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Cidade em chamas

01:30 | 12/01/2019
A Fortaleza em chamas de rotinas e rotas alteradas espana a poeira dos conflitos de classe. Enquanto lança luz sobre a incapacidade - em termos de urbanismo, oportunidades e oferta de serviços básicos - da unidade entre periferia e centro, também realça que, quando instaurado o caos, os primeiros a sofrer suas consequências são os menos poderosos.

 

Por coincidência, assisti há poucos dias o último filme do cineasta mexicano Alfonso Cuarón, o aclamado Roma, disponível na Netflix, que vem arrebatando os mais importantes prêmios da categoria ao redor do mundo. A história de Cleo, empregada doméstica na Cidade do México da década de 1970, é contada com estética que a aproxima do neorrealismo italiano de diretores como Rossellini, De Sica e Fellini. Sua ficção está firmemente respaldada pelo quadro político e social de uma época.

 

Cleo é responsável pelas tarefas domésticas de uma grande casa, cujos donos integram a elite intelectual da capital mexicana. Além do casal, quatro crianças e a avó materna vivem ali e compartilham uma rotina que, em medidas variáveis, depende de Cleo para funcionar sem solavancos. Enquanto enfrenta seus próprios demônios, a empregada convive com a instabilidade emocional da patroa, que oscila entre as figuras de guardiã e algoz da subordinada. Cleo cumpre seus rituais de arrumação e ordem com a resignação de quem conhece seu lugar.

 

No mesmo dia em que vi o filme de Cuarón, fui a uma consulta médica no Office Treze de Maio, no bairro de Fátima. Quando o elevador chegou ao térreo, segurei as portas automáticas para que um motoboy com uma entrega de almoço também entrasse. O segurança interrompeu nossa conversa e disse que o entregador teria que esperar o elevador de serviço, que estava no 22º andar. Insisti, busquei reforço nas outras pessoas, mas a postura do segurança foi irredutível.

 

As explosões que agridem nosso ideal de cidade tranquila são as mesmas que golpeiam a rotina de pessoas cujo único ideal é tomar o coletivo na hora certa e receber o salário no fim do mês. Para nós, a pancada simbólica. Para eles, a porrada real. Na cidade em chamas, somos meros espectadores deslumbrados pelas faíscas.

 

Jáder Santana

jader.santana@opovo.com.br

Jornalista do O POVO