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Jornal

Caymmi em muitas andanças

Herdeiro de uma tradição artística, Danilo Caymmi conta como se tornou um nome forte na música Brasileira e de que forma essa história continua nas novas gerações da família

18/09/2017 01:30:00
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Tudo em Danilo Caymmi é familiar. O tom de voz grave, o sobrenome pomposo, o bigode mantido há décadas, as roupas simples, os personagens que ele cita. Conversar com ele passa a impressão de um bate-papo com um velho amigo. Ele mesmo faz questão disso, falar sem pressa e sem afetação. Nem parece que se está na frente de um compositor valoroso, filho de uma família de artistas imprescindível para a história da música brasileira.
 

Em Fortaleza para divulgar seu mais recente disco, uma homenagem ao maestro Tom Jobim, o filho mais novo do seu Dorival conversou com O POVO por mais de uma hora. Bastidores dos festivais de música, gravações históricas, Carmen Miranda, Evinha, Elis Regina, cenas e personagens que estão registrados em muitos livros que contam a história da MPB. Danilo Caymmi viu isso tudo de perto e conta um pouco a seguir.
 

O POVO – Você é um Caymmi, sobrenome que é uma marca registrada no Brasil. Que peso esse sobrenome tem sobre você?
 

DANILO CAYMMI– Agora ele é mais a responsabilidade de manter a memória, a importância de manter do Dorival Caymmi dentro de um contexto nacional, assim como Tom Jobim também. Há uma tendência muito grande ao esquecimento desses grandes ícones da nossa música. A importância cultural da Carmen Miranda também, né? Você imagina: pela biografia lá do Ruy Castro, ela teve uma importância dentro do show business americano, até financeira. Chegar a ter o mesmo dinheiro que o Goldwyn (Metro-Goldwyn-Meyer) é importante. Assim como ao Tom também foi oferecido esse upgrade, por que eles limitam muito o mercado americano ao artista estrangeiro. Eu acho que o Tom furou essa barreira e a Carmen Miranda também.

OP – Hoje a família Caymmi é dona da obra do Dorival?
 

DANILO – Nós somos sócios de uma firma. Os herdeiros cederam os direitos a uma firma nossa também chamada Rosa Morena Edições Musicais, que representa parte do repertório do Dorival Caymmi. Então a gente tem o cuidado sempre com essas autorizações, que ficam com a gente. Não é a política de embargar a circulação de cultura. A gente sempre facilita. Algumas famílias impedem, ou têm uma ideia errônea de que disco vende uma fortuna. Isso é ruim para a cultura. Mas está até previsto uma coisa sobre os herdeiros na nova lei do direito autoral. Mas, no caso da nossa política, é uma política de circulação de ideias. O que puder facilitar, logicamente, para pessoas com boa fé e bons projetos.

OP – Seu pai foi um incentivador para que os filhos fossem músicos ou nem tanto?
 

DANILO – Papai até que sim, a mamãe não. A mamãe queria dançar uma valsa comigo e eu fiz Arquitetura. Sou quase formado. Quando eu comecei a estudar era 1967 e eram anos já politicamente conturbados. Mas, com o sucesso de Andança, em 1968, eu tive que largar. E também foi o ano do AI-5, que dividiu muito as pessoas. Eu tive muitos amigos que sofreram muitas perseguições. Então eu saí da faculdade. Foram anos muito difíceis, mas tem o lado bom que teve Andança – uma parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, também arquiteto – e o Casaco Marrom, no mesmo ano, com Renato Correia e o Guarabyra.

OP – Mas o Casaco Marrom não foi de festival?
 

DANILO – Foi sucesso com a Evinha, mas foi defendida no Festival de Juiz de Fora com a Cynara (Quarteto em Cy). E eu brinco muito que, no dia que o Roberto Carlos cantar essa canção eu estou rico. Por que ele detesta marrom (risos).
 

OP – É curioso o número de compositores que cursaram arquitetura, como o Fausto, o Fagner...
 

DANILO – Tom Jobim, Billy Blanco, Edmundo Souto, Paulinho Tapajós... Eu acho que a questão da forma... Eu acabei usando muito conceitos da arquitetura ou da casa mínima, por que eu gosto muito do minimalismo. Esse disco (Danilo Caymmi canta Tom Jobim), por exemplo, tem muito de minimalista. Eu acabei usando esse conceito da redução em músicas como Riacho Doce, O Bem e o Mal, O que é o amor... São canções com letras curtas e muito densas, com muito conteúdo.

OP – Muito se fala e falou sobre seu pai. Como você me apresentaria ou definiria sua mãe?
 

