PUBLICIDADE
Jornal

Verger, o avô e a criança

26/01/2019 14:42:30

No último domingo, 20, visitei no Museu da Fotografia a mostra Orixás, do francês Pierre Verger. As 65 imagens exibidas ajudam a decifrar o fascínio que as divindades africanas geraram no etnólogo, que mais tarde, em 1953, renasceria no coração da África ancestral com o nome de Fatumbi, "nascido de novo graças ao Ifá". A exposição vem na esteira das celebrações do aniversário de três décadas da Fundação Pierre Verger, criada em 1988 na Ladeira da Vila América, em Salvador, na casa onde viveu o fotógrafo.

A curadoria, pensada a partir do livro "Orixás, Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo" - reeditado agora também na ocasião do aniversário da Fundação -, destaca os rituais envolvidos no culto de divindades de origem Nagô-Ketu. São imagens que acompanham as andanças de Verger por países da África, a terra-mãe de uma cultura que se mostra, em doses iguais, divina e carnal, sensual e violenta, acolhedora e feroz. Também suas viagens por lugares do Brasil que abraçaram a tradição do candomblé, inspirados pelo que chegava do além-mar.

Enquanto observava as imagens, me chamou atenção o diálogo entre um avô e sua netinha. Ela observava, deslumbrada, as fotografias de Verger, e o avô lia o nome de cada um dos Orixás e resumia suas características. Este aqui é determinado, inteligente. Este é sensual, independente, corajoso. A criança ouvia, encantada, indo de uma fotografia a outra, voltando atrás, tecendo comparações, elogiando as pinturas nos corpos, os detalhes nas vestes. Parecia genuinamente interessada, e a aula do avô, ao invés de acentuar diferenças, buscava pontos de contato entre aquela cultura e a sua própria.

Os dois eram brancos, a criança de cabelos louros. Quando se encontraram diante da fotografia de uma negra com os seios à mostra, imagem da década de 1950, o avô: "E olha ela, que linda. Onde ela vive, é normal mostrar os seios. E isso já faz muito tempo. Mas aqui, ainda hoje, não pode, ninguém faz isso". A neta balançou a cabeça, concordou que a mulher negra realmente era linda e deu alguns passos até a imagem seguinte. n

Jáder Santana

TAGS