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As cores do real

01:30 | 12/01/2019
O episódio sem noção do "menino veste azul, menina veste rosa", me fez lembrar de um caso familiar que envolveu a fé e as cores. Minha irmã mais nova, Ana, nasceu com um grave problema oftalmológico. Seus primeiros dias talvez tenham sido o primeiro grande teste da minha vida. Tinha então seis anos e era a única menina no meio de três meninos. A chegada de outra menina me pôs para escanteio duplamente. O único nome que se ouvia na casa era o do bebê, Ana, e eu tive de aprender a me comportar, pensar e agir como uma "mocinha" da noite para o dia, assim que a criança surgiu no portão de casa, super embalada em roupinha, luvas, sapatinhos e uma manta por cima, carregada pela minha mãe como um troféu, seguida por um cortejo de parentes que começava pelo meu pai e engrossava com meus avós e tios, todos repetindo o mantra: "Olha, que linda, agora você tem uma irmãzinha".

 

Por outro lado, aproveitei o fato de que ninguém mais se importava com o que eu fazia ou deixava de fazer para subir em árvores - não, nunca vi ninguém em pé de nenhuma fruta -, comer azeitonas pretas e siriguelas quentes recém caídas do pé e praticar a maior das artes de menina, que era ficar à beira da cacimba no grande quintal da minha casa e espiar o seu infinito, algo que minha mãe não poderia sequer sonhar.

 

Os dias foram se passando nesse pé até que a casa sofreu o primeiro abalo. A quantidade de vezes que o nome Ana passou a ser pronunciado foi elevada à décima potência. Com uma semana de nascida, meus pais foram informados da doença da menina. Foi um corre-corre, parentes incrédulos, diagnóstico posto em suspeição, minha mãe em choque e disposta a tudo. Levou o bebê para não sei quantos médicos, refez os exames, a menina começou a usar colírios "caríssimos", de acordo com o que eu ouvia sem entender bulhufas. O fato é que quando tudo parecia perdido, minha mãe apelou para fé: prometeu à Nossa Senhora, que se minha irmã não ficasse cega, Ana só usaria azul e branco até completar 7 anos. A resposta demorou, e minha mãe avançou na promessa: a menina usaria azul e branco a vida toda, caso fosse curada.

 

Lembro com se fosse hoje da alegria e alívio que reinou na minha família, quando o médico atestou que minha irmã teria uma visão limitada, mas que não ficaria cega. Minha mãe tomou o resultado como milagre e Ana entrou no azul e branco já na comemoração, quando, em torno de um bolo, os parentes se reuniram para festejar a visão da minha irmã. Ana foi uma menina que não vestiu rosa. Nem amarelo. Nem vermelho. Aliás, quando ela ficou naquele ponto em que os meninos ficam insuportáveis e pirracentos com os mais velhos, eu me vingava das birras da caçula provocando-a: "Ana, pega ali aquele teu vestido azul". Ela ficava bravíssima. Levei bons tapas da minha irmãzinha valente em quem não se podia tocar com um dedo porque minha mãe me olhava firme: "Como você tem coragem de bater numa criança? Você! Uma moça desse tamanho".

 

Mais tarde, minha mãe largou o catolicismo e ficou o dito pelo não dito. Minha irmã foi liberada das cores do manto de Nossa Senhora, ganhou óculos e a vida seguiu em frente. Porque a vida desconhece cores fixas e a realidade se encarrega de torná-la uma aquarela.

 

No armário da minha irmã não há um único vestido azul.

 

Regina Ribeiroreginah_ribeiro@yahoo.com.brjornalista do O POVO