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Jornal

Íntegra da entrevista com Jean-Marc Pouchol

16/10/2017 01:30:00

 

OPOVO - Hoje o senhor mora no Brasil e é diretor geral Air France-KLM América do Sul. Por quantos países já passou?  


JEAN-MARC POUCHOL
- Eu fui contratado pelo Grupo Air France-KLM, que, na época, era Air France-KLM antes da fusão. Há 17 anos comecei a trabalhar na França e, até agora, toda a minha carreira foi mais focada nos temas comerciais. Eu trabalhei na matriz da Air France, agora Air France-KLM, em Paris. Também trabalhei fora da França, em Madri, na Espanha, durante quatro anos, como diretor comercial para Espanha e Portugal. Também fui para Estocolmo como diretor comercial para os mercados da Escandinávia e Finlândia, que são mercados bastante importantes para o grupo, principalmente para a KLM, porque pela KLM temos muitos voos até a Dinamarca e Finlândia. E também depois fui o responsável, o diretor do programa Flying Blue, programa de fidelização dos clientes, também na matriz em Paris. Eu cheguei no Brasil há um ano. Antes de chegar aqui, eu estava trabalhando para o mercado francês como responsável pelas vendas que são feitas pelas agências de viagens.

 

OP - E qual a sua imagem do brasileiro? Como o europeu vê o Brasil?


POUCHOL - A imagem do Brasil na Europa é muito positiva. E é porque desfrutamos muito e queremos aproveitar o Brasil quando se abre rota para cá, que estamos convencidos do sucesso que serão os novos voos da Air France-KLM com o hub no Nordeste. No Brasil, o Rio de Janeiro tem uma notoriedade muito alta, (Foz do) Iguaçu também. E o Nordeste tem potencial muito alto. Temos muitos turistas aqui, mas sabemos que a região tem potencial de crescimento. Quando cheguei ao Brasil, em agosto do ano passado, a primeira coisa que os brasileiros me disseram com respeito ao mercado é que: ‘hoje estamos na crise, mas você vai ver, podemos ter recuperação muito rápida’. O que aconteceu, e acho que é uma verdade, no Brasil há um otimismo que não se vê na Europa. Sinceramente isso faz com que se possa recuperar o crescimento econômico muito rapidamente. É o que me chama atenção quando se trata de comparar Europa e Brasil: há otimismo.

 

OP - Como o senhor recebeu a notícia de que a Air France-KLM iria instalar um hub (centro de conexão de voos) no Nordeste?


POUCHOL - Quero mencionar antes que nos mercados da América do Sul, particularmente o do Brasil, notou-se o início da recuperação da demanda. Entrei quando se avaliava a evolução da demanda entre Brasil e Europa. Há um ano já  há uma recuperação da demanda. E ao longo do ano se notou uma recuperação mais forte. Então, eu diria que no início deste ano, 2017, começamos a estudar a possibilidade de investir ainda mais no mercado brasileiro, com o objetivo de participar na recuperação da demanda. Tivemos resultados cada vez mais positivos e ganhamos fatia de mercado no Brasil. Então, isso realmente contribuiu no estímulo de investir no País. A partir de novembro (2017) vamos aumentar para ambas as companhias, KLM e Air France, nossa oferta de voos no Brasil em 13% (Rio de Janeiro e São Paulo). Quando analisamos nosso desempenho no mercado brasileiro, vemos que temos presença muito forte em São Paulo e Rio de Janeiro, também no Sul do Brasil e no Centro do Brasil, mas nos falta presença no Norte e Nordeste. Quando você mora em Belém, não é totalmente natural descer até São Paulo ou Rio de Janeiro para depois subir para a Europa, do ponto de vista geográfico. Então, foi com isso que começamos a pensar em criar uma nova rota no Nordeste do Brasil, mas desde o início foi um projeto em conjunto com a Gol, porque  do ponto de vista comercial, sem a alimentação dos voos, não seria sustentável. Hoje temos quase 25% dos clientes Air France-KLM fazendo conexão com a Gol. Então, já temos uma parceria que dá certo e é por isso que queremos dar um passo adiante em Fortaleza. Esse projeto de Fortaleza é importante, porque ele não é só para o Ceará, para Fortaleza, mas é para aumentar nossa presença no Norte/Nordeste do Brasil. Vamos ajustar, combinar os voos, para que seja muito fácil ir de Belém ao Ceará, fazendo conexão em Fortaleza. O mesmo de Salvador... Espero que seja muito mais simples, em comparação com hoje, para ir desde a Alemanha, por exemplo, até Salvador, fazendo conexão em Fortaleza.

