocações. A vocação do serviço público é muito bonita. Meu pai (é filho do ex-presidente do extinto Tribunal de Contas dos Munícipios - TCM, Luiz Sérgio Gadelha Vieira) é uma pessoa que veio da iniciativa privada que, por opção, seguiu para o serviço público. Precisamos de mais lideranças e pessoas inspiradoras e que são extremamente competentes no serviço público. O que preocupa é essa procura ser fruto de uma acomodação ou se você tem um temor de enfrentar o mercado, onde você não lida com o termo estabilidade, um ambiente que a meritocracia é muito forte. Sou de uma empresa que trabalha muito forte com a meritocracia, que a gente tem uma rotatividade grande de talentos, pois somos uma vitrine onde vários clientes e outras empresas vão buscar. Gostaria de uma rotatividade menor, mas nossos profissionais acabam tendo grande atratividade no mercado, sendo uma fábrica de formação de talentos. Eu nunca, durante toda minha carreira, quando você se dedica e se prepara, me preocupei com a questão de estabilidade. Eu sempre me considerei estável, já que o que eu aprendia me permitia uma atratividade muito grande no mercado. Por isso que eu digo que é bom você estar em uma posição onde você pode escolher, e não ser escolhido. Existem várias carreiras de desenvolvimento na iniciativa privada. As pessoas não precisam ter temor. É um ambiente mais dinâmico e efervescente, mas que te permite 

novos aprendizados.

 

O POVO – Inovação virou o novo lugar comum no Léxico corporativo. Em que medida o Brasil está avançando mesmo na prática?

 

Luiz – Hoje temos várias tendências externas que têm afetado o mundo de negócios. Falamos da Era da Transformação, que são disruptivas. Ao todo, conversamos com quatro gerações. Quando se fala da geração millennials, ela possui outras necessidades, onde eles querem ter propósitos de vida e serem bem-sucedidos. Dentro destas novas tecnologias, existem a robótica e a digitalização. E isso vai ter um impacto entre outras tecnologias, no mercado de trabalho. Você tem uma série de atividades que estão sendo substituídas por robôs, que, na verdade, são algoritmos em software numa velocidade muito grande. A EY tem trabalhado muito com os clientes nesses processos de digitalização, mas tivemos uma preocupação global, que é olhar a digitalização colocando o ser humano no centro. A partir do momento que eu programo um robô para fazer algumas atividades que são rotineiras, o que eu faço é liberar o ser humano para usar aquilo que é o seu diferencial: criatividade, capacidade de se adaptar, solucionar problemas, ter empatia... Então, o que propomos, com o Pacto de Digitalização Humanizada do Trabalho, é: mobilizar as lideranças e a sociedade para trabalhar a digitalização sobre o aspecto humano. Nesse novo mercado, no curto prazo, em automação, teremos empregos que vão deixar de existir por causa dessa robotização.
 

O  POVO – A digitalização/robotização vai extinguir logo postos de trabalho, ou este apocalipse ainda vai demorar?
 

Luiz – No curto prazo, sim. Vão ter empregos que deixarão de existir se você não capacitar esse pessoal. Teremos uma massa maior de desempregados que não conseguem se adaptar à nossa situação. No longo prazo, sou otimista. O que está acontecendo hoje vai gerar novos produtos, novas soluções e oportunidades. O problema é a transformação. Estamos falando de pessoas e suas famílias. Não podemos apenas ficar na visão de economistas.
 

Mudanças
 

O POVO – Qual o papel do Estado?

Luiz – Queremos chamar primeiro a iniciativa privada, pois ela possuiu um papel de protagonismo. Ela vai ser beneficiada. Quando implemento automatização, posso estar ganhando no meu botton line (preço final). Mas ela não pode jogar aquilo para o setor público. Só que o setor público também é um grande indutor da economia. Através de políticas, têm um impacto muito grande. E o Pacto também está sendo discutido com o setor público. Isso envolve novos modelos de educação.
 

O POVO – Dentro de uma empresa privada, qual o papel do gestor no sentido de capacitar a equipe para as transformações?
 

Luiz – O gestor tem que saber o impacto que está criando em sua força de trabalho e na comunidade ao seu redor. A partir daí, tem de antecipar essas tendências em termos de capacitação, como promover treinamentos para adaptar as pessoas às novas tecnologias que são empregadas. Atualmente, contratamos cada vez menos pela competência técnica e mais pelos skills. O que uma pessoa faz hoje, por exemplo, vai deixar de existir. As habilidades dela dificilmente deixarão. É preciso uma visão voltada
às transformações.
 

O POVO – A meritocracia foi tachada como algo perverso. O que move quem a sataniza?
 

