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Weintraub, leia Machado

04/05/2019 01:37:57
(Foto: )

Machado de Assis era negro. Não é mimimi, não é frescura e nem bobagem. Um dos mais importantes escritores de nossa língua era negro. Estão equivocadas as capas e orelhas de livros que o retratam com uma brancura pálida, os traços do rosto distorcidos. A campanha da Faculdade Zumbi dos Palmares pela substituição física e simbólica da imagem equivocada do autor é importante. Mais que importante, é fundamental.

Primeiro porque confronta a estupidez e o anti-intelectualismo tacanho de nosso Governo Federal e seu Ministério da Educação, engajados em campanha grosseira contra um ensino superior livre e inventivo. A tentativa histórica de embranquecimento de Machado, levada a cabo por uma classe de poderosos que tentavam reformular as narrativas fundadoras da Nação - um país de brancos diligentes sem a influência de escravos negros e índios preguiçosos -, se assemelha à tentativa de silenciamento da liberdade de pensamento das universidades.

Segundo, e ainda mais importante, porque revisa o perfil de imortais, o panteão da literatura em língua portuguesa. Carentes de referências negras - não por sua ausência, mas pela asfixia de sua representação histórica e midiática -, imagine a diferença que faria para crianças negras e pobres encontrar em seus livros didáticos páginas inteiras dedicadas ao maior nome de nossas letras: igualmente negro e pobre, filho de um pintor e uma lavadeira. O Machado branco servia a interesses há muito obsoletos - e que infelizmente estão voltando a dar as caras.

Não acredito que o farão, mas Bolsonaro, Weintraub, Olavo e seus seguidores deveriam ler mais Machado. Moro deveria colocar Brás Cubas em sua cabeceira, ao lado das inúmeras biografias que ele garantiu que leu, mas é incapaz de nomear. Também deveriam ler os quilombolismos de Abdias do Nascimento, a favela de Carolina de Jesus, as lágrimas insubmissas de Conceição Evaristo e o pioneirismo esquecido de Maria Firmina dos Reis. Aparentemente, não se pode esperar tanto de nosso presidente. Fiquemos com nossa balbúrdia. 

 

Jáder Santana