 

OP - O que foi determinante para escolher na Capital cearense e qual cidade (Salvador e Recife) na disputa pelo hub foi a que ameaçou mais os planos de Fortaleza?


POUCHOL
- Não teve isso de cidade chegar mais perto. Levamos em consideração a localização geográfica da Capital no Brasil, a distância entre Europa e Fortaleza. Também se observou a localização no Brasil, para que pudéssemos organizar com a Gol esse hub. Também se analisou o potencial local, porque precisamos do dinamismo da economia, da demanda local. O último critério foi o potencial de crescimento. O aeroporto nos assegura que podemos realmente montar esse tipo de organização, de hub com a Gol. Quando se considerou todos esses critérios, digamos que tivemos um bom problema em nossas mãos. A cidade escolhida foi Fortaleza, mas Salvador e Recife também tinham todos os critérios. Mas, ao final, quando se combinam todos os critérios, vimos um pouco mais de potencial com a opção de Fortaleza. As outras cidades eram opções totalmente relevantes.

 

OP - De que modo o Ceará vai ser vendido na Europa?


POUCHOL - O objetivo agora vai ser de fomentar, promover os destinos do Norte/Nordeste, especialmente do Nordeste na Europa e também na Ásia. Quando começarmos os voos, para ir de Beijing (China) até Fortaleza, seremos a melhor opção. Esse projeto vai ter fluxo de turistas não só da Europa, mas também Médio Oriente, Ásia...

Vamos organizar promoções, vamos comunicar sobre o Nordeste nesses países. Já começamos! Na semana passada (última semana de setembro), aconteceu em Paris o equivalente da feira que se chama Abav (ABAV Expo Internacional de Turismo - da Associação Brasileira de Agências de Viagens) aqui em São Paulo, que reúne todas as agências de viagem. Comunicamos muito sobre a abertura dessa nova rota e de todo o potencial que começaremos a partir de maio do ano que vem.

 

OP - Como o senhor, na condição de turista, avalia o mercado turístico no Ceará?


POUCHOL - Eu, como turista, acho que há potencial incrível para o Ceará, para o Nordeste. Já estou aqui há um ano e já fu para o Ceará em julho passado. Fui visitar Jericoacoara. Depois fui visitar os Lençóis Maranhenses. Acho que vai ser um sucesso total para os turistas europeus. São tão incríveis as paisagens que temos no Nordeste... Só o que devemos fazer é comunicar um pouco mais. Porque, hoje, cada vez mais, na França, ou nos Países Baixos (Holanda), na Europa, conhece-se Fortaleza, mas devemos comunicar ainda mais para nos assegurar que todos os franceses, neo-holandeses poderão colocar Fortaleza, Recife, Lençóis Maranhenses no mapa do mundo.

Pessoalmente, adorei minhas férias em Jericoacoara. Mas precisamos lembrar que esse projeto não é só para o lazer, mas também para negócio. Vamos fazer todo o possível para desenvolver o turismo e também os negócios.

 

OP - Como pensam na estrutura do hub, quantos fingers (pontes de embarque) vão precisar?


POUCHOL - Já tivemos discussões com a Fraport e agora vamos passar a uma fase mais concreta. Vamos lançar grupos de trabalho para desenhar. Devemos, seis meses antes do primeiro voo, que lançaremos em maio, inaugurar grupos de trabalho muito concretos com a Fraport para preparar tudo isso, mas estamos convencidos que o trabalho de Fraport em conjunto com Air France-KLM, em conjunto com a Gol, vai montar um hub muito importante. A ambição da Fraport faz pensar claramente que vamos desenhar juntos um produto muito adequado para os viajantes. Vai existir demanda de estrutura, mas tudo vai ser conversado nesse grupo de trabalho. Para um cliente que vai sair de Brasília   fazer conexão em Fortaleza e ir para Paris, veremos como organizar mossas operações no aeroporto, para que seja mais simples para este cliente fazer uma conexão. Isso significa que teria uma porta de desembarque muito perto da porta de embarque.