Luiz – Nós verificamos alguns modelos que você tem uma meritocracia, onde alguns pressupostos para a meritocracia não estavam tão trabalhados para acontecer. Acontece que, infelizmente, temos viés inconsciente em que você não parte de um momento de igualdade entre as pessoas. E nessa corrida são apresentadas vantagens e desvantagens. Eu acho um erro você acabar a meritocracia ao observar problemas na base, nos fundamentos. É preciso que se trabalhe esses fundamentos. Algumas pessoas fazem uma confusão de que a meritocracia está causando alguns resultados que têm tendências onde talvez só as pessoas que possuem melhor educação foram privilegiadas. E é por essa razão que resolvem desvalorizar a meritocracia. O que se precisa trabalhar é igualar as pessoas em termos de oportunidades para que, quando elas entrem nessa corrida, que é natural, assim como o empreendedorismo, é o que vai gerar o desempenho acima da média.
 

O POVO – As políticas de cotas que o Brasil adota fazem sentido dentro desse raciocínio?
 

Luiz – Não temos uma posição fechada, como companhia, sobre a questão de cotas. No entanto, acredito que o sistema de cotas, em alguns momentos, pode acelerar as condições que se quer buscar. Uma exemplo disso é a questão dos PCDs (pessoas com deficiência). Isso gerou uma série de problemas, pois não tínhamos talvez, em parte dessas pessoas, a qualificação necessária. Por outro lado, criou-se uma conscientização embora algumas empresas, hoje, talvez ainda pensem no cumprimento de cotas. Resolvemos trabalhar com com as PCDs (pessoas com deficiências) em outro viés: como permitir que ela atinja seu potencial. Eu não sou um defensor de cotas. Elas são medidas extremas e que podem criar situações de injustiça para quem está fora das cotas, mas também reconheço que, em alguns momentos, ela pode acelerar a curva
de aprendizado.
 

O POVO –  Quais habilidades que um profissional precisa para se tornar imprescindível?
 

Luiz – Pessoas adaptáveis, criativas e que saibam resolver problemas, além de trabalhar com empatia. Você mobilizar pessoas para realizar tarefas. Essas são as principais habilidades que nós vamos precisar no profissional do futuro. Não é que você não vai precisar da competência técnica. Hoje tomamos uma decisão com uma base pequena de dados, sendo que esse percentual chega a 20%. Vários desses dados não estão estruturados. Muitas vezes, se busca com o ERP (Sistema de gestão empresarial) da empresa, mas não os dados nas mídias sociais, nos e-mails e dados sobre o comportamento do teu consumidor que poderia ser explorado. E, com o Big Data Analytics, você pode ver e fazer cada vez mais isso. O que fazer com esses dados? Qual é a pergunta correta para resolver os negócios? Será o ser humano, no qual acredito, que terá essa capacidade e discernimento para fazer as perguntas corretas para depois programarmos as máquinas.
 

 

Experiência

 

O POVO – Como uma companhia pode se manter relevante com tantas mudanças rápidas a acontecer no mercado?

 

Luiz - A empresa tem que entender o propósito como organização. Precisa ter um fator humanístico, não pode ser apenas voltado para geração de riqueza. Isso não já resolve mais e não é um discurso ativista. Os clientes, cada vez menos, estão em busca de um produto, mas sim de uma experiência por meio de um conhecimento da empresa que gerou aquilo. Essas conexões têm sido a tônica do mercado. As companhias precisam saber ler seu cliente, seu consumidor. Segundo, entender o problema de negócios a ser resolvido. Você deve entender a tecnologia para resolver o problema de negócios, mas a tecnologia não é o foco. Depois, dentro da visão do cliente, sustentabilidade é importante. Obviamente que isso depende de engajar e reter pessoas com talentos e formar líderes.
 

O POVO – Em uma economia ainda combalida, as empresas costumam focar apenas em resultados financeiros. Como trabalhar outros valores em momentos de crise?

 


Luiz – Vivenciamos isso em nossos clientes. As empresas priorizaram uma agenda de preservação de caixa. Mas você precisa ter cuidado: alguns cortes de custos podem ser burros. Você pode estar eliminando conhecimento, capacidade e inovação dentro da empresa. Mesmo em momentos de dificuldades, o viés não pode ser de curtíssimo prazo. É preciso ter esse balanço da agenda de curto prazo, mas fazer um trabalho de eficiência e redução de custos pensando também no que vem a seguir. Esse é o exercício a ser feito. Como fazemos isso com nossos clientes? Trabalhamos metodologias até mais tradicionais como o OBZ (Orçamento Base Zero) com inovação. Com isso, você não faz simplesmente corte linear de custos, mas identifica as prioridades da tua organização e os investimentos que necessitam ser feitos. Às vezes, significa liberar caixa de um negócio que pode até ser mais maduro e colocá-lo em negócios que estão surgindo.

 

O POVO – A reforma trabalhista fez com que as empresas brasileiras se tornassem mais competitivas?
 

