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A opacidade da dominação

Há tempo me pergunto porque os jesuítas, se defendiam os índios de uma constante perseguição e matança, nunca se opuseram à escravização de negros africanos, praticando-a eles mesmos. Não pregavam contra a posse e o uso de escravos, mas contra os abusos de seus donos que lhes infligiam torturas, indispondo seus corpos e suas almas ao trabalho e à catequese, incitando-os à fuga. Continuo até hoje sem uma resposta satisfatória, mas leio no livro "A História da Educação dos Negros no Brasil" que "... (Os jesuítas) concentravam a maior parte de seus esforços na conversão dos índios, mas, sem dúvida alguma, o colégio jesuíta na Bahia era a melhor instituição educacional da colônia. As ordens religiosas se sustentavam com engenhos, fazendas e rebanhos nas áreas adjacentes". Assim fico sabendo que os jesuítas tiravam sua subsistência da agropecuária operada por mão de obra escrava, aceitando o regime, hoje abjeto, da escravidão, naturalizando-a, civilizando-a, evangelizando-a, desde que não causasse males letais às almas e aos corpos dos habitantes de suas senzalas. Assim escreve o padre Antonil: "Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente. E do modo com que se há com eles, depende tê-los bons ou maus para o serviço".

Cristianizada, a dominação exercida pela escravidão se tornava invisível, opaca, pois parte da vida cotidiana; não era considerada barbárie, ela que instrumentalizava o ser humano que, aos olhos dos imperativos morais e do evangelho, devia ser visto como fim em si mesmo. Invisível, a escravidão passara a fazer parte do dia a dia, sem outra legitimação do que a sua comprovada utilidade econômica. A escravidão encontrava sua legitimação na sua funcionalidade para o organismo social, na espera de vozes estrondosas e proféticas como a de Joaquim Nabuco, em novos tempos econômicos.

A mesma "opacidade da dominação" impera ainda hoje, criando a ilusão da inexistência das classes, como se processos sociais opacos não determinassem o pertencimento de cada indivíduo ou à classe que lucra com o trabalho dos outros ou à classe que trabalha os outros lucrarem. Esse processo de compra e venda do trabalho alheio é, hoje, naturalizado, como outrora o foi a escravidão. nem sequer sofrendo a pressão dos ditames de Jesus ou dos imperativos morais. As coisas são assim e assim são aceitas em uma rendição total à vida como ela é! Essa é a situação de toda e qualquer economia de mercado, mas ela adquire uma força brutal no Brasil onde "as classes médias e alta contam ainda com um verdadeiro exército de mão de obra barata sobre a forma de empregadas domésticas, babás, faxineiras, porteiros, office boys, motoboys, que permite poupar tempo para atividades bem remuneradas e reconhecidas, tornando invisível a luta de classes", segundo Jessé Souza.

Sonho que um dia virá em que nenhum ser humano precisará trabalhar para um outro homem para ganhar a vida. n

André Haguette

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