 

OP - Caso os voos em Fortaleza se consolidem, há expectativa de novas rotas além de Paris e Amsterdã?


POUCHOL - Não, porque o conceito de Air France-KLM é servir os dois hubs que temos na Europa, que são Paris e Amsterdã. Pensamos que mais ou menos 50% dos clientes que vão chegar em Amsterdã e Paris vão fazer uma conexão. Amsterdã e Paris não vão ser destino final. A metade vai desfrutar da malha da Europa da Air France-KLM para ir até o destino final na Itália, Alemanha, Escandinávia, Espanha, Ásia, etc.

Depois, em Fortaleza, temos a parceira Gol que aumentará os voos.

Inicialmente, são cinco frequências, sendo duas de Air France para Paris e três de KLM para Amsterdã. Já vamos começar com cinco voos semanais. Geralmente, quando iniciamos nova rota, começamos com três voos semanais. A ambição, efetivamente, é crescer. Mas o ritmo desse crescimento depende do sucesso da rota. Queria mencionar que é a primeira vez na história do Grupo Air France-KLM que vamos começar com as duas companhias ao mesmo tempo juntas. O que se faz, comumente, é começar com a Air France e depois avaliar a possibilidade de, um ano depois, acrescentar ou não a outra companhia KLM ou Air France. Depende da companhia que começar a operação.

Também é a primeira vez que vamos começar com as duas companhias, KLM e Air France, com uma parceira, no caso, a Gol.

Normalmente, não se abre esse tipo de operação desde o início.

 

OP - O senhor espera que o voo tenha sucesso em quanto tempo para aumentar o número de frequências?


POUCHOL - Isso vai depender da evolução das vendas. Mas é cedo demais para responder a essa pergunta. Três meses antes do primeiro voo (maio), já teremos orientação de número de vendas.

 

OP - Quando será permitido reservar passagem? (Aqui, sim, ele falou no início das vendas... Amém! rsrs)


POUCHOL - Vamos começar as vendas daqui a um mês (novembro), estamos aguardando autorizações das autoridades. Desde o início poderemos vender as conexões com a Gol.

 

OP - Os europeus são os que vão sustentar esses voos?


POUCHOL
- O que avaliamos hoje é a distribuição equilibrada entre europeus e brasileiros. Metade, metade.

 

OP - O Grupo tem pretensão de atrair os mercados dos Estados Unidos? Porque, historicamente, eles têm baixa emissão para o Nordeste.


POUCHOL - Não é o alvo. O alvo é o mercado brasileiro. Talvez veremos depois o mercado da América do Sul. Se pensarmos em sair dos Estados Unidos, indo para a Europa, fazendo conexão em Fortaleza, também não é o conceito. Talvez podemos ter clientes para isso, mas não é a meta, não é o alvo desse projeto.

 

OP - E sobre a nova companhia aérea Joon, empresa que deve atrair o público mais jovem, com renda menor, Isso não fragiliza a operação dos voos?


POUCHOL - É importante dizer que esse projeto vai ter operações da Air France. Tudo que se refere à comercialização, distribuição das passagens, reconhecimento dos clientes Flying Blue, prioridade dos nossos clientes de alto nível do programa de fidelização nos aeroporto... Tudo isso vai ser Air France. Teria um fretamento da companhia Joon.

Mas aqui, no Brasil, vamos comercializar. E a propaganda, por exemplo, quem vai fazer é Air France. Depois, efetivamente, é verdade que teremos uma operação Air France com voo efetuado pela Joon. Também é importante destacar que a Joon vai ter o mesmo padrão que a Air France. Teremos cabine executiva, intermediária e econômica. Os assentos na aeronave serão da Air France. E a Joon não se trata de companhia low cost (baixo custo). Será possível testar coisas que depois poderemos estender à Air France. A Joon terá uma identidade própria. Poderá ser um laboratório para provar coisas em termos de inovação para os clientes. Por exemplo, em relação à oferta de produtos a bordo, de entretenimento, o que faremos em termos de vendas por meio do digital, esse tipo de coisa... Mas vamos divulgar mais detalhes nos próximos meses, antes do início das operações.

