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A política e as "bases virtuais"

Cleyton Monte
Cientista político, professor universitário e pesquisador do Lepem (Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia)
Cleyton Monte Cientista político, professor universitário e pesquisador do Lepem (Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia)

No início do século XX, Lima Barreto e Machado de Assis costumavam criticar a pompa e a superficialidade dos parlamentares na tribuna da Câmara dos Deputados. A verborragia imperava. Muitos nem sequer sabiam o que estavam dizendo, caso do personagem Numa, que tinha seus discursos escritos pelo amante da esposa. O público que acompanhava os pronunciamentos era bem reduzido. Geralmente, os leitores dos jornais da capital. O tempo não tirou a força da retórica. Pelo contrário, a midiatização da política fez esses discursos extrapolarem o grupo seleto do plenário e dos jornais. A novidade é que as últimas eleições produziram fortes "bases virtuais".

Recentemente, um deputado estadual cearense novato, famoso nas redes sociais, gerou polêmica ao usar o espaço da tribuna para externar suspeitas de corrupção na casa. Os colegas se revoltaram. A situação não é tão nova, vem ocorrendo desde 2013. Um grupo de lideranças políticas se organiza ativamente nas plataformas digitais. Logicamente, essas "bases virtuais" possuem substrato real (conservador ou progressista). O grupo precisa de uma mobilização permanente - criar fatos diariamente. Postar comentários bombásticos e vídeos "lacradores". Tal comportamento não é visto somente no Parlamento. O presidente Bolsonaro soube utilizar esse caminho como poucos. As eleições de 2018 foram tomadas por essas lideranças e recursos. Tamanha movimentação se intensificou a partir da lógica midiática da Operação Lava Jato, defensora do mantra de que se deve "agir e aparecer ao mesmo tempo".

É provável que esses homens e mulheres não acreditem em disciplina partidária, comissões temáticas ou negociações políticas. Tudo acontece seguindo uma lógica de denúncia, mais parecendo com o modus operandi das chamadas subcelebridades. O fenômeno está sendo acionado e estudado. Não sabemos se terá vida longa. O potencial de crise é enorme. A ação política voltada para as "bases virtuais" (e sociais) pode até produzir resultados eleitorais grandiosos, mas gera uma série de instabilidades. O tempo da política e da administração pública não segue o mesmo ritmo frenético das redes sociais. Os códigos são diferentes. Vamos aguardar o desempenho da primeira leva de políticos que foram eleitos com essa estratégia. Creio que tempestades se aproximam! n

Cleyton Monte

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