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À espera de governantes afáveis

07/06/2019 01:32:13
Maria Juraci Maia Cavalcante
Doutora em Sociologia e professora da Faced/UFC
Maria Juraci Maia Cavalcante Doutora em Sociologia e professora da Faced/UFC (Foto: Acervo pessoal)

Quando o poder sobe à cabeça, há quem alimente a fantasia de que estará para sempre naquele lugar. Há quem goste tanto da embriaguez do comando, que tudo faz para continuar nisso, nem que precise da ajuda de um procurador. É como se aquela coisa entrasse na corrente sanguínea, bombeasse o coração em ritmo alucinado e criasse uma dependência química e emocional qualquer.

Trata-se, porém, de uma atividade de risco, porque se a arrogância é o fio de ouro que tece a roupa invisível dos loucos por cargos políticos, a doença, não raro, os alcança e joga sem aviso prévio, sob sete palmos de chão. Em muitos casos, temos visto que, quando não ataca o coração, o exercício do poder carcome impiedoso outros órgãos, tecidos, músculos e vísceras vitais.

Pessoas que passam ao largo disso, depois que tudo acaba, se transformam por vezes na sombra de si mesmas. Elas ficam a carregar dali em diante o fardo do que foram no passado, com ares de rainhas e/ou reis destronados. Tornam-se por vezes tão amargas, que fica difícil suportar aquele olhar oblíquo, amarelo e desconfiado que lhes emoldura a triste figura, depois que perdem a pose e chance de vociferar impropérios, certezas e absolutos. Vai ver, foi por isso que se entregaram tão inteira e obstinadamente ao usufruto dele, porque no fundo sabemos bem que o poder é transitório.

Por tudo isso, algumas colheres por dia de cautela, postura generosa de escuta e uma pitadinha de corriqueira humildade não fariam mal a quem o deseja com paixão cega, especialmente, em véspera de eleição. Afinal, se deter o poder político não dá mais divindade a ninguém, parece que continua válida uma das advertências de Thomas Hobbes, na sua famosa Leviatã: "a afabilidade dos homens (e mulheres) que estão no poder aumenta o poder, porque origina carinho.".

Quem sabe, eleitores maltratados ou enganados estejam à espera de candidatos afáveis, capazes de entender que bons governantes, longe de encenações narcísicas, são aqueles que sabem ouvir, respeitar e atender com pragmatismo às demandas efetivas dos seus eleitores. 

 

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Maria Juraci Maia Cavalcante