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Jornal

Cidade escalpelada

08/02/2019 04:37:26
Ítalo Coriolano
coriolano@opovo.com.br
Jornalista do O POVO
Ítalo Coriolano coriolano@opovo.com.br Jornalista do O POVO

Sempre que uma nova obra vai ser executada na cidade, surgem temores: "será que vai atrapalhar muito o trânsito?", "será que o prazo vai ser respeitado?", "será que vão derrubar árvores?". Essa última questão vem ganhando atenção redobrada devido à sequência de cortes nos últimos anos e à sensação de que nossa capital está virando um forno. A mais recente notícia de supressão vegetal diz respeito a mais uma etapa de requalificação da Beira-Mar. Dezenas de árvores foram derrubadas para, segundo a Prefeitura de Fortaleza, possibilitar a drenagem de uma área da via.

Mas é difícil imaginar que não exista alternativa no campo da engenharia capaz de garantir a preservação de um espaço verde numa região onde o sol castiga sem dó. O argumento é de que para cada árvore derrubada, dez serão plantadas. Agora imagine o tempo que vai levar para que uma muda possa garantir sombra. Isso se ela sobreviver, porque o que costumamos ver em trechos que foram degradados pela ação do poder público - e onde houve tentativas de compensação - são galhos secos.

Opta-se sempre pela opção mais prática, sem diálogo com a sociedade, que é pega de surpresa e fica revoltada - com toda razão - ao se deparar com o vão aberto cruelmente no litoral da cidade. Como nossos gestores podem cobrar da população respeito ao meio ambiente se não dão o exemplo? Escalpelam tudo e depois colocam umas plantas ornamentais ou umas palmeiras bonitas para disfarçar. No caso das obras da Beira-Mar, o titular da Regional II, Ferruccio Feitosa, chegou a afirmar que "tudo está sendo feito com a mais absoluta responsabilidade ambiental". Cortar 40 árvores que existem há décadas, de uma só vez, não é responsabilidade ambiental nem aqui nem em qualquer outro lugar do mundo.

Aliás, a Prefeitura poderia se inspirar em outras cidades para saber o que realmente significa responsabilidade ambiental. Experiências existentes aqui mesmo no Brasil, por exemplo. Nas obras de um BRT em Salvador, foram transplantadas 169 árvores, algumas pesando mais de uma tonelada. Dá muito trabalho? Com certeza, mas vale a pena em nome do equilíbrio do espaço urbano. 

 

Ítalo Coriolano

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