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Michelle para além do protocolo

Três gestos de quebra de protocolo na posse de Bolsonaro merecem registro.

Primeiro, a atitude do filho mais velho do presidente. Durante percurso de Rolls Royce ele esteve sentado ao fundo do veículo que levava seu pai. Diante do insólito, fizeram-se especulações.

Quereria chamar atenção a si? Estaria o pai sinalizando algo sobre seu preferido? A razão veio à tona pelas redes sociais. Estava ali com um colete a prova de balas, no ângulo de maior vulnerabilidade caso alguém pretendesse alvejar seu pai e esposa. Ou seja, havia se postado como escudo humano. No protocolo não havia como um segurança ocupar tal posição. Ele teria se voluntariado.

Segunda situação para registro foi a cessão à primeira-dama do privilégio de se comunicar primeiro com a nação no que seria o discurso inaugural do presidente no Palácio do Planalto. De certa forma, sinalizou o papel ativo que ela exercerá no mandato do marido.

A terceira surpresa se conecta a essa. A comunicação em libras de Michelle Bolsonaro é fato histórico por si. O discurso em sinais aponta como destinatário imediato o público com deficiência. Eloquente silêncio. Absolutamente performático: a atitude emprestou vida ao conteúdo da mensagem.

A ação quebra ainda a imagem propagandeada pelos oponentes de que haveria desprestígio das mulheres no novo governo. Ela não parece ser do tipo subserviente, que vai se limitar à figura de "recatada e do lar", como as anteriores.

Por sinal, tudo leva a crer que terá ação intensa junto ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, distanciando-se do estereótipo simbólico do cônjuge do líder do Executivo. Nesse quesito está mais próxima de Ruth Cardoso do que de Marisa.

A sintonia entre Michelle e Damares Alves reforçará a pasta da ministra. Já é o Ministério que concentra maior número de mulheres, habitualmente mais sensíveis aos temas sociais. Dos oito cargos de liderança do Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, seis serão comandados por mulheres. No site do Ministério chama especial atenção a condição indígena da secretária da Igualdade Racial e o fato de a Secretária de Pessoa com Deficiência ser professora de libras. São nomeações performáticas, de efeito.

Até aqui, atitudes da primeira-dama e da ministra demonstram comprometimento contra desigualdades. Resta torcer para que redundem em efeitos práticos. n

Antonio Jorge Pereira Júnior

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