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Jornal

Ontem e hoje

01/02/2019 03:59:03

Em meados da década de 60 do século passado, numa cidadezinha do sertão do Ceará, onde ainda se respirava a influência do cangaço e da figura mitológica do Padre Cícero de Juazeiro do Norte, havia um líder político autoritário, com iniciativas que iludiam parte da população. No seu caminho, trazia contradições assustadoras, difíceis de compreender-se à luz da época.

Imagine que os últimos quatro prefeitos da cidade, todos da União Democrática Nacional (UDN), foram eleitos com decisivo apoio dele. Quando o diretório local da UDN escolhia um candidato que não partilhasse de sua mesma linha política ou divergisse em qualquer outro ponto, a ata era ratificada e seu candidato, imposto. Sempre que necessário, ele demonstrava que era maior do que a velha UDN.

Como chefe político, mobilizou prefeitos, vereadores, comerciantes e proprietários rurais. Conseguiu para a cidade um hospital-maternidade e um ginásio, ambos reivindicações antigas do município. Além de ser o dono da irradiadora local - um dos principais meios de comunicação da cidade naquele tempo -, distribuía leite em pó para a população carente e costumava destituir autoridades administrativas dos órgãos estaduais e municipais através de telegramas.

Era público e notório seu entusiasmo por brigas de canário, galo indiano e cachorro. De vez em quando, também atiçava um menino contra o outro para ver quem era o valentão. Praticava tiro ao alvo e, quando andava na rua com a mão no bolso, todos já sabiam que estava armado. Não se tem notícia de que gostasse de livros. Durante anos, falava-se que ele resolvia seus problemas à bala.

Por fim, quando os caciques da UDN quiseram rebelar-se contra suas orientações políticas, ele decidiu candidatar-se a prefeito e foi consagrado nas urnas com uma das maiores vitórias eleitorais da história do município. Esse personagem era o padre da cidade e, como prefeito, realizou uma administração desastrosa. n

Saraiva Júnior

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