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Tia Simoa e a luta por liberdade

14/06/2019 01:31:12
Karla Jaqueline Vieira Alves
Historiadora
Karla Jaqueline Vieira Alves Historiadora (Foto: Acervo pessoal)

A Preta Tia Simoa, como é rapidamente mencionada em alguns registros históricos, foi uma negra liberta que ao lado de seu marido - o jangadeiro José Luís Napoleão - figurou como protagonista nos acontecimentos de 27, 30 e 31 de janeiro de 1881 em Fortaleza, episódio que ficou conhecido como a "Greve dos Jangadeiros", onde se decretou o fim do embarque de escravizados naquele porto, definindo os rumos para a abolição da escravidão que se efetivaria três anos mais tarde no Ceará.

Consta na historiografia que durante tais acontecimentos a polícia interviu com o intuito de prender os "desordeiros" e acabar com a greve. Neste momento, surge na praia uma multidão liderada por Simoa em apoio aos jangadeiros. No entanto, apesar de sua importante participação para a mobilização popular que impulsionou os acontecimentos aqui citados, esta mulher negra teve o seu protagonismo omitido da historiografia do Ceará onde, ainda hoje, persiste a falsa premissa da ausência de negros e negras.

Tia Simoa é referenciada em um texto memorialista como "Preta Velha", indicando se tratar de uma liderança de religiosidade de matriz africana que por meio de seu carisma e domínio sobre os códigos de convivência relativos à sua prática religiosa, mobilizou a população local em apoio à greve, expandindo, assim, a sua liberdade para além de si mesma. Ao que se sabe, ela acabou seus dias recebendo os carinhos da família de Henrique José de Oliveira (pai do Dr. Cesar Cals), o que demonstra se tratar de uma mulher que gozava de certa autonomia e prestígio, inclusive entre a elite cearense, já que terminou seus dias recebendo os carinhos de uma importante família de sua época.

Contudo, sua existência se concretiza na identificação com seu povo, mostrando que sua história é, portanto, a vida de uma guerreira negra cuja luta se consolidou por meio de sua sabedoria ancestral manifestada através da espiritualidade, revelando uma compreensão humanística e espiritual transcendental da negritude e da luta negra que remonta à herança africana no estado do Ceará. 

 

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Karla Jaqueline Vieira Alves