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Editorial. Extravio de armas e munições

01:30 | 28/07/2018

Pelo menos 1.337 munições e 23 armas que estiveram sob a responsabilidade da Polícia Federal no Ceará, foram extraviadas do paiol da instituição. Sumiram do depósito em que é guardado o armamento retido para perícia, anexado a investigações em andamento. O arsenal, separadamente, fazia parte dos inquéritos de crimes federais registrados no Estado sob os cuidados da PF. O desaparecimento se deu no período de 11 anos - entre 2006 e 2017.

 

Ontem, O POVO divulgou, com exclusividade, dados de um relatório da Diretoria de Administração e Logística (Dlog) da PF que aponta a Superintendência do órgão, no Ceará, liderando o ranking de munições extraviadas no período, entre todas as 27 unidades regionais da instituição. Quase 400 munições a mais que São Paulo, o segundo no levantamento, ou mais que o dobro do que foi extraviado no Rio de Janeiro, terceiro colocado. Em relação ao número de armas retiradas indevidamente, a PF do Ceará ficou em sexto, conforme o relatório.

 

O documento junta dados da direção nacional da PF e não revela informações importantes. Quais as circunstâncias em que o material sumiu das instalações federais? Foram desaparecendo? Eram pistolas, revólveres ou espingardas? Quais os calibres das armas e munições levadas? Também não é dita que quantidade chegou a ser recuperada - houve isso? - e, principalmente, quem foi responsabilizado internamente na PF pelos episódios. A culpabilização, se tratada internamente, chegou a que desfecho? Um crime, no mínimo, aconteceu: furto. No Brasil, o extravio total foi de 4.795 munições e 404 armas.

 

Curiosamente, o documento nasceu de uma cobrança feita pelo gabinete do deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ), de uma comissão externa da Câmara dos Deputados que acompanha as investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e do motorista Anderson Gomes. Os dois foram executados no dia 14 de março deste ano.

 

À primeira vista, o sumiço das armas e balas na Superintendência do Ceará mostra-se como uma quantidade irrisória, dado o período de 11 anos computados. Na conta, são "apenas" 121 munições e duas armas retiradas por ano dos cuidados da Polícia Federal. A advogada Isabel Figueiredo, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ouvida pelo repórter Lucas Barbosa, que assina a matéria, reconheceu que a média de extravios nem parece tão "absurda".

 

A cobrança principal a ser feita é sobre a alta incidência de armas e munições levadas de dentro das dependências de uma sede da Polícia Federal. No caso, de todas as unidades regionais. Não foram casos pontuais. É grave. 71% das armas apreendidas entre 2013 e 2016 no Ceará tinham registro legal. Estavam em situação regular, segundo o Instituto Sou da Paz. A Polícia Federal não respondeu a questionamentos feitos pelo O POVO. Precisa dar detalhes destes casos. As armas e munições extraviadas estão nas ruas, podem estar envolvidas em novos crimes até mais graves.

 

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