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Editorial. Os coletes amarelos e a democracia

01:30 | 07/12/2018
O governo francês já recuou duas vezes, desde que se iniciaram os protestos dos "coletes amarelos", mas nem assim o movimento dá mostras de que vá arrefecer. Em um primeiro momento foi anunciada a suspensão do aumento dos impostos sobre combustíveis - motivo dos protestos - por seis meses; um dia depois a proposta estendeu-se para todo o ano de 2019. A taxação dos combustíveis tem o objetivo de financiar a transição energética do país para fontes mais limpas. O nome "coletes amarelos" remete ao acessório utilizado pelos manifestantes, item de segurança obrigatório nos carros franceses, que o motorista precisa usar - para aumentar a visibilidade - caso precise descer do veículo devido a algum problema mecânico.

 

A exemplo do movimento ocorrido no Brasil em 2013, iniciado em São Paulo contra o aumento de vinte centavos nas passagens de ônibus, e que depois espalhou-se pelo País, não há organização vertical ou liderança reconhecida entre os manifestantes franceses, que se comunicam por meio de redes sociais. O protesto, no Brasil, foi iniciado por organizações consideradas "de esquerda"; mas, na sequência, foi hegemonizado pela "direita", segundo a terminologia utilizada para classificar as duas fases do movimento.

 

As manifestações franceses estão sendo comparadas, na forma e em número de participantes, aos protestos de maio de 1968. Porém, ao contrário dos acontecimentos de 50 anos atrás - um movimento dirigido pelos estudantes de esquerda -, a composição de forças atual é mais difícil de ser caracterizada. Segundo a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado (The Intercept Brasil, 4/12/2018), para entender esse tipo de movimento é preciso abandonar as "lentes dicotômicas" utilizadas para a compreensão da política no século XX. 

 

Para ela, o mundo entrou na fase das "revoltas ambíguas", que vieram para ficar. Não se pode, portanto, caracterizá-las como sendo de direita ou de esquerda, pois são um campo em disputa, podendo pender para qualquer lado. Seria, fundamentalmente, um grito difuso de "basta", com poder de contagiar um grande número de pessoas, apelando para questões cotidianas, que depois transbordam em críticas violentas aos governos.

 

O fato concreto é que a democracia representativa, da forma como a conhecemos, está sendo duramente questionada, vista como algo que favorece a minoria em detrimento da maioria. São essas questões sobre as quais se tem de refletir, de modo a que se proteja e se amplie a democracia, para que não sobrevenha o mal maior das ditaduras.