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Gente-monumento

01:30 | 18/07/2018

Foi ano passado, após entrevistar Seu Mauro Coutinho, 81, funcionário do Theatro José de Alencar (TJA) desde 1953, que me atentei a algo fundamental para pensar a história dos nossos equipamentos culturais e prédios históricos. Esses espaços seriam apenas amontoados de concreto se não fosse o amor de gente comum por trás dessas edificações. Os gestores passam, mudam-se as prioridades do poder público, mas é gente como o Mauro, sonoplasta e operador de som, que sustenta tudo. Ele disse não poder viver sem o TJA: “É um alimento para mim”.


No último fim de semana me lembrei dele ao conhecer outra “gente-monumento”, a Fátima Silva, 64, responsável por cuidar do bar Lions Self-Service, que ocupa prédio histórico cuja inauguração data de 1915. Troquei de idade dia 15 e resolvi celebrar no estabelecimento. Foi quando tive a chance de entender de perto como o espaço é cuidado. Já tinha ouvido de amigos sobre a abertura de Dona Fátima para receber comemorações. Ao lado do esposo, seu Eufrásio, 77, ela se enche de alegria quando o local é escolhido para festas.


Situado na Praça General Tibúrcio (ou Praça dos Leões), o prédio é emblemático de um Centro contraditório. Fátima e Eufrásio, porém, não se intimidam e abrem as portas mesmo em dias e horários não convencionais. O importante é a folia acontecer. Os dois registram em suas falas um cuidado muito mais afetivo que burocrático — claro, entendendo ser preciso alertar aos visitantes sobre a importância do cuidado com o prédio e seu entorno, afinal, a praça é um bem tombado pelo Estado desde 1991.


É lindo perceber como os dois estão aberto às diversidades tão comuns às juventudes. Dona Fátima foi logo dizendo que adora ver o local lotado “desses artistas diferentes” que animam o espaço – a exemplo da cena drag queen da Capital, que vez por outra se reúne por lá. Antes mesmo de qualquer impasse sobre “pink money”, o Lions é casa, desde 2016, de algumas das mais bonitas festas do meio LGBTI.


Enquanto eu comemorava com amigos e família, Fátima se emocionou ao me contar que aquela festa estava lhe fazendo lembrar os entes queridos dela, lá da Paraíba. “É uma honra ver aqui cheio de vida”, abraçou. Como Seu Mauro disse em relação ao TJA, o apego por esses locais históricos ultrapassa qualquer pormenor e vai além de ser fonte de renda. “Não é o dinheiro, é o coração”, me disse ele ano passado. “Isso tudo é nosso. Meu, seu, dos seus amigos”, completou Fátima no último domingo.

 

Renato Abê

orenatoabe@gmail.com

Jornalista do O POVO

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