 

OP - O senhor acredita que há espaço para outros hubs no aeroporto de Fortaleza, como o previsto pela Latam?


POUCHOL - Claramente, estamos muito confiantes no sucesso dessa operação que vamos montar em Fortaleza. Não vou falar da concorrência, mas temos a ambição de criar uma presença do Grupo muito forte na Capital cearense.

 

OP - Especialistas no setor aéreo, arquitetos e urbanistas falam muito que, no futuro, será preciso criar um aeroporto fora de Fortaleza? Como o senhor enxerga a capacidade do Aeroporto Pinto Martins?


POUCHOL - No momento, temos no aeroporto de Fortaleza toda a ferramenta adequada para operar lá, para atender nossa ambição.

Estou confiante hoje e para o futuro que temos a ferramenta adequada.

 

OP - O Grupo pensa em  fazer voos de carga ou usar a demanda dos porões dos aviões?


POUCHOL - Vamos ter também operações de carga. Não sou o responsável da atividade de carga. Temos potencial, mas não posso entrar muito em detalhes.

 

OP - Haverá geração de vagas de emprego em Fortaleza?


POUCHOL - Com certeza levaremos empregos, ainda vamos organizar.

Mas, com certeza, isso vai desenvolver novos cargos no aeroporto, novos empregos diretos e indiretos. Quando se abre nova rota, são muitos cargos indiretos que são levados. Ainda não temos ideia dos números, mas são muitos. Não só em Fortaleza, no Ceará, mas também em Pernambuco, Bahia... Todos os outros estados ao redor de Fortaleza, que vão desfrutar dessa nova rota, serão beneficiados.

 

OP - O senhor pode dizer as principais qualidades e limitações em Fortaleza?


POUCHOL - Hoje, sinceramente, não identifiquei nada para melhorar.

Talvez ache, mas estamos muito confiantes que vamos ter sucesso.

Quando se avaliam todos os critérios, que já mencionei, estamos bem positivos.

 

OP - Antes da Air France-KLM divulgar a cidade vencedora do hub, a cônsul da França em Fortaleza, Fernanda Jensen, adiantou a noticia, mas a companhia negou a informação.


POUCHOL - Não foi um vazamento. Nessa época (12 de setembro de 2017), a decisão não estava tomada pelo top management (alta administração) do Grupo Air France-KLM. Foi uma casualidade. Tudo isso saiu copiado de um documento que se pode encontrar também para Recife, Salvador. São informações sobre os destinos, que, graças à nossa parceira Gol, servimos. Mas isso é passado, não quero comentar mais.

 

OP - Quando Air France-KLM instalará escritório em Fortaleza?


POUCHOL - Antes de maio, mas não posso responder no momento.

Isso vai ser desenhado por meio do grupo de trabalho.

 

OP - E o senhor já pensou em vir para Fortaleza? Já considera que domina a língua portuguesa?


POUCHOL - Olha, seria muito bom ficar aí perto da praia (risos), mas estamos aqui em São Paulo. Temos uma ligação muito alta, com muitas reuniões. Somos vizinhos aqui em São Paulo, estamos em prédios próximos. Isso vai facilitar também toda a comunicação que teremos.

Agora, quanto ao idioma, foi muito fácil aprender (risos). Na verdade não é fácil. Mas eu adoro aprender novos idiomas. É muito agradável.

Adoro a cultura do Brasil também. Para um europeu, é bastante diferente e ao mesmo tempo é bem próximo... Perto da cultura francesa. Eu morei em Estocolmo. Pessoalmente, acho que a diferença de cultura era maior entre Estocolmo e França do que entre Brasil e França. Porque entre Brasil e França temos uma ligação latina. Temos bastantes pontos semelhantes. Isso facilitou a minha integração no País. Adoro as comidas, as bebidas (risos)... Gosto de tudo. Das paisagens, de passar por Fortaleza, Jericoacoara, Lençóis Maranhenses.

É uma diversidade muito agradável aqui.

Beatriz Cavalcante

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