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No teatro, o te ato e o transe

01:30 | 28/07/2018

 

José Jackson Coelho Sampaio

jose.sampaio@uece.br

Professor de Saúde Coletiva e Reitor da Uece

 

A experiência teatral tornou-se quadrado esquema de galãs de novela e rala densidade crítica, assim perdi paixão. Mas, neste mês fui ao teatro, provocado pelo nome, "Para frente, o pior", e o registro de teatro laboratório do Porto Iracema das Artes, pela Companhia Inquieta. Foi insólito o vivido.

 

Agrupamo-nos por trás do prédio, para entrada pelo palco, com a platéia vazia. Teatro do Absurdo, Living Theater e oficina propunham estas fusões palco/plateia, porém, trilhei mais os Teatros de Protesto, do oprimido e marginal, pois a ideia de arte engajada em transformar a realidade me seduzia. Entretanto, não esqueci a arte-prazer, denúncia e convocação, sem bula.

 

No tempo da cena, a percepção inicial foi de que, embora a pesquisa original  fosse "um corpo em final de festa", não havia festa, só repetição, ida-vinda, recusa ao significado, expressão caricata da "vida como ela é" e do processo de alienação, articulando leituras da antipsiquiatria e do marxismo.

 

Pela lateral da plateia os atores sobem ao palco e o jogral indica a busca da vida sem certo/errado, metáfora, ideologia, só fluxo de coisas entre coisas. Pela lateral da plateia os atores somem do palco, deixando órfãos os assistentes. No ínterim, seis personas, ligadas por braços e mãos, contorcem-se para fugir da liga, arfantes. Uma assume a liderança, para logo ser arrastada, exausta.

 

Os jovens atores se entregam plenamente, com disciplina e paixão, para explicitar o vazio e a impotência, mas demonstram as impossibilidades disso. Militância, talvez cega, e força, talvez bruta, transformam-se em massa de drama, e se há drama, há sentimento. No fundo da alienação emerge o espasmo de um sentido. O abandono dos assistentes no palco vazio induz reflexão sobre aparências e ritos. A liga do grupo impede que cada indivíduo desabe. Mas, grupo fetichizado, sem gestão democrática das perdas, parece produzir apenas o fascismo da sobrevivência.

 

Numa terça-feira de julho, no Brasil da corrupção por si mesma e dela usada para justificar golpes, violenta perda de direitos após breve primavera e ódios ideológico-culturais por sobre exploração econômica e luta de classes, aconteceu esta excruciante vivência da dor mais profunda.

 

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