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Voltamos a debater o óbvio

10/07/2019 02:08:07
Ítalo Coriolano
coriolano@opovo.com.br
Jornalista do O POVO
Ítalo Coriolano coriolano@opovo.com.br Jornalista do O POVO (Foto: O POVO)

A eleição de Jair Bolsonaro marca a tentativa não só de um revisionismo histórico, mas também de desconstrução de conceitos já consolidados - ou que pelo menos pareciam estar - dentro do debate público. Um deles é de que criança não deve trabalhar. Entretanto, foi só o chefe do Executivo emitir opinião contrária para sermos obrigados a apresentar argumentos explicando os possíveis danos que determinadas atividades podem provocar no desenvolvimento de um ser com tenra idade.

"Olha só, trabalhando com 9, 10 anos de idade na fazenda eu não fui prejudicado em nada. Quando um moleque de nove, dez anos vai trabalhar em algum lugar, tá cheio de gente aí 'trabalho escravo, não sei o quê, trabalho infantil'. Agora, quando tá fumando um paralelepípedo de crack, ninguém fala nada", disse o presidente. Como se não existissem outras alternativas: ou trabalha ou usa drogas.

Pelo que defende Bolsonaro, caberia até questionar se ele não foi mesmo "prejudicado" por ter trabalhado na infância. Mas deixemos isso de lado para observar a estratégia do grupo que está no poder. Dizem um absurdo qualquer e nos fazem dedicar horas de nossas vidas para discutir o óbvio.

Foi assim quando a ministra Damares Alves afirmou que "menino veste azul e menina veste rosa", quando o próprio presidente cancelou a instalação de radares nas rodovias federais, aumentou limite de pontos na CNH, facilitou o acesso a armas e, mais recentemente, disse que o "Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer".

O mais chocante é constatar que esse tipo de pensamento encontra eco na sociedade, tornando, assim, necessário o embate. É assustador, em pleno século XXI, precisarmos rebater pontos de vista tão retrógrados. Mas eles estão aí. Ignorar seria perigoso, visto o risco de esse movimento atrair ainda mais pessoas e o País afundar de vez no obscurantismo.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser lamentável que outros temas relevantes para o futuro do País acabem sendo colocados em segundo plano. Uma reforma da Previdência prestes a ser aprovada, a miséria do País se aprofundando, nossa educação sem rumo, e tanta energia dedicada a polêmicas que pareciam superadas. Estamos anestesiados. Tempos difíceis. n

 

Ítalo Coriolano