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Previdência e caça às bruxas

12/07/2019 02:21:46
Henrique Araújo
Jornalista do O POVO
henriquearaujo@opovo.com.br
Henrique Araújo Jornalista do O POVO henriquearaujo@opovo.com.br (Foto: O POVO)

Há questões a considerar sobre o resultado da aprovação da reforma da Previdência. Uma delas é o simbolismo do placar. Elástico, coloca um desafio para a oposição, que reagiu mal num primeiro momento, sobretudo nos partidos cujos dissidentes votaram a favor da proposta.

É o caso do PDT, embora no PSB tenha havido movimento semelhante, com 11 socialistas entre os que apoiaram a medida. Na bancada pedetista na Câmara, quase 1/3 foi favorável à PEC que reestrutura as aposentadorias. Até no nome vinculada ao trabalhismo, a sigla havia fechado questão contra a proposta dois meses antes.

Oito dos seus 27 deputados, porém, preferiram engrossar os 379 votos que garantiram o sucesso da medida a respeitar o estatuto da agremiação, que prevê até expulsão para quem descumprir decisão deliberada por seu colegiado máximo. Entre os rebeldes está Tabata Amaral (SP), que passou de estrela e pré-candidata a prefeita de São Paulo a proscrita com o pescoço a prêmio.

Novata no partido, Tabata não apenas votou a favor da proposta do governo Bolsonaro, mas também justificou sua posição nas redes sociais na véspera da sessão. Disse que não vendia seu apoio e votava por convicção. Era um recado direto a Ciro Gomes, colega de partido que pedira sua cabeça, assim como Carlos Lupi, presidente do PDT que começou falando de expulsão, mas depois abrandou o discurso.

A vitória esmagadora do bloco pró-reforma equivale a um 7 a 1 para os que foram contrários à PEC. Parte da oposição, todavia, achou por bem perseguir quem divergiu da orientação de bancada, alegando para tanto uma legal mas nem sempre respeitada disciplina partidária.

Trata-se de um duplo erro: primeiro, não reconhecer que o resultado é péssimo e obriga partidos de esquerda a pensar sobre as consequências eleitorais da goleada sofrida no plenário e o avanço de uma agenda ultraliberal no País. Segundo: essa caça às bruxas, além de péssima para as legendas, é infrutífera.

Mais da metade dos parlamentares do Nordeste, região onde predominam adversários de Bolsonaro, apoiou a mudança no sistema de aposentadorias. O problema não é localizado, tampouco restrito à atuação de um ou outro deputado rebelde a quem se puna exemplarmente, de modo a não dar mau exemplo. Isso não é cultura democrática. É coronelismo.

Há uma mudança em processo na agenda política do Brasil que começou a ganhar corpo mais visível no ano passado. Não enxergar isso é apostar mais uma vez na derrota. n

Henrique Araújo

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