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Lula e Bolsonaro não passam de dois mitos

01:30 | 12/07/2018

Assim como é inócuo querer abater o deputado Jair Bolsonaro fuzilando-o como machista, homofóbico e outras acusações (de) do gênero, é tal-qualmente inútil pretender desconstruir Lula sob a pecha de desonesto. Nisto, tanto um quanto o outro são bem parecidos. Aos olhos de suas respectivas militâncias são mitos. Com toda a carga simplista e ao mesmo tempo complexa embutida no conceito.

Assim sendo, pouco importa que o deputado tenha sido indecoroso com a deputada petista Maria do Rosário (RS), em comentário chulo responsável por lhe render uma condenação no Superior Tribunal de Justiça (STJ), por unanimidade, ratificando sentença do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF).

Em 2015, bateu-se o martelo para que ele pagasse indenização à petista por danos morais. Disse que ela não merecia ser estuprada. Uma boçalidade. Ou ainda, em nada implica a coleção de comentários agressivos contra militantes dos movimentos feministas, LGBTs e tantos outros ligados a partidos ditos de esquerda.

Do mesmo modo, parecem ter efeito abnóxio todas e quaisquer acusações de desonestidade contra Lula, mesmo estando o líder petista preso e condenado a 12 anos pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, após ter a sentença do juiz Sérgio Moro confirmada em segunda instância.

Pois muito bem, experimente usar estes argumentos com os ora inocentes e ora úteis militantes de ambos. Mesmo que nada. Enquanto Bolsonaro surfa na autenticidade de suas posições politicamente incorretas, abraça a legião de brasileiros pouco disposta a fazer concessões aos bons modos. O “prendo e arrebento” lhe cai bem e caiu no gosto de quem não suporta mais a violência.

O discurso dele é o da conveniência. Segue o padrão. Um ex-presidente da República já cravou no epitáfio do pudor na política nacional: “Quando a gente é de oposição, pode fazer bravata porque não vai ter de executar nada mesmo. Agora, quando você é governo tem de fazer, tem que ser responsável, e aí não cabe a bravata”. Sabe quem era esse? Luiz Inácio falou.

Tem sido comum nas consultas informais sobre intenções de voto, sem valor científico, mas também sem edição, respostas que caracterizam bem o que somos. Sobretudo quanto mais próximas da base, as pessoas dizem querer votar no petista. As pesquisas feitas pelos institutos do ramo corroboram.

Não esquecem o momento mais alvissareiro da economia, com o acesso a bens de consumo e a ganhos reais de salário, antes da tragédia do dia seguinte, estancada pela equipe econômica de Temer. Às favas com as gangues que saqueavam Petrobras e outras joias públicas em tenebrosas transações. E na impossibilidade de Lula, emerge nas consultas o nome do outro mito.

Pensando bem, fiquemos com a definição de mito como algo fácil, uma mistificação ou uma mentira, seu campo semântico mais acolhedor. Alfred Sauvy, o economista e sociólogo francês autor da expressão “terceiro mundo”, cunhou uma definição bem pertinente: “os mitos são ideias comumente recebidas, que desaparecem ao serem examinadas”. É, Bolsonaro e Lula são mesmo dois mitos.

 

Jocélio Leal

leal@opovo.com.br

Jornalista do O POVO