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Para além da balbúrdia e do caos

25/05/2019 02:57:19
Maísa Vasconcelos
Jornalista do O POVO
Maísa Vasconcelos Jornalista do O POVO (Foto: Aurélio Alves)

Tenho ouvido e lido com mais frequência manifestações de amigos e até desconhecidos que dizem sentir falta. Sentem falta de quando iam às redes sociais para desabafar sobre amenidades, dizer algumas tolices risíveis, rir sem ser de nervoso. É um sentimento mesmo de saudade de um tempo em que era possível discutir sem ter que evidenciar essa ou aquela posição ideológica, sem que lhes viesse a sensação de estarem em um ringue. Queixam-se da exorbitância da política em suas vidas, do quanto ações ou omissões de governos influenciam suas existências que bem poderiam ser mais serenas.

Nos anos recentes, porém, tudo que vem do Planalto tem reverberado de modo mais acentuado. Brasília nunca esteve tão perto e dentro de nossas vidas. Cada dia vem como um turbilhão que nos desloca de realidades múltiplas para um centro de conflitos permanentes. Mesmo para quem, por força da profissão, precisa ficar antenado com o que se passa nos corredores do poder, os dias têm sido extenuantes. Eu mesma gostaria de poder voltar atenção para, talvez, as obras inacabadas da Lagoa da Parangaba ou da Cidade 2000. Em vão.

Afinal, como desprezar o Brasil "ingovernável" presente na mensagem compartilhada pelo Presidente no WhatsApp e que inflou a convocação de manifestação "espontânea" pró-governo neste domingo, 26? É possível fazer de conta que não existiu a semana de tensão entre o governo de Jair Bolsonaro e o Congresso? Dá para não se posicionar diante dos malabarismos em curso para facilitar o porte de armas de fogo? Não sei a sua, mas minha resposta é: não.

E, contrariando a afirmação de que o Brasil "é um país maravilhoso que tem tudo para dar certo, mas o grande problema é a nossa classe política", defendo que o problema está, precisamente, em não reconhecer a importância da política. Chegamos ao nível de desarmonia atual porque nos falta capacidade para moderar nossas divergências em favor do que pode nos elevar. A "classe política" é reflexo da nossa falta de interesse nessa mediação e nos resultados dela. Mas também na falta de ciência de que política não se faz somente nas casas legislativas e por governantes. 

Maísa Vasconcelos