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Chamar as coisas pelos seus nomes

01:30 | 11/10/2018
Nos últimos dias, um homem de 63 anos foi assassinado com 12 facadas na Bahia. Romualdo Rosário da Costa era mestre de capoeira, poeta e bailarino. Numa dessas discussões corriqueiras, declarou-se eleitor de Fernando Haddad (PT).

 

Na mesma semana, uma transexual foi agredida no Rio de Janeiro por pessoas que, segundo ela, gritaram o nome do candidato à Presidência Jair Bolsonaro, do PSL. Seu nome: Jullyana Barbosa. É catadora de lixo e ex-integrante do grupo Furacão 2000.

 

Na segunda-feira, 8, uma jovem prestou queixa em delegacia de Porto Alegre após ter sido atacada por três homens, que a imobilizaram e entalharam em seu dorso uma suástica com um canivete. Ao denunciar o caso na delegacia, ouviu do policial que não se tratava de uma suástica, o símbolo nazista, mas de outro desenho sem relação com a ideologia preconizada por Adolf Hitler.

 

Questionado por um jornalista sobre o número crescente de agressões atribuídas a seus apoiadores, Bolsonaro saiu-se com uma resposta escorregadia: não posso controlá-los.

 

Há um fundo de verdade nela. Débil, mas há. A rigor, Bolsonaro não pode fazer nada a respeito da conduta criminosa de um ou outro apoiador, mas não pode minimizá-la. Como candidato a presidente, o militar tem a obrigação de condenar prontamente cada ato de violência contra quem quer que seja.

 

Há um risco no País que não está mais simplesmente no ar, mas nas ruas. É um medo real de que algo esteja prestes a sair dos trilhos. Não é discurso alarmista. As pessoas - uma parte delas - parecem começar a sentir que podem hostilizar quem elas consideram diferentes: o mestre de capoeira, a lésbica, a transexual.

 

Não se pode aceitar, sob nenhuma hipótese, que esses episódios sejam interpretados como incidentes triviais sem conexão entre si. Há um denominador comum a todos: o ódio. São todos crimes contra as diferenças.

 

É bom que se comece a dizer as coisas pelos nomes que elas têm. Com clareza, sem apelar a eufemismos. No País onde uma vereadora foi morta a tiros e sete meses depois ainda não se conhecem os autores do crime, algumas pessoas estão morrendo vítimas da intolerância política.

 

Nenhum desses casos mereceu de Bolsonaro uma condenação expressa, cristalina, incontornável. Pelo contrário. Às vésperas da eleição, um dos candidatos a deputado estadual pelo seu partido fotografou-se sorridente enquanto rasgava um cartaz de homenagem a Marielle Franco.

 

Fez isso durante comício do ex-juiz Wilson Witzel (PSC), aliado de Bolsonaro que ameaçou dar voz de prisão a Eduardo Paes (DEM) caso o rival mentisse no debate.

 

Rodrigo Amorim, o tal candidato, foi o deputado estadual mais votado para a Assembleia Legislativa fluminense.

 

Nesses dias, fui procurado por uma mãe ainda muito jovem. Ela me contou que, pela primeira vez, foi hostilizada na rua enquanto andava de mãos dadas com a filha. "Acharam que éramos um casal gay", ela falou.

 

Henrique Araújo

henriquearaujo@opovo.com.br  

jornalista do O POVO