DANILO – Eu apresento através desse disco aí. A mamãe era uma grande cantora e toda essa parte de interpretação, dessa densidade, tanto da Nana, do Dori e da minha, vem da minha mãe. Eu gravei Por causa de você muito em função de ouvir ela cantar. Eu acredito que ela deve ter influenciado até meu pai também. Era uma cantora tão importante que ele viu e ficou fascinado. No tempo, a Carmen Miranda tinha um horário na Rádio Nacional, um horário nobre, e ela cedeu para uma jovem, que no caso era minha mãe, uns 15 minutos para ela cantar. Eles se conheceram com ela gravando num programa de calouros o Último desejo, de Noel Rosa. Ele ficou fascinado e começou a procurá-la. Depois casaram e ficaram esse tempão aí.

OP – E você disse que ela não incentivava muito os filhos músicos...
 

DANILO – Porque ela queria dançar a valsa comigo. Quando eu não me formei, foi uma decepção. É a inconstância que existe nessa profissão, de você se manter. Ou mesmo de uma pessoa que faz um sucesso estrondoso e, depois, não sabe conviver com a queda. O grande problema é, às vezes, convencer as pessoas que (ser músico) é uma profissão, é normal. Acho até que o glamour não deve ser incentivado, mas é muito usado também. Por isso é muito difícil pra uma pessoa que não tem o embasamento cultural, que tem um status, e de repente isso tudo cai, o dinheiro some e a pessoa tem um problema de saúde mental grave.

OP – O nome Caymmi é sinônimo de Bahia, mas você e seus irmãos são cariocas. Você teve ou tem alguma vivência mais próxima com a Bahia, além do pai?
 

DANILO – Não, tenho vida de carioca. Na Bahia a gente tem muito pouco contato, poucos parentes. Papai foi muito cedo para o Rio, né? Não é à toa que tem aquela estátua dele ali no posto 6 (em Ipanema). Viveu em Copacabana esse glamour todo nos anos 1950. Não só ele, mas amigos como Antonio Maria, Augusto Rodrigues, Fernando Lobo. Era muito normal isso da pessoa pegar o Ita (navio de cargas e passageiros). Papai foi para o Rio com o violão embrulhado num jornal, diga-se de passagem, em formato retangular. Por que violão dava cadeia. Acho que dá até hoje (risos).
 

OP – De filho do Dorival, a músico que já começa num disco consagrado, a compositor, como foi esse percurso? Foi algo natural?
 

DANILO – Logo de cara, foi um grande sucesso que foi Andança. Já é uma coisa que disse a que veio. Embora uma vez um jornalista tenha me perguntado: “que horas o seu pai fez essa música?”! Tem que responder essas perguntas... Mas foi natural porque o Andança concorreu (no Festival Internacional da Canção Popular, em 1968) com Sabiá (Tom Jobim/Chico Buarque) e Para Não Dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré). Eu, como estava na faculdade, era mais ou menos reduzido a vaiar minha própria música. Porque era pra apoiar a música do Vandré, entendeu? Por isso que o Tom levou aquela vaia enorme, embora o Sabiá seja uma música política. Andança não, era pueril perto disso. Não tem nenhuma conotação política. Os estudantes todos, os movimentos estudantis estavam para apoiar o Vandré. Pouca gente sabe, mas, quando saiu o AI-5, o Vandré estava se dirigindo para Brasília onde iria fazer um show. Ele estava com o Nelson Ângelo, Naná Vasconcelos e, se não me engano, o Geraldo Azevedo. Alguém ligou o rádio. Já estava entrando na boca do lobo, iam todos presos. Aí ele voltou dali mesmo.

OP – O primeiro disco que sai com seu nome na capa é um trabalho coletivo, dividido com dois mineiros, Beto Guedes e Toninho Horta, e um pernambucano, o Novelli. Qual a história desse disco?
 

DANILO – Ele reflete a união dos músicos dessa época. Tava todo mundo vindo do Nordeste, o pessoal do Clube da Esquina chegando. Esse disco foi gravado numa noite só. Era a oportunidade de se fazer um disco na Odeon. E é um disco que hoje vale uma fortuna no mercado. Tem uma participação da Nana (Caymmi). É um disco importante, tem aquela foto clássica no banheiro da Odeon. Acho que a foto é do Cafi (Carlos da Silva Assunção Filho).

OP
– Em 1977 sai, enfim, seu primeiro disco solo. Como você avalia esse trabalho que esse ano completa 40 anos?
 

