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Bolsonaro e a gestão do medo

01:30 | 06/12/2018

A frequência com que a equipe de Jair Bolsonaro (PSL) se refere às ameaças que o presidente supostamente vem sofrendo a cada semana sugere algo mais que a mera tentativa de alimentar a máquina eleitoral mesmo depois das votações.

 

É como se, passada a disputa, o entorno do vencedor precisasse manter algo daquele clima de conflagração que atravessou a eleição, gerindo o medo como extensão da governança.

 

A estratégia é reflexo de uma postura curiosa. Bolsonaro ainda não se despiu do figurino de candidato. No começo, hostilizou os veículos de comunicação que não lhe foram francamente simpáticos. E, há dois dias, disse aos deputados do PSDB que precisava de seus apoios para que o PT não voltasse ao poder.

 

Até a montagem do ministério é marcada por esse espírito de tensão que não se dissipou no pós-eleições: o pesselista tem procurado as mesmas bancadas que o ajudaram a se eleger presidente, notadamente a ruralista e a evangélica, para compor os nomes do futuro governo, e evitado diretamente as cúpulas partidárias.

 

Bolsonaro foi eleito com base num afeto predominante: os medos, no plural mesmo. Reais, resultados dos números de violência nos grandes centros urbanos. E imaginários, como o receio de uma parcela do eleitorado de dissolução da família, fantasma que o candidato manipulou com habilidade durante a corrida ao Planalto, fazendo colar no adversário e sua vice a máscara do barbarismo.

 

Mas o pleito acabou ainda em outubro, e Bolsonaro vem conduzindo a agenda do País desde o dia seguinte ao da vitória, numa transição em céu de brigadeiro. Neste momento, as ações e palavras do presidente de fato, Michel Temer (MDB), já não surtem qualquer efeito. Noutra ponta, cada gesto do sucessor produz uma reacomodação ou correria no mercado político, causando ora estupor, ora revolta. Sem ter assumido, Bolsonaro comanda o País.

 

E é exatamente como esse comandante em chefe, portanto, que o militar da reserva pavimenta o próprio caminho municiado das mesmas ferramentas com que faturou a faixa presidencial. A um só tempo, o eleito planta, ventila, desautoriza e fabrica, tudo a partir das redes sociais.

 

A fim de manter o equilíbrio de forças das eleições, no qual se mostrou o contraponto perfeito a tudo que o PT representava, o novo ocupante do Planalto tem, pessoalmente e por meio de seus auxiliares, alimentado o medo.

 

Para ilustrar, cito o caso mais emblemático. Há uma semana, um de seus filhos-parlamentares, o vereador Carlos Bolsonaro, foi ao Twitter dizer que a morte do presidente interessava a bem mais gente que apenas aos seus inimigos declarados.

 

Sem nomear a ameaça, Bolsonaro, o filho, nada mais fez que adensar o ambiente de conspirata do qual o governo do patriarca tenta colher dividendos políticos mais de um mês depois de fechadas as urnas.

 

Se não há mais agora o "inimigo vermelho" a ser batido custe o que custar, o que resta? Aos poucos, Bolsonaro vai descobrindo que vale a pena ter à mão um plano de ataque contra si, venha de onde vier.

 

Henrique Araújo

henriquearaujo@opovo.com.br  

Jornalista do O POVO