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Jornal

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Perdoa, meu Deus

25/04/2019 01:48:19

Esta semana o Museu Americano de História Natural de Nova York se recusou a sediar um evento promovido pela Câmara Brasil-Estados Unidos, no qual o presidente Jair Bolsonaro receberia o título de Personalidade do Ano, dia 14 de maio próximo, principalmente pelo incentivo em dar outra dinâmica às relações comerciais entre os dois países. Impossível, no estágio atual da construção da notícia, ignorar os comentários dos leitores. Por isso, li com tristeza, leitores que comemoravam a decisão do Museu estadunidense e se colocavam muito favoráveis às opiniões emitidas pelo prefeito de Nova York, Bill de Blasio. Blasio foi ao Twitter agradecer ao museu novaiorquino por ter cancelado o evento e afirmou: "Jair Bolsonaro é um homem perigoso. Seu racismo evidente, sua homofobia e decisões destrutivas terão um impacto devastador no futuro do nosso planeta".

A tristeza vem do fato de que ao comemorar esse revés, parece que muitas pessoas esquecem de que o veto ao presidente não é algo isolado. Na verdade, significa algo mais. No fim das contas atinge a cada um nós. É como se chegássemos àquele museu e, aos sermos identificados como brasileiros, a recepção do local nos dissesse: "desculpe, vocês não podem entrar, o país de vocês tem um mandatário que não merece nossa confiança". É claro que os apoiadores mais ferrenhos do presidente não abstraem o ocorrido, colocando-o de imediato numa conta pessoal, onde os xingamentos e impropérios ocupam todo o espaço da discussão que deveria ter um mínimo de análise. Um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, reagiu à altura. Da família. E respondeu pelo Twitter a Bill de Blasio: "É prova de que 'o idiota' não habita somente a América Latina: 'o idiota' está em toda parte".

Enfim, já é possível dizer que os museus e Bolsonaro não têm uma convivência pacífica. Na última visita dele aos Estados Unidos, não há registros de que ele ou o filho tenham tido uma agenda cultural. Mas, imagino que o ministro das Relações Exteriores considere que esse tipo de atividade seja coisa de "globalista", tenha lá o termo qualquer significado. Lembro-me de que, no ano passado, quando o Museu Nacional ardeu em chamas e muitos de nós choramos por dentro e por fora, o presidente, então candidato, reagiu de forma um tanto quanto ... ao ser indagado sobre o episódio: "Já foi feito, já pegou fogo, quer que eu faça o quê?". E ao ser questionado por essa frase, ele disse mais: "...embora tenha 'Messias' no nome, não tem como fazer milagre". O que dizer de um presidente que não entende de economia, de cultura, de geopolítica, de educação, de cordialidade, das coisas mínimas?

Esta semana o presidente foi mais ameno com a Catedral de Notre-Dame, que quase virou cinzas em Paris. "Em nome dos brasileiros, manifesto profundo pesar pelo terrível incêndio que assola um dos maiores símbolos da cultura e da espiritualidade cristã e ocidental, a Catedral de Notre-Dame, em Paris". Disse mais: que os brasileiros estariam rezando pelos franceses. Não deixa de ser um gesto menos grosseiro. E talvez por isso mesmo, fiquei em dúvida de quem teria escrito a mensagem.

Porque estamos na Páscoa: Meu Deus, perdoa tamanho despreparo. 

 

Regina Ribeiro