DANILO – Isso é um pouco dessa ousadia que a gente tem em família. Pelo menos esse núcleo aí, eu, meu pai e Alice. O que acontece: as gravadoras, cheias de especificação, produção, cheias de não pode, produtor falando muito... Ih! Eu vou fazer o disco da minha cabeça, com as minhas músicas, minhas canções, e a Ana (Terra, compositora e ex-mulher de Danilo) produziu. A gente fez isso tudo baseado no Feito em Casa (um dos primeiros discos independentes do Brasil), do Antonio Adolfo, que passou a lista dos lojistas em todo o Brasil. E a gente saiu com aquele talonário de nota fiscal, um fusca, a Alice de bebê e vamos nessa. E vendemos discos pelo Brasil todo. E foi muito legal o disco, com todos os amigos participando em mutirão. Tem um presente nesse disco, que o Novelli me deu. Sou um grande admirador do baterista Airto Moreira, (catarinense) que é radicado nos Estados Unidos. Ele gravou no disco e eu só o conheci depois. Ele foi direto pra casinha da bateria. Eu estou tocando violão mineiro e o cara tocando tudo. Depois eu pensei: “meu Deus, quem é esse baterista?”. Aí eu vi que era o Airto. Fiquei emocionado. E era um movimento que depois chegou a um ponto que incomodou a indústria. Eles começaram a estrangular.

OP – E desse seu disco, a Elis chegou a gravar o Pé sem Cabeça, não é?


DANILO – Gravou o Pé sem Cabeça, mas a harmonia está errada pra caramba. Eu fiquei muito chateado porque... Não sei... O entendimento do César Camargo (Mariano, arranjador do disco da Elis) da harmonia não foi o ideal. Sabe, é uma coisa de compositor mesmo. Não é uma questão de você mexer na obra, mas você tem que manter um segmento. Tem dois ou três acordes fundamentais que desvirtuaram um pouco. A gravação poderia ser melhor.

OP – O que mais ainda tem pra falar desse primeiro disco? Você mudaria alguma coisa?


DANILO – Eu mudaria muita coisa. Esse novo (Danilo Caymmi Canta Tom Jobim) é que é o meu melhor disco, de toda a minha carreira. Eu fui muito chato com repertório, se tinha uma nota que estava me incomodando. Você vai ficando mais velho, vai ficando com ouvido de tuberculoso. (O disco) Não tem uma nota que me incomode. O Cheiro Verde tem. Tem muito acochambrado. Eu to cantando errado, por que canto no falsete. Quem botou minha voz no lugar foi o Tom. Ele que descobriu que eu tenho “a voz abafada ao alho”. Até hoje não descobri o que ele quis dizer com isso.

OP – Você já esteve presente em muitas trilhas de novelas e minisséries. Hoje não é mais assim...


DANILO – Não porque a coisa mudou muito o perfil. As pessoas achavam num determinado momento que o disco da novela iria prejudicar o próprio disco de carreira. E era uma bobagem. O que eu raciocinei foi o seguinte: são não sei quantos milhões de brasileiros vendo esse horário, a música só vai dar certo. E o Riacho Doce foi a segunda intervenção na TV. A primeira foi o Mariozinho (Rocha, diretor musical da Globo) que me chamou pra fazer a Tieta do Agreste, que acabou sendo uma letra do Boni e Luiz Caldas. A minha foi feita para a abertura da novela, mas acabou não entrando. Depois o Riacho Doce, que a Globo fez para concorrer com o Pantanal (Manchete).

OP – E qual é o espaço que tem hoje para tua música?


DANILO – Acho que é a estrada, né? Na estrada você está sempre tentando fazer alguma coisa. Vou falar um pouquinho dos jovens. Conheço muitos grupos que os caras vão com bateria de carro para a rua para ligar as guitarras, fazer festa. Tem o Noites do Norte, que é um grupo do Davi Mello, que é meu amigo. É a maneira que as pessoas encontram, porque você não tem casa de meio porte.

OP – No disco Dom Dom você é acompanhado por uma turma de jovens músicos. Mas você acompanha essa nova cena?


DANILO – Acompanho através da Alice. Se bem que o Domenico (Lancellotti, baterista e compositor) trabalhou comigo em início de carreira e o Bruno di Lulo eu considero um estilista do contrabaixo. Eles têm uma grande influência do Novelli, de músicos importantes da minha geração. Mas o Bruno... Eu gosto muito do instrumento e acho que ele tem um futuro brilhante de estilo. Porque, quando o músico encontra um estilo próprio, é muito bom. E eu fiquei muito satisfeito com esse disco. Eu trabalhei somente como flautista e cantor. Não dei opinião nenhuma. A única exigência que eu fiz foi a presença da cantora Ana Lomelino, que é do grupo Tono, que também é uma artista que eu respeito muito, como respeito a minha filha e também essa tendência de multiartista. Como é a Letícia Novaes, lá no Rio de Janeiro. Com toda a opressão que a mulher sofre ainda hoje, são cantoras e são artistas que furam determinadas barreiras importantes. São cantoras militantes, que lutam por causas e têm um efeito transformador muito grande e acho que é isso que minha filha quer.

