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O inferno são os outros...

Cláudia Leitão - Cláudia Leitão -  Diretora do Observatório de Governança Municipal do Iplanfor
Cláudia Leitão - Cláudia Leitão - Diretora do Observatório de Governança Municipal do Iplanfor

Segundo o filósofo Jean-Paul Sartre, somos responsáveis pelas consequências de nossas ações, ou seja, vamos moldando nossas vidas por meio da nossa consciência, em função das escolhas que fazemos. O problema é que para justificar nossas escolhas, muitas vezes construímos mentiras, seja para fugir de conflitos, seja para justificar nossas atitudes, buscando culpados para grande parte do que nos aflige no mundo. Nossa má-fé afasta para longe nossas responsabilidades sobre essas aflições. Por isso mesmo, precisamos do olhar do outro sobre nós. Necessitamos da alteridade para saber quem somos ou, pelo menos, o que não queremos ser.

A alteridade compreende julgamentos de valor, aproximação e conhecimento do outro. Rimbaud dizia uma frase sugestiva a esse respeito: "Eu sou um outro". Na afirmação do poeta, podemos depreender o quanto o outro é necessário para a existência do eu. O eu e o outro não se confrontam como duas entidades isoladas uma da outra. A complexidade de sua relação vem do fato de que o outro intervém de muitas maneiras na gênese do eu.

O conhecimento ocidental buscou ao longo dos séculos compreender o outro a partir de uma lógica da dominação, sem reconhecer sua qualidade. Reconhecer para subjugar, assimilar para aniquilar, neutralizar para tornar toleráveis as diferenças. Mas, a necessidade de conservar o estrangeiro no interior do "eu" torna-se cada vez mais urgente em tempos de homofobia, misoginia, racismo, ódio a imigrantes, e demais intolerâncias políticas, sociais, culturais, econômicas e religiosas.

"O inferno são os outros" é um alerta fundamental, especialmente para os dias em que vivemos. Não podemos controlar no outro o que pensa, o que diz ou o que faz. E a cada estranhamento ou mal estar diante do outro, devemos lembrar da advertência de Sartre: precisamos da alteridade. Afinal, é a liberdade do outro que garante a minha própria liberdade. E estamos todos condenados a sermos livres, pois é essa a condição primordial da nossa humanidade. n

Cláudia Leitão

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