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Encruzilhadasteóricas

13/06/2019 01:30:55
Rui Martinho Rodrigues 
rui.martinho@terra.com.brHistoriador
Historiador
Rui Martinho Rodrigues rui.martinho@terra.com.brHistoriador Historiador (Foto: Geórgia Santiago, em 01/06/2010)

O pensamento segue trilhas definidas por escolhas nem sempre conscientes. O conhecimento prévio foi considerado por Gaston Bachelard (1884 - 1962) um obstáculo epistemológico. Thomas Kuhn (1922 - 1996) foi mais longe, falou sobre uma vacina contra a realidade promovida pela cegueira dos paradigmas, que acomete mais os eruditos. Os cientistas nunca aceitaram uma inovação radical da ciência.

Falsa consciência, oposta a consciência verdadeira; esclarecidos; analfabeto político expressam ortodoxias. Tais declarações são feitas, com frequência, por quem segue o perspectivismo ou relativismo cognitivo e axiológico ou o niilismo. Subjacente a elas está uma hierarquia de consciências. Política é escolha valorativa, não juízo de fato. Estes pertencem ao mundo da técnica. O campo valorativo não é dos técnicos, mas dos intelectuais que erram quase sempre. As epistemologias da certeza no campo humanístico são totalitárias.

Platão (428/7 a.C. - 348/7 a.C.), na Alegoria da Caverna, apresentou a ideia de consciência falsa e verdadeira, que servia ao propósito de defender o governo dos filósofos na "República". Mais tarde arrependeu-se, na obra As leis.

Nem sempre sabemos o que escolhemos. A quem pertence o homem? Caso pertença a ele mesmo a liberdade e a precedência do indivíduo sobre o coletivo são consequências lógicas. Liberdade como prerrogativa de escolhas disponíveis, arrostando consequências não exige o silêncio da crítica ou patrocínio. A liberdade de agir e fazer não é liberdade de ser. Esta se radica para além das disponibilidades.

A precedência do homem sobre o coletivo vem da lógica segundo a qual nos associamos para defender os interesses de cada um dos associados. Um caçador se associa para obter alimento para si, não para o grupo. A partilha entre os caçadores atende aos interesses de cada um. A precedência é dos sujeitos que se associam, não da coletividade criada para servi-los. Quem pensa assim defende a liberdade e repele ilusões altruísticas. Assim como não há igualdade quando impera a hierarquia de consciências, nem a precedência do coletivo. É preciso, ainda, distinguir as diferenças das muitas formas de desigualdade. Diferença não é hierarquia.

Acrescente-se: objetivo da política não é criar um novo homem. Engenharia exige ciência exata. 

 

Rui Martinho Rodrigues