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Alberto Torres: um precursor

Começa em Brasília o governo de políticos iliberais. O eleitor mandou para lá uma gestão de orientações dispares: nacionalistas, ultraliberais econômicos, conservadores morais e autoritários. Uniram-se em defesa da restauração da ordem e regeneração moral da Nação.

O Brasil teve poucos intelectuais conservadores: Alberto Torres, Oliveira Vianna, Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção e João Camilo de Oliveira Torres. Outros, como Plínio Salgado, são considerados apenas reacionários.

O pensamento político brasileiro tem em Alberto Torres (1865-1917) o nascedouro dessa mentalidade. Embora seja pensador do início do século passado teve influência marcante em sucessivas gerações políticas. Representou o espírito da geração mais antiliberal que tivemos. Deputado federal, governador do Rio de Janeiro, ministro da Justiça, ministro do STF; republicano histórico, decepcionou-se e pregou a revisão constitucional. Esta foi fruto do idealismo irrealista da elite intelectual, longe dos interesses do povo e ausente um projeto nacional. Já identificara o problema, ainda hoje não resolvido, da inadequação das instituições política em relação à sociedade.

Após a aposentadoria precoce, reunia em sua casa amigos para preleções e todos o chamavam de mestre. Não tolerava interrupções. Dos discípulos, foi Saboia Lima - "Alberto Torres e sua obra" -, o primeiro a fazer sua biografia. Outras viriam do mesmo círculo. Barbosa Lima Sobrinho não participou do grupo, mas escreveu a considerada biografia definitiva - "Presença de Alberto Torres". Doutrinador messiânico convicto acreditava que ideias verdadeiras podiam transformar pela ação consciente indivíduos e a realidade.

Na época imperialista, alertou para a relação inorgânica existente entre sociedade e Estado no Brasil. Isso poderia nos tornar presa fácil das grandes potências. Para ele, o Estado nacional deveria agir para organizar as dispersas forças da sociedade, e defendê-la de mudanças indesejáveis vindas da ordem internacional. Crítico das mudanças capitalistas, sonhava com o isolamento, a preservação das tradições e denunciava a elite política como incompetente, hipócrita e corrupta.

Suas ideias guiaram parte da geração de 1930 - os integralistas. Ressurgirá, na década de 1950, com Guerreiro Ramos, com pregação igualmente nacionalista, mas sem o aspecto conservador. Dos discípulos, Oliveira Vianna é o mais famoso. Para ele nossa formação sociopolítica impediu a criação de condições socioculturais para o funcionamento de instituições liberais.

A geração criadora do conservadorismo brasileiro voltou os olhos para o Império e descobriu com encanto e convicção as bases da ordem. Ali havia sido criado um modelo de governança, baseado na tradição. A autoridade centralizada e o Poder Moderador haviam provados sua eficácia e necessidade. Este último, representava o poder não partidarizado capaz de apaziguar os conflitos políticos. A virtude do modelo provinha de sua criação espontânea, filho da experiencia histórica, e não obra de pensamento teórico. Tudo contrariando a democracia. Mas, quem disse que eles reconheciam a necessidade da democracia? n

Valmir Lopes

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