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Editorial. Mudança climática e El Niño

01:30 | 11/10/2018

Ecoa no mundo o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, apresentado durante painel científico na sede da organização que desenha um panorama muito mais severo sobre as consequências imediatas da mudança no clima do que se imaginava anteriormente. Por conta disso será necessário transformar a economia mundial em velocidade e escala para as quais "não existem precedentes documentados", segundo o estudo. Isso reafirma o pronunciamento feito meses atrás pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, sobre os riscos do planeta ultrapassar a temperatura de 1,5°C, o que resultaria num maior aumento do calor extremo, de chuvas torrenciais e da probabilidade de secas, com efeitos diretos sobre a produção de alimentos, sobretudo em regiões sensíveis como o Mediterrâneo e a América Latina. Se se tiver em conta a possibilidade real de uma nova investida do El Niño, no final deste ano e início de 2019, configurando mais um ano de seca, a situação do Nordeste - em particular do Ceará - ficará ainda mais delicada.

 

Os alertas sobre a mudança climática em curso, apesar de todo o respaldo científico, tem sido uma espécie de "pregação no deserto". Publicações anteriores tinham já estimado o dano que seria causado caso a temperatura subisse para 2°C, porque esse era o limiar previamente estimado pelos cientistas para os efeitos mais severos da mudança no clima. No entanto, o novo relatório demonstra que muitos dos efeitos temidos já seriam sentidos quando se alcançasse 1,5°C. Daí terem-se tornado urgentes as iniciativas para desarmar essa bomba-relógio, o quanto antes.

 

O perigo é o mundo cruzar o ponto de não retorno da mudança climática, o que estaria bem perto. O Acordo de Paris, realizado há três anos, para impedir que a temperatura aumentasse em 2 graus, não gerou a mobilização requerida e é preciso apertar o passo para evitar o desastre. O relatório será usado como base para as discussões da 24ª Conferência do Clima (COP24), a ser realizada em dezembro em Katowice, na Polônia

 

A advertência chega ao Nordeste brasileiro com uma ameaça adicional: a de uma nova eclosão do El Niño (fenômeno climático que altera ciclicamente a incidência de chuvas no semiárido brasileiro - e com mais intensidade o Ceará - provocando secas). Se eclodir, como parece, em dezembro e alcançar o início de 2019, sobretudo março, abril e maio - estação chuvosa do Ceará - um novo ano de seca (sétimo) estará à espreita dos cearenses (e nordestinos setentrionais). O que exige políticas públicas preventivas, inclusive o reforço da rede de proteção social, para não voltarmos a ter "flagelados".