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VERSÃO IMPRESSA

Os ensinamentos políticos de Chernobyl

07/06/2019 01:32:29
Henrique Araújo
Jornalista do O POVO
henriquearaujo@opovo.com.br
Henrique Araújo Jornalista do O POVO henriquearaujo@opovo.com.br (Foto: O POVO)

Criada por Craig Mazin, a série Chernobyl, da HBO, reconstrói os acontecimentos daqueles 25 e 26 de abril de 1986, quando o reator nuclear da usina 4 na cidade de Pripyat explodiu, provocando o maior acidente nuclear da história. À tragédia radioativa, porém, seguiu-se outra, de natureza política: as sucessivas tentativas de abafar e, quando não era mais possível, minimizar os efeitos da contaminação, manipulando a população da então República Socialista Soviética da Ucrânia a acreditar que se tratava de um acontecimento sem importância, e não uma catástrofe sem proporções no mundo.

A série é exemplar na maneira como expõe as dificuldades e estratagemas da burocracia do Partido Comunista para deter não somente o vazamento de matéria tóxica, que logo se espalharia por solo, água e ar, mas também o de informações que poderiam comprometer a credibilidade do programa de energia nuclear da potência socialista. Naquele momento, a possibilidade de que o acidente se tornasse público era mais temida do que a morte de centenas de pessoas, como de fato viria a acontecer.

Uma a uma, as autoridades científicas são desautorizadas por figuras de proa do "politburo", que se negam a aceitar a realidade: a usina explodira, e a onda que se originara dela ameaçava agora expandir-se por toda a Europa. Entre a explicação racional e a tese de conspiração estrangeira, os burocratas do governo ficaram com a segunda opção. Montou-se forte esquema de contenção de informações. Arranjaram-se culpados pelas falhas. E tudo passou a ser monitorado obsessivamente pelo Kremlin. Como a história mostraria, nada disso funcionou.

Que relação essa história tem com o Brasil de hoje? Muitas. Primeiro, o desapreço ao discurso científico manifestado pelo governo pressagia tragédias - Brumadinho e o incêndio do Museu Nacional, ainda frescos na lembrança, certamente não serão casos isolados se continuarmos nesse ritmo. Segundo: a "licença para matar", seja o meio ambiente ao desregular as leis, seja as pessoas em políticas que afrouxam as regras de trânsito, é ingrediente potencialmente danoso.

Terceiro e talvez principal ponto: Chernobyl revela com acuidade um processo de empoderamento da burrice, que se encastela nos postos de comando da máquina administrativa e de lá passa a arbitrar os conflitos da sociedade. Recordo uma máxima de H. L. Mencken, jornalista norte-americano morto em 1956: "Para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada".

É trabalho gratuito e sem recompensa procurar elegância no governo Bolsonaro, mas não seria muito difícil encontrar na gestão do ex-militar um número farto de respostas simplistas e totalmente equivocadas para desafios que o Brasil enfrenta. Assim como os dirigentes comunistas não sabiam o que fazer diante da explosão de Chernobyl, e por isso tentaram escondê-la, o presidente não parece ter ideia de como agir como chefe do Executivo, e por isso se distrai com pequenezas do dia a dia. 

 

Henrique Araújo