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A luta do século

01:30 | 06/12/2018

Após o colapso da União Soviética (1991), Francis Fukuyama decretou o fim da História e a vitória dos norte-americanos na Guerra Fria. A esquerda mundial contestou em bloco e ridicularizou as teses defendidas pelo cientista político e intelectual nipo-americano em "O Fim da História e o Último Homem".

 

Apesar de confrontar racionalmente as teses de Fukuyama, a esquerda latino-americana agiu ao longo do período 1990-2010 como se as conquistas democráticas estivessem consolidadas ao redor do mundo e o retorno de regimes autoritários fosse um delírio de militantes ou intelectuais presos a um passado aparentemente superado.

 

A despeito da vitória de representantes do neoliberalismo no continente e da imposição de uma agenda abertamente privatista, os partidos de esquerda e centro-esquerda, quando chegaram ao poder pela via eleitoral, adotaram uma política de conciliação, buscaram acordos com setores sociais sabidamente conservadores e contentaram-se com a implantação de políticas compensatórias, importantes para setores desassistidos, porém insuficientes para garantir a continuidade de um discurso inclusivo duradouro. Ao privilegiar a economia em detrimento da política, os progressistas afastavam-se de suas bases.

 

O ressurgimento de discursos xenófobos, no início do século XXI, era tratado como exotismo e quem desafiava o discurso conformista e apontava a necessidade de continuar lutando pela consolidação do estado democrático de direito ganhava o rótulo de viúvo da Guerra Fria ou algo pelo estilo.

 

A vitória de Donald Trump nos EUA e o surgimento de seus genéricos ao redor do mundo mostram o tamanho da encrenca em que nos metemos. O sucateamento das universidades e demais instituições garantistas, a transferência do debate intelectual para as redes sociais, a falta de comprometimento com o jogo democrático e a negação da legitimidade do oponente são alguns dos sinais de crise eminente, apontados pelos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt no livro "Como as Democracias Morrem".

 

O adversário já tirou o roupão, exibiu os músculos, encantou a torcida e venceu os três primeiros rounds. Nós ainda não estamos convencidos de que é necessário continuar a lutar.

 

Fernando Baía

fernandobaia66@gmail.com

Historiador