VERSÃO IMPRESSA

Nossa culpa na crise do mercado editorial

01:30 | 25/07/2018

A crise que o mercado editorial vem enfrentando no Brasil e no mundo não é novidade. No vermelho desde 2012, a Livraria Cultura realizou uma das mais faladas operações financeiras do ano passado, anunciando a aquisição das operações brasileiras da Fnac, ganhando 12 novas lojas em sete estados e diversificando seus negócios. Poucas semanas antes desse anúncio, o presidente da Cultura, Sérgio Herz, havia declarado em entrevista, assumindo o cenário de instabilidade: "Se a Amazon vier aqui dizendo que quer me comprar, eu vou avaliar. Vai pagar bem?"

 

Em fevereiro último, a Barnes & Noble, maior rede de livrarias dos EUA, anunciou a demissão de 1.800 funcionários em 781 lojas, o que geraria economia de custos de aproximadamente US$ 40 milhões. Em pouco mais de um ano, as ações da empresa registraram uma baixa histórica: caíram de US$ 8,575 para US$ 4,60 por ação. Um dos maiores e mais antigos investidores da casa, David Abrams, vendeu todas as suas ações - cerca de 13% do valor total.

 

No campo das queixas e justificativas, quase todos os dedos da culpa apontam para a Amazon e sua política predatória de vendas: promoções diárias, grandes investimentos em marketing direcionado e fretes gratuitos. O crescimento da empresa, com um número cada vez maior de lojas físicas em inauguração, subverteu o discurso de que os livros estão fora de moda e de que já quase não se lê.

 

Mas a corrente da crise enfrentada pela Barnes & Noble, nos EUA, e pela Livraria Cultura, no Brasil, tem um elo ainda mais fraco. As pequenas livrarias, as lojas de bairro, são as que mais prejuízo sofrem nesse cenário de migração para uma experiência virtual de compras. Algumas se esforçam para a criação e consolidação de um calendário de atividades que movimentem o espaço entre as estantes e prateleira. São sobreviventes.

 

Fazia tempo que havia me rendido às facilidades da Amazon, mas há cerca de um ano decidi voltar a frequentar lojas físicas. Por opção, decidi acabar com as caixas de livros promocionais que chegavam pelos correios e se acumulavam pela casa. Vou à livraria quando preciso de uma nova leitura, escolho a partir da pilha de livros em mãos. É melhor assim. Essa experiência é impagável.

 

Jáder Santana

jader.santana@opovo.com.br 

Editor do o povo

TAGS