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Editorial. Centenário de Nelson Mandela

01:30 | 19/07/2018

Ontem, dia do centenário de nascimento de Nelson Mandela (Rolihlahla Madiba Mandela), foi-lhe dedicado uma página de homenagem no O POVO, como ocorreu - e ainda está ocorrendo - em incontáveis meios de comunicação social no mundo inteiro. Afinal, trata-se de um dos maiores líderes políticos da contemporaneidade, exaltado por sua luta antissegregacionista contra o regime de apartheid, então vigente na África do Sul, pela qual pagou um tributo de 27 anos de injusto encarceramento como preso político. Era preciso impedir que governasse o país.

 

Não adiantou: libertado em 1990, aos 72 anos, chegou a receber, em 1993, o prêmio Nobel da Paz, e a eleger-se, no ano seguinte, primeiro presidente negro da África do Sul.

Morreu em 2013, entrando para o panteão dos grandes vultos da humanidade.

 

Sua saga não se resume à versão soft e institucionalizada (como sempre ocorre em figuras dessa grandeza). É imperativo resgatar sua inteireza para melhor auferir sua contribuição à história humana. Figuras de sua estatura estão sempre deslocadas, em seus respectivos contextos, por confrontarem interesses consolidados e serem enxergadas por estes como estorvo ou "pedra de escândalo". Isso aconteceu até com Cristo.

 

O Mandela-mito, de hoje, foi durante os 27 anos de prisão (e antes disso) a encarnação do pária político, "subversivo" e "terrorista" do qual os "bem-pensantes" deviam manter uma distância considerável. Sobretudo, depois de ele - após o malogro de suas iniciativas pacíficas para libertar seu povo da escravidão colonial e racista - ver-se obrigado a recorrer às armas para atingir seus justos objetivos.

 

A resposta do establishment foi uma sentença de morte por enforcamento (transformada em prisão perpétua) com o beneplácito das grandes potências ocidentais. Afinal, ele ousara enfrentar o status quo imposto por Estados Unidos, França e Inglaterra, e seus carrascos eram aliados do "mundo livre" - como tentavam justificar na época. Margareth Thatcher chegou a apodá-lo de "terrorista". Nenhuma dessas potências e governos se penitenciou pelo que fizeram contra ele e seu povo.

 

O fato é que identificar o fio condutor da História no momento mesmo em que este está sendo desenrolado é um processo litigioso. Uma barreira de interesses hegemônicos sempre tenta impedir sua visão direta pelo restante da sociedade.

Nelson Mandela tentou descortinar o fio condutor real e pagou um alto preço por isso. Não foi o primeiro, nem o último líder político desse porte a enfrentar tal perfídia. Seu exemplo é pedagógico e serve de lição aos defensores do direito e da democracia.

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