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Os desafios de Bolsonaro no Nordeste

24/05/2019 01:32:24
Henrique Araújo
Jornalista do O POVO
henriquearaujo@opovo.com.br
Henrique Araújo Jornalista do O POVO henriquearaujo@opovo.com.br (Foto: O POVO)

Cinco meses depois de assumir o mandato presidencial, Jair Bolsonaro (PSL) visita o Nordeste pela primeira vez. Antes disso, fez pelo menos cinco viagens internacionais (duas aos EUA, uma a Israel, uma ao Chile e outra à Suíça) e 13 locais, quase todas a estados cujos governantes são aliados e onde o pesselista obteve número expressivo de votos em 2018.

A chegada a Pernambuco hoje marca, portanto, a presença do presidente em um território politicamente hostil - então candidato, ele foi derrotado em todos os nove estados nordestinos. Aqui, encontra não apenas eleitores arredios e eventuais protestos, mas um consórcio de chefes de Executivo já firmado e atuante, manifestando-se frequentemente, como fez quando exigiu a revogação do decreto que flexibilizou o porte de armas.

A essa circunstância adversa se soma outra, imprevista em janeiro passado: a rápida deterioração da imagem do presidente, provocada por uma combinação explosiva de depressão econômica e trapalhadas na Câmara e Senado, tudo potencializado por manifestações previstas para domingo próximo.

De modo que Bolsonaro aterrissa num momento delicado. Acossado pela investigação do filho, baixa popularidade e desgaste com professores e estudantes depois dos contingenciamentos orçamentários, precisa convencer os governadores e parlamentares de que, sem a reforma da Previdência, principal item de sua agenda, o País não voltará a crescer.

O que tem a oferecer em troca, contudo? O Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), cuja validade expira no ano que vem e para o qual o gestor não parece dar importância, está sob risco. As obras da transposição do rio São Francisco também vão mal. O futuro do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) ainda é incerto. Não bastasse isso, há esse lapso temporal: cinco meses de ausência é muito tempo.

A missão presidencial não é fácil, como se vê, sobretudo se se considera que o próprio presidente se esmera em atirar contra o Legislativo, dificultando um diálogo já atravessado. Mas é sempre possível que Bolsonaro surpreenda, e, uma vez em solo pernambucano, tente compensar a omissão com um pacote que contemple segurança e economia, anunciando aportes destinados a fundos e garantindo a permanência do BNB. A ver.

A realidade, entretanto, faz duvidar dessa hipótese otimista, seja porque o chefe da nação demonstrou ressentimento em relação ao Nordeste, seja porque o Governo Federal não tem sido generoso com recursos, seja porque o presidente tem feito a escolha de se cercar quase sempre de aliados e ignorar opiniões divergentes.

Desde o início do ano, Bolsonaro limitou sua interlocução a um núcleo reduzido. A uma entrevistadora no SBT, poucas semanas depois de assumir a faixa, chegou a dizer que esperava que os governadores nordestinos não lhe pedissem dinheiro, já que ele não era o seu presidente, mas Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba. Falava a sério?

De lá para cá, o capitão reformado empenhou-se em amplificar essa animosidade. Até agora, cumprido quase um semestre de governo, não fez um aceno concreto à região - a exceção talvez tenha sido o envio de tropas federais para ajudar Camilo Santana (PT) a debelar uma crise aguda no sistema carcerário. Fora isso, é como se o Planalto desconhecesse as demandas dos estados. A visita talvez lhe sirva ao menos para isso: deixar para trás o que se passou em 2018 e olhar sem ranço ideológico para o Nordeste. 

 

Henrique Araújo