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A diplomacia vice-presidencial de Mourão

01/02/2019 03:48:42
Dawisson Belém Lopes 
Professor de política internacional da UFMG e autor de
Dawisson Belém Lopes Professor de política internacional da UFMG e autor de "Política Externa e Democracia no Brasil"

O comportamento arredio e a pouca desenvoltura de Jair Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial dão indícios de que teremos, pelos próximos anos, uma diplomacia presidencial de baixa intensidade.

Repete-se, em certo sentido, a história do governo Rousseff, mas com uma diferença fundamental: o vice-presidente, Hamilton Mourão, tem sede de política internacional.

Sua agenda oficial, neste primeiro mês de mandato, esteve repleta de encontros com diplomatas, empresários e militares com atuação além-fronteiras.

Ventila-se, entre os analistas, a hipótese de que o processo decisório sobre a política externa de Bolsonaro estaria a cargo de três núcleos distintos: o nacionalista-religioso (Ernesto Araújo), o neoliberal (Paulo Guedes) e o militar.

O esquema tripartite é academicamente elegante e politicamente conveniente, mas não explica muita coisa. Se avaliarmos com cuidado as credenciais e alavancas de poder dos agentes, logo notamos uma assimetria considerável.

Os grupos capitaneados por Araújo e Guedes são, na verdade, aglutinações amorfas, conjunturais, formadas pela contingência eleitoral. Religiosos e neoliberais não têm coesão interna e coerência nos seus movimentos, ao contrário do núcleo militar, bastante orgânico e institucionalizado.

Gestado no Exército brasileiro, esse núcleo alimentou-se, ironicamente, das políticas globalistas da Era Lula, quando o Brasil teve forte atuação nas operações de paz da ONU, figurando entre os dez países que mais cediam tropas à organização.

Generais como Heleno (GSI), Santos Cruz (Secretaria de Governo), Azevedo (Defesa) e Peixoto (Secretaria de Comunicação) serviram nas missões de Haiti e Congo. São experimentados nas pautas exteriores.

Não resta dúvida de que, se houver "bola dividida", essa turma entrará em campo para "desequilibrar o jogo", sob a ciosa liderança de Mourão.

Contribui para este prognóstico que tarimbados embaixadores do Itamaraty façam leituras políticas compatíveis, em diversos temas cruciais, com a do vice-presidente da República.

Quer me parecer, portanto, que o vetor resultante do encontro entre as visões de mundo dos integrantes do atual governo federal terá a direção e o sentido pretendidos pelo primeiro escalão militar. n

Dawisson Belém Lopes

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