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A política brasileira e a barbárie

01:30 | 14/09/2018
 

Nesta sexta-feira, 14, completam-se seis meses do assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol). A execução da parlamentar e de seu motorista Anderson Gomes, até hoje sem avanços significativos na investigação, se soma a outros casos de extrema violência que perpassam a política brasileira, como o ataque a tiros a uma caravana do ex-presidente Lula no Paraná, novo atentado a tiros contra um acampamento pró-Lula em Curitiba e, recentemente, a facada contra o candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), em Juiz de Fora (MG). Ou seja, chegamos ao limite do acirramento de ânimos no País, que não está poupando nenhum lado do espectro ideológico. Entramos no inaceitável campo da barbárie, muito comum aqui em tempos passados, quando a falta de civilidade imperava.

 

Essa escalada da violência no âmbito eleitoral, antes restrita a discursos de ódio nas redes sociais e em atos públicos, é mais do que um sinal de alerta. É um chamado urgente para a pacificação e atuação das instituições. A impunidade é o principal combustível para o aumento desse tipo de prática. 

 

Com exceção do ataque contra Bolsonaro, em que o autor foi filmado e em seguida capturado, os outros casos aqui citados continuam sem resposta. No momento em que uma sociedade cujos laços estão esgarçados não enxerga uma atuação forte do Estado e de seus representantes, ela se acha no direito de reagir contra seus adversários da maneira que bem entender: ferindo e até matando.

 

Por enquanto, lidamos com fatos isolados, aparentemente desorganizados em termos operacionais, diferente de outros países que decidem suas questões políticas por meio de uma batalha sangrenta entre grupos rivais. Entretanto, caso não aconteça uma reação enfática das autoridades e das organizações civis sérias deste País, corremos o risco de seguir o mesmo caminho.

 

Aqui no Ceará, por exemplo, a Justiça pediu o envio de tropas federais diante da interferência de facções criminosas no pleito. Esse é o maior perigo que corremos hoje: organizações armadas e com recursos financeiros querendo determinar em quem o eleitor deve ou não votar, decididas a eleger pessoas afinadas com seus interesses. Em um Brasil com uma abissal desigualdade social, que não oferece oportunidades para uma grande parcela da população, as perspectivas ficam ainda mais tenebrosas. É preciso uma reação à altura em variadas frentes. Não dá mais para atuar a reboque das tragédias. É preciso planejamento efetivo, inteligência. Um basta na incompetência, nos achismos, nas gambiarras governamentais. Antes que seja tarde demais.

 

 

Ítalo Coriolano 

coriolano@opovo.com.br

Jornalista do O POVO