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Ciro, Lula, o PT e os "babacas"

Ao menos para os Ferreira Gomes e o PT, a eleição de 2018 ainda não acabou, o que é ruim para ambos, mas sobretudo para o campo de esquerda. A arenga mais recente entre Ciro Gomes (PDT) e a militância lulista durante evento da UNE é sintoma de que a disputa presidencial deixou fraturas talvez insanáveis.

Hostilizado, Ciro saiu-se com o bordão lançado por seu irmão três meses antes, no clímax do segundo turno da corrida eleitoral. Exatamente quando PT e PDT ensaiavam uma aproximação em encontro no Marina Park, Cid Gomes, cercado por militantes lulistas naquele já distante outubro, pespegou: "O Lula está preso, babaca".

Ciro repetiu-o ontem, também em momento delicado - um dia depois de a Justiça em primeira instância acrescentar mais 12 anos à pena do ex-presidente, agora pelo caso do sítio em Atibaia.

Ora, a constatação de que "Lula está preso" é uma dessas verdades autoevidentes. De fato, Lula cumpre pena em regime fechado, não havendo qualquer dúvida quanto a isso.

A intenção do pedetista, todavia, não é dizer o óbvio, mas fazer enxergar que ele, Ciro, continua sendo uma alternativa política, principalmente porque o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, depositário de 47 milhões de votos, retornou à sala de aula, sendo visto hoje apenas no Twitter gracejando com Jair Bolsonaro (PSL).

Com Haddad limitado ao papel de tuiteiro e a deputada federal Gleisi Hoffmann, a ainda presidente do PT (até quando?), determinada a transformar a legenda num grêmio estudantil, que opção viável haveria?

Aí entra Ciro. Parece razoável supor que o ex-ministro, terceiro colocado, encerrou a eleição com um lastro considerável, disso resultando que se sinta autorizado a cortejar o PT em busca de apoio. Mas, como um bom Ferreira Gomes, o ex-candidato, e o PDT de modo geral, tem sido muito impetuoso, indo com muita sede ao pote e, às vezes, metendo os pés pelas mãos.

Na Câmara dos Deputados, por exemplo, a sigla brizolista preferiu aliar-se ao DEM de Rodrigo Maia, ajudando a reelegê-lo, em vez de formar um bloco com Psol e PT. Para isolar o partido de Lula, afastando-o da mesa e das comissões, topou um acordão com o PSL, o partido de Jair Bolsonaro, a quem Ciro já chamou de "nazista filho da..." - vocês sabem bem de quem.

A persistirem nesse pugilato ideológico, os "oportunistas" (como os petistas chamam Ciro e Cid) e os "babacas" (como os irmãos se referem aos lulistas) terão muito a perder: o ex-governador porque só tem viabilidade política na centro-esquerda, ocupando o vácuo deixado por sua principal liderança; e o PT porque, aferrado à guerrilha "Lula livre", tende a perder o discurso.

Nenhuma arenga ginasiana muda isso agora, nem as vaias ao pedetista inflamadas por uma plateia que ainda não entendeu 2018. Tampouco declarações como as de Ciro, que, assim como fez no segundo turno, quando se ausentou a pretexto de descansar na Europa, implodem qualquer hipótese de entendimento nesse lado do espectro político. n

Henrique Araújo

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