Luiz – A reforma trabalhista, primeiro, vejo como positiva. A tendência do modelo de negócio mundial é ter uma flexibilização. As empresas de hoje têm trabalhado não só com seus funcionários, mas com trabalho contingente e com parcerias. São modelos que se conectam em rede. As mudanças que ocorreram foram positivas. Ainda é cedo para avaliar o impacto. Em geral, é isso que digo quando converso com nossos clientes. Por enquanto, não tenho dados numéricos. Há o receio da jurisprudência de como os tribunais vão aplicar certos entendimentos. O Brasil, contudo, não pode se ver isolado do mundo e numa economia conectada. Você não está competindo só com uma empresa do Ceará, mas com empresas nacionais e globais. Meu maior receio é que o Brasil não acompanhe essas mudanças que estão ocorrendo em todo o mundo. Aí teremos um problema de desemprego maior, em que as pessoas não vão estar qualificadas para as novas exigência do mercado. Por outro lado, necessitamos também de uma agenda produtiva e de eficiência. Não podemos ficar apenas injetando crédito ou esperarmos crescer com bônus demográfico.
 

O POVO – O mundo é dividido em quatro grandes consultorias, as Big Four. Num mundo em transformação como o nosso, o senhor acredita que se tornará Big Three, Five e até Six?
 

Luiz – Chamamos de Big Four as quatro empesas líderes no mercado de auditoria e consultoria (EY, PwC, Deloitte e KPMG). Acho pouco provável uma redução, até porque a competição é salutar. Vejo que, na nossa indústria, não estamos disputando com as outras Big Three. Disputo com butiques e empresas distintas. Todas querem apresentar sua proposta de valor para o cliente. Quando olho para o mercado competitivo, não vejo apenas essas três. Enxergamos empresas de todas as áreas. E nós temos modelos de negócios diversos. Dependendo do que faço, as concorrentes também vão variando.
 

O POVO – Novas aquisições estão nos planos da empresa?
 

Luiz – Continuamos comprando. Mas elas (compras) são estratégicas, pois temos uma preocupação com o FIT (alinhamento) de cultura da nossa organização. Temos investido muito em tudo que está ligado à consultoria digital. Buscamos algumas coisas para complementar nosso crescimento que não é só orgânico.
 

O POVO – Compliance no Brasil é uma moda ou veio para ficar com mais intensidade por conta da Lava Jato?

 

Luiz – A Lava Jato foi importante e dela outras ações. O Brasil tem uma legislação recente de antifraude se comparada com a dos Estados Unidos, que é de 1970. E logo nós tivemos um leading case (decisão que tenha constituído em regra importante). Quando sai a legislação, fica a pergunta: vai pegar ou não? Isso não é só no Brasil, mas em países, talvez, mais jovens do ponto de vista de regulação. O caso da Lava Jato, que vem atingindo a iniciativa privada, setor público, todas as esferas, gerou uma nova forma de ver temas ligados a compliance. Nossa área tem sido muito demandada. Ajudamos os clientes não somente em investigação, mas na parte preventiva. Isso aumentou muito. Já hoje temos um momento totalmente distinto antes da Lava Jato. O processo que vivenciamos é muito saudável no longo prazo. A nossa grande preocupação como brasileiro é que a gente não tenha interrupções nesses processos.

Reformas


O POVO – As reformas previdenciária e tributária podem ajudar as empresas brasileiras a ficarem mais competitivas?

Luiz – As reformas ajudam a tornar o ambiente de negócio, quando se fala especialmente na tributária, simplificado e competitivo. Obviamente a reforma da Previdência deve conter gastos para que se possa reinvestir. Elas não são suficientes, mas vão permitir que o País prossiga em outros passos. O que não podemos fazer é não aprovar essas mudanças. Mas elas precisam ser discutidas com a sociedade.
 

O POVO – O senhor sofreu algum tipo de preconceito por ser originário de fora do Centro-Sul do País?

 

Luiz – Tenho a seguinte visão: às vezes, há um ponto do preconceito que é se vitimizar. Eu não me lembro de ter sofrido preconceito. Saí daqui direto para Nova York. Depois voltei para São Paulo. Me preparei bem em todas as etapas. Agora, eu nunca me vi em situação de vítima. Esse é o problema. Podem haver alguns vieses inconscientes. Se você acredita estar sofrendo preconceito, trabalhe mais duro para provar que você consegue.  

 

Perfil


CARGO
Luiz Sérgio Vieira ingressou na EY como trainee. Ao longo de 25 anos, passou por diversas áreas da companhia no Brasil e no exterior, como a de Impostos e a de Mercados Estratégicos. Desde 1º de julho de 2016, é o mais jovem CEO de uma das companhias que integram o chamado grupo Big Four. 

 

Debate


AMBIENTE
O CEO da EY concedeu entrevista no Pipo Restaurante, onde participou de um debate sobre inovação e sustentabilidade, em evento da CVI Corretora.

JOCÉLIO LEAL , ÁTILA VARELA

TAGS