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O legado de Moro

01:30 | 14/06/2019
Henrique Araújo
Jornalista do O POVO
henriquearaujo@opovo.com.br
Henrique Araújo Jornalista do O POVO henriquearaujo@opovo.com.br

O presidente Jair Bolsonaro disse ontem que o legado do ministro Sergio Moro não tem preço. A serem verdadeiras as revelações trazidas por "The Intercept" ao longo da semana, o chefe do Executivo está errado. Esse legado teve um preço, sim. Um preço político e outro jurídico. E, finalmente, um custo social também, que não julgo pequeno. Falo sobre os três em seguida.

Ao preço político: ex-magistrado, Moro é um dos dois pilares que sustentam a gestão Bolsonaro. O outro é Paulo Guedes, que anda estremecido depois das sucessivas revisões do crescimento do PIB. O ex-magistrado deixou para trás carreira lastreada profissional e academicamente (há quem faça reserva a sua passagem pela universidade, mas isso é outro assunto). No afã de chegar ao Olimpo do Judiciário, obtendo uma vaga no Supremo, passou a engolir sapos no Planalto.

O maior deles talvez tenha sido o decreto de armas de Bolsonaro, mas há também as traquinagens de um dos filhos do presidente, investigadas pelo Ministério Público no Rio de Janeiro. E, não se pode esquecer, o "laranjal" supostamente cultivado por um de seus colegas de Esplanada. De símbolo de combate à corrupção, portanto, Moro agora era vizinho de potenciais trambiqueiros e subordinado a um gestor cuja prole metia-se em escaramuças.

Foi nesse ponto que a revelação das conversas com Deltan Dallagnol o encontrou, já em condições diferentes daquelas de quando assumiu como superministro. Desgastado com o Congresso, neste momento desafiava-o a aprovação do único item de sua agenda: o pacote anticrime. Então vieram as denúncias do Intercept, que têm força para fragilizá-lo politicamente. Faça-se o exercício: num cenário otimista no qual não se comprove nada do que se mostrou até aqui, mas a mera dúvida permaneça, ele sai arranhado no que tem de mais sagrado, o capital ético.

O cenário pessimista é óbvio: Moro cai da cadeira, e não lhe sobram nem a proeminência como ponta de lança da Lava Jato, tampouco o cargo no governo do vencedor das eleições de 2018, as mesmas que ele talvez tenha ajudado a definir, ainda que indiretamente.

Mas o preço maior do legado de Moro, se confirmadas as suspeitas levantadas nas reportagens, é jurídico. Aí, o estrago é imenso, não apenas para a força-tarefa, mas para a caça aos bandidos de colarinho branco. Por uma razão simples: se forem autênticas, as trocas de mensagens indicam que Moro fez uso exatamente daquilo contra o qual a Lava Jato havia se voltado, ou seja, a crença segundo a qual os fins justificam os meios e, a depender da nobreza do objetivo, vale qualquer instrumento. Como se vê agora, isso é balela.

É verdade que a Lava Jato expôs os interstícios da corrupção no Brasil, que se assenta num esquema atávico historicamente esquadrinhado por inúmeros estudos. É também sabido que a operação colocou na prisão o baronato da política e de parte do empresariado nacional. Mérito de seus agentes, entre juízes, procuradores e policiais federais.

E esse é o golpe mais forte: o social. Concorde-se ou não com ela, e admitindo-se que havia excessos, a Lava Jato cumpriu função importante no País, rompendo com uma cultura de promiscuidade entre público e privado. E o que sugerem as amabilidades interceptadas entre Moro e Dallagnol? Que esses limites podem ter sido desrespeitados por quem devia tê-los protegido e a quem competia zelar por eles. Sob qualquer ângulo, isso é péssimo. n

 

Henrique Araújo

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