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Importância da memória

01:30 | 09/11/2018

Há oitenta anos, a Alemanha viveu a "Noite de Cristais do Reich" - denominação eufemística nazista. Utilizando como pretexto o atentado a um diplomata alemão realizado por um judeu polonês, uma onda de violência, organizada pelas SS e SA, atinge a população judia nos dias em torno do dia 9 de novembro. Mais que 1.200 sinagogas e 7.500 lojas de judeus são destruídas. 91 pessoas são assassinadas e, nos dias que seguem, 30.000 judeus são presos. Como reação às barbaridades nazistas, a comunidade internacional instituiu diversos mecanismos: a fundação da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção de Genebra relativa aos Refugiados. Passaram-se mais 70 anos e os desafios aumentaram. As mudanças climáticas requerem uma ação conjunta de todos os países, pessoas fogem de guerra, fome e falta de oportunidades econômicas. Neste momento, uma nova onda ameaça o consenso pós-guerra. Na Europa, o governo italiano criminaliza barcos que socorrem refugiados em alto-mar. A morte em massa é aceita como natural. Donald Trump enfraquece organizações e acordos internacionais, fez da informação falsa o seu dia a dia, direciona o medo e o ódio popular à minorias, estrangeiros, refugiados, inimigos políticos, com consequências reais como mostram as bombas enviadas a políticos democratas. O que pode ser feito diante do discurso de intolerância e ódio? A experiência nazista e acontecimentos como os ataques de novembro de 1938 levaram a Alemanha a políticas públicas de memória para que a história nunca mais se repita. O regime nazista, a perseguição de adversários políticos, de deficientes, ciganos, judeus, fazem parte dos currículos escolares; lugares de memória, como campos de concentração, são preservados. E como estará o Brasil? Estamos no mesmo turbilhão de ânimos exaltados. Pior, não conseguimos construir um consenso majoritário em torno de valores humanos fundamentais. 

 

Trinta anos atrás, publicou-se "Brasil: Nunca Mais", um relato sobre a tortura entre 1964-1985, a pior face do regime militar. Em 2018, ainda estamos longe de uma política de memória bem-sucedida que faça, pelo menos, da condenação da tortura uma unanimidade nacional. 

 

Sérgio Krieger BarreiraProfessor da Unilabsergiokbarreira@unilab.edu.br