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Jornal

Educação em perigo

23/03/2019 02:19:03

Li dia desses um artigo da Fernanda Torres com o qual me identifiquei de pronto. Ela falava de uma deficiência na própria formação acadêmica que a impediu de, ao longo da vida, ter uma certa comodidade em torno dos filósofos que marcaram a história do pensamento ocidental. Por conta disso, o jeito era ler o que lhe caía em mãos de forma meio atrapalhada, o que lhe dava a sensação de estar sempre se iniciando do ponto de vista filosófico. Lembrei-me de que, quando decidi ler sobre o assunto, enquanto as crianças dormiam, passava madrugadas adentro, às voltas com "A História da Filosofia", de Will Durant, até ouvir da professora e filósofa Adísia Sá: "Pelo amor de Deus, menina, se for ler filosofia, esse não é o melhor livro". Quais seriam, então? "Os próprios filósofos".

Alguns anos mais tarde, ouvi de um professor de Estudos Clássicos a mesma coisa que a professora Adísia Sá havia me dito. "Vá à fonte". Li uma tradução da "Ilíada", traduzida por Haroldo de Campos, que preservava boa parte da construção original dos versos que compõem os cantos. Me sentia massacrada pela leitura. Só bem depois, encontrei uma tradução publicada em Portugal que pôs os versos na estrutura da língua portuguesa e foi um alívio. Recebi de outro professor, no mesmo curso, dura crítica por estar lendo uma versão da "Eneida", publicada pela Zahar Editora, em prosa. "Esse não é bom. Leia em versos". Li as duas.

Foi com essa lição básica: "vá à fonte", que decidi me inscrever num dos cursos do guru da nova direita brasileira, o filósofo autodidata, Olavo de Carvalho. Queria saber, afinal de contas, o que trata esse Louco da Virgínia que, para mim, é a síntese da deselegância, da falta de polidez, do linguajar chulo. "Vá à fonte". Acessei a plataforma dele e lá havia uma solicitação de que antes de se inscrever nos cursos (semanal, mensal ou anual, pagos em dólar), o pretendente a aluno deveria assistir a um vídeo de orientação de "mestre". Olavo começa dando boas vindas, explica como é a dinâmica dos cursos que já estão gravados em parte, mas em outras, ele participa ao vivo. O principal desse vídeo, porém, é quando ele afirma: "Esqueça tudo o que você aprendeu, sabe ou acha que sabe até agora. Nada disso presta. Os meus melhores alunos são aqueles que não sabem nada. Esses são os que mais aprendem comigo".

Que diabo de filósofo é este que ao invés de incentivar uma amplitude do pensar, estimulando o diálogo entre os saberes adquiridos e os novos, parece querer exercer um domínio absoluto sobre o pensamento dos seus alunos? Que tipo de tutela do saber é esta que não oferece a pluralidade dialógica como um processo intrínseco da produção do conhecimento, o que, por sua vez, deveria gerar algum rasgo de humildade diante do ato de aprender? Por que será que Olavo de Carvalho não faz como os bons mestres que sugerem a cada um dos seus educandos: "Vá à fonte"? O secretário Nacional da Alfabetização é um dos alunos diletos de Olavo. Aliás, o próprio ministro da Educação ocupa o cargo por indicação dele. Esse filósofo do destempero é hoje o homem de maior influência no Ministério da Educação do atual governo. n

 

Regina Ribeiro