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Príncipe Ribamar da Beira Fresca - o mito

22/05/2019 01:40:07
Rosemberg Cariry 
Cineasta e escritor
Rosemberg Cariry Cineasta e escritor (Foto: Evilázio Bezerra)

Andava sempre pelas ruas do Juazeiro de terno surrado, com um guarda-chuva, mesmo no mais severo verão. Deixava a roupa de gala, com botões doirados e galões, para os grandes eventos cívicos.

Jamais largava a sua pasta, onde guardava os seus projetos mais urgentes, sempre em benefício do bem comum. Nas grandes secas, imaginou navios trazendo mantimentos, vindos pelo leito alargado do rio Jaguaribe. Sonhou com escolas reais para as crianças pobres e com abrigos para todos os velhos do Reino, que, além de gordas pensões, teriam a distribuição farta de pão e de cajuína. Sonhou com moinhos de ventos e combateu dragões imaginários.

Certa vez, li um artigo de José Wilker onde ele contava um fato curioso. Alguém certo dia apresentou ao príncipe Ribamar uma foto da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, e disse tratar-se de uma princesa italiana, à procura de um príncipe para se casar; que ela por ele se apaixonara e queria visitá-lo em Juazeiro. O príncipe Ribamar, por muitos anos, andou com aquele retrato em sua pasta, mas estranhou a demora de tempo, sem que a amada aparecesse. Alguém lhe disse que ela não vinha porque em Juazeiro não tinha aeroporto. Príncipe Ribamar juntou dezenas de homens que, compadecidos com o seu sofrimento amoroso, capinaram um terreno largo, para fazer um campo de aviação, exatamente onde hoje se encontra o aeroporto regional. José Wilker fechava seu relato pedindo que o aeroporto se chamasse "Príncipe Ribamar da Beira Fresca", numa justa reivindicação.

Pois bem, houve um tempo em que o Brasil tinha um mínimo de saúde mental e o príncipe Ribamar da Beira Fresca reinava generoso e justo. Ele não chegou a ser conduzido de modo formal ao Palácio do Planalto pelos votos diretos de seus súditos. Convenhamos, esta seria uma atitude bem mais sábia do que eleger loucos odientos e narcísicos, marcados pelo signo da morte, que só falam em armas e em destruição, acabando com poesias, filosofias, universidades, pesquisas, culturas, animais, florestas, povos originários e tudo mais o que possa lhes parecer vida e liberdade. Para os loucos necrófilos, afinal, só é belo o que em ruína se transforma. 

 

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Rosemberg Cariry