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O jornalista e a ética do marceneiro

01:30 | 11/10/2018

"Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista.  (...) Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão. (...) O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da confiança do outro, não pode mentir. (...) É preciso ter opinião para poder fazer opções e olhar o mundo da maneira que escolhemos. Se nos eximimos disso, perdemos o senso crítico para julgar qualquer outra coisa. (...) O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista."

 

Essas são palavras de Cláudio Abramo (1923-1987), no livro A regra do jogo, publicado depois de sua morte, em 1988. Abramo foi um dos mais importantes e íntegros jornalistas deste País, sem nunca ter deixado de manifestar seu  pensamento.

 

Era pública a sua simpatia pelo trotskismo, sendo ele de uma família de militantes de esquerda. No entanto, abdicou da atuação política para dedicar-se ao jornalismo. Sem querer me comparar, por óbvio, também nunca deixei de expressar a minha posição à esquerda no espectro político, porém, deixei a militância quando optei por fazer do jornalismo minha principal ocupação.

 

Tento explicar aos leitores que redigir um artigo - que exige análise e opinião - é diferente de escrever uma notícia: são gêneros diferentes. Ainda, que expressar uma visão de mundo ou situar-se em um campo político, não é sinônimo de definir-se por um partido específico, o que também nunca fiz, como jornalista. Se exponho agora esse assunto é porque a cobrança por "imparcialidade" e os ataques contra jornalistas tornaram-se mais intensos e mais frequentes.

 

Mas, neste momento, quando um dos candidatos à Presidência é misógino, racista, homofóbico, defensor da tortura e amante da ditadura, a ética do cidadão tem de falar mais alto. Torna-se impossível a imparcialidade quando a escolha é entre civilização e barbárie, esta representada pelo candidato Jair Bolsonaro, do PSL. Eu nada fiz de extraordinário na minha vida, porém, nestes tempos sombrios, quero, pelo menos, deixar esse pequeno gesto de dignidade, e talvez de coragem, para as minhas filhas e para o meu neto.

 

Plínio Bortolotti

plinio@opovo.com.br 

jornalista do O POVO