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Jornal

Felicidade é descer pulando a João Cordeiro

Magela Lima
Jornalista e professor universitário 
lima.magela@gmail.com
Magela Lima Jornalista e professor universitário lima.magela@gmail.com

Ele alegra Fortaleza desde o tempo em que a cidade, na conta de alguns, não tinha nem carnaval. O Cheiro, heroico remanescente de um período em que a capital não havia estruturado nenhuma política pública específica para os blocos de rua, já contabiliza mais de 25 anos de história e, sobretudo, de muita felicidade. Improvisada, espontânea, irreverente, democrática, plural, a agremiação é um verdadeiro patrimônio da nossa folia. Cada vez que cruzo seu caminho, eu me despeço sempre mais animado em ver a potência de tantos encontros em meio a uma festa tão simples.

O Cheiro abraça e acolhe, de uma maneira intensa e carinhosa, uma cidade inteira. Nos seus cortejos, tem de um tudo: tem criança, tem adulto, tem idoso, tem homem, tem mulher, tem pobre, tem rico, tem preto, tem branco, tem amarelo, tem marrom, tem uma diversidade sexual inteira. Tudo junto e misturado, como a tradição do carnaval de verdade recomenda. Ano após ano, O Cheiro vem se reafirmando como um espaço coletivo e livre, onde a única regra parece ser não ter regra alguma, para além, claro, da exigência do sorriso farto e da tolerância plena.

O carnaval de O Cheiro é, por excelência, aquele em que tudo, absolutamente tudo, parece que vai, a qualquer instante, dar errado. Talvez, por isso, a gente se divirta tanto. O bloco não tem hora certa para começar ou terminar, a bateria está longe de ser plenamente afinada, o som falha, os puxadores dividem o microfone com os foliões, ninguém é expulso se não estiver vestindo a camisa oficial do ano, não há corda restringindo espaço. Em compensação, sobram alegria e liberdade.

Quem segue O Cheiro está plenamente disponível para brincar com o outro, para ser feliz com o outro, para dividir a cidade com o outro. É uma lindeza! O Cheiro é certeza de alegria no coração de uma Fortaleza tão assustada quanto dividida. É impossível não se aninhar ali pela Padre Justino para descer pulando a João Cordeiro nas noites de sábado sem acreditar numa cidade outra, mais generosa e menos indiferente. Obrigado, bloco O Cheiro por não me fazer desistir, nem desacreditar, dessa nossa Fortaleza. n

Magela Lima

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