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Prisão domiciliar

01:30 | 09/07/2018

Como lamentavelmente não se costuma ver adolescentes lendo jornais, a pergunta que faço não é descabida: Ainda lembra o caro leitor de quando podíamos passar horas sentadas nas cadeiras postas em nossas ruas, notadamente à noite, a fim de despreocupadamente conversarmos com nossos vizinhos? Pois acreditem os mais jovens, houve um tempo que isso era costume diário! Mas o tempo passou e quanta coisa mudou. Hoje isso é inconcebível, beirando a sandice.


Mais que prazerosos; aqueles hábitos tinham o poder de entrelaçar os laços sociais, constituindo-se em poderosos instrumentos de fortalecimento das relações sociais; mesmo que em meio às velhas fofocas, que até funcionavam como meios de catarse e de vigilância com o que faziam ou com quem andava seus filhos. Considero-as genuíno veículo do equilíbrio social, pois, se um sabia do errado do outro, prevenia logo a todos os seus para que isso ou aquilo não ocorresse em sua família.


Em dias atuais, diante da violência atroz que campeia, tornaram-se necessárias: grades nas janelas, a elevação dos muros, cercas elétricas e, o mais grave, veio o medo, o pânico. As famílias perderam o direito ao hábito saudável de se congregarem ao fim do dia; sentenciadas pela insegurança, a permanecerem internas em seus lares. Quando se sabe da vida comunitária é através de escândalos já publicados em redes sociais com mais de mil clics. Não se pode mais prevenir nada, só obedecer às sentenças impostas a nós não pela justiça, mas pelo crime organizado. A vida humana foi desprovida de qualquer valor.


Não se conhece mais os vizinhos, a morada coletiva vertical nos condomínios de apartamentos não traz espaços de lazer comum como as velhas calçadas de outros tempos. É mais recorrente adolescentes do mesmo prédio passarem horas conversando pelo WhatsApp em digitações frenéticas do que encontrá-los na praça do condomínio. Os pais de hoje até preferem, sentem-se mais seguros, tanto que optaram por esse tipo de morada que se tornou a característica da habitação urbana. Sem cometermos crime algum, vivemos em prisão domiciliar, sem sequer sabermos quando seremos novamente libertos!

 

Odailson da Silva

odailson1975@hotmail.com

Escritor

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