OP – Ampliando o olhar, como você vê o mercado de música hoje no Brasil?


DANILO – Acho que a qualidade caiu muito. Você tem compositores trabalhando em cima de formas, de acordes que pegam dos Estados Unidos e que está sucesso. Aí tem quase uma indústria fazendo essa música pra colocar no mercado. O fato do descartável estar cada vez mais. A gente tem um problema social também do artista, que já é uma carreira difícil, e você é um autônomo, as pessoas são galgadas ao sucesso muito cedo e a queda afeta a saúde mental. O sucesso é o momento mais frágil que um artista pode ter.

OP – Que prejuízos e ganhos você sente nas novas formas de consumir música, sem o suporte físico?


DANILO – O disco físico morreu, disso não tenho a menor dúvida. A televisão, como a gente conhece, está em rota de colisão com o cometa. O que a gente está passando, principalmente na questão do direito autoral é um grande transformador. Porque há uma tendência também, de alguns grupos que querem desvalorizar o criador, o ponto principal que é a criação. Você só fica com o periférico. Então a gente tem brigas constantes, eu estou falando pela militância em favor dos direitos autorais. Tem a questão dos hotéis que não querem pagar direitos autorais. É uma briga constante. São 40 e tantos projetos, sempre contra o autor, sempre contra a criação. Como se atrás da música não existisse uma família. O Tom falava muito, quando chegavam “ó, o cachê é simbólico”, (ele dizia) “mas a conta de luz, conta de gás não é simbólica, não tem nada simbólico”. Houve uma desunião muito grande nos ministérios da Cultura passados, talvez uma tendência do governo estatizante e que prejudicou e dividiu muito a classe. Agora, a gente está brigando no fator comum. A grande questão é que, quem tem que pagar direito autoral é quem está entre o compositor e o consumidor. É isso, simples assim. Agora, é uma briga que acontece na Espanha, já tentaram mudar as leis da unidade europeia. É uma briga grande. Não é exclusiva do Brasil. Meu pai também trabalhou muito com direito autoral, eu peguei muito isso dele.

OP – No dia 25 de janeiro, Tom Jobim completaria seus 90 anos. Que presente você gostaria de dar a ele nesse dia? Não vale seu disco novo...


DANILO – Ah não pode? Eu já ia dizer... Acho que uma coisa que ele gostaria de receber é um quadro do meu pai. Ele admirava muito, papai era pintor. Talvez o autorretrato do papai, acho que ele iria gostar muito.

 

Perfil 

 

Danilo Candido Tostes Caymmi é carioca nascido em 7 de março de 1948. Filho do compositor Dorival Caymmi com Adelaide Tostes Caymmi - a cantora Stella Maris-, irmão de Dori e Nana Caymmi, ele estreou como músico no disco Caymmi Visita Tom (1964), atuando como flautista. Seu primeiro trabalho autoral veio no álbum coletivo dividido com Beto Guedes, Novelli e Toninho Horta. Antes do primeiro disco solo, Cheiro Verde (1977), ele já havia emplacado Andança e Casaco Marrom, sucessos, respectivamente, nas vozes de Beth Carvalho e Evinha. Em mais de 50 anos de carreira, Danilo Caymmi já participou de inúmeras gravações; foi diretor, vocalista e flautista da banda de Tom Jobim; escreveu trilha para minisséries como Riacho Doce e Teresa Batista; lançou mais de 10 discos solo e vários ao lado da família. Pai da cantora e compositora Alice Caymmi, Danilo é ainda vice-presidente da Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus).  

 

PERGUNTA DO LEITOR

 

Richell Martins, jornalista
 

RICHELL MARTINS – No Danilo Canta Tom, você tem Por Causa de Você e Derradeira Primavera, são duas músicas que acabaram ficando muito fortes em interpretações femininas. Qual foi a chave pra colocar essas faixas ali?
 

DANILO – Olha, isso vem da cultura familiar. Porque um dos discos de cabeceira da minha família é um dos melhores discos da Lenita Bruno e Leo Peracchi, eles cantando essas obras do Tom Jobim. Mais do que Elizeth Cardoso, que a gente ouvia. A Nana tem ideia de gravar esse disco, com arranjos do Dori e com essas canções. Isso vem do inconsciente familiar. São canções que circulavam lá em casa na interpretação da minha mãe. Essa “Ah você está vendo só, do jeito que eu fiquei e que tudo ficou...” (cantarolando Por Causa de Você), essa letra me pegou criança.. 

 

Confira íntegra da entrevista em 

bit.ly/danilocaymmi
Confira vídeo da entrevista em
www.opovo.com.br/videos

Adriano